A Quaresma é um período de reflexão, introspecção, penitência e preparação espiritual que inicia na Quarta-feira de Cinzas, tem duração de 40 dias e se encerra na Páscoa. Celebrada por diversas tradições cristãs e inspirada no tempo em que Jesus Cristo peregrinou no deserto, a prática surgiu por volta de 350 d.C. e, até hoje, apresenta significados e aplicações litúrgicas diferentes entre igrejas como a Católica, Anglicana e Luterana em Pelotas.
Na Igreja Católica, a Quaresma é um tempo de conversão e preparação espiritual, marcada pela imposição das cinzas na testa dos fiéis no primeiro dia, lembrando a fragilidade do homem – o qual veio do pó de acordo com a bíblia – além de conter a meditação da Via Sacra em algumas celebrações e missas profundas durante os 40 dias.
Para Paola Wanglon, leiga, membro da Catedral Metropolitana São Francisco de Paula, há um chamado de silêncio interior e arrependimento para viver a Páscoa com um coração voltado a Deus. Para isto, penitências são adotadas como forma de purificação e desapego aos bens deste mundo.
Neste ano, o Papa Leão XIV, sumo pontífice da Igreja, propôs aos católicos o chamado “jejum de palavras”, que consiste em diminuir palavras ofensivas e ampliar o espaço dado à voz do outro. De acordo com Paola, suas práticas foram impactadas por esta orientação do bispo de Roma. “Este ano minha quaresma será de oração, vivendo a santa missa no mínimo três vezes na semana. De silêncio, evitando fofocas e julgamentos, quero jejuar de palavras desnecessárias e atitudes. E de serviço, praticando algum ato de caridade semanalmente”, relata.
Um convite a olhar para o próximo
A Igreja Anglicana também vive intensamente este período, com estudos em pequenos grupos, cultos e retiros que promovam contemplação e oportunizem uma maneira de repensar a fé, segundo Loide Montezano, fiel da comunidade da Catedral do Redentor. As práticas da igreja se preservaram com o tempo, como a decisão de aderir a um jejum alimentar ou de hábitos e firmar compromissos de auxiliar alguém que necessita. “Tudo gira em torno de agradar a Deus”, conta Loide.
Ela afirma que o tempo é de autorreflexão e caridade. “É um momento de nos atentarmos para as necessidades das pessoas dos projetos que são desenvolvidos pela Igreja. São feitas campanhas de arrecadação de alimentos e de material escolar para crianças e adolescentes da Associação Amar”, destaca.
A caridade é também um pilar para a Igreja Católica, junto com o jejum e a oração, os quais se complementam, conforme explica Paola. “A oração se torna mais presente, como uma conversa mais íntima com Deus. O jejum me ajuda a lembrar que nem tudo é sobre o que eu quero, mas sobre o que Deus quer de mim. A caridade me recorda que a fé precisa se traduzir em amor concreto, ajudar, escutar, ter paciência e olhar para o outro”, pontua.
Na Igreja Luterana, conforme Cláudio Becker, ministro da paróquia Santa Maria do Sul, interior da cidade, além dos cultos, encontros entre grupos das juventudes e visitas às pessoas enfermas e idosos, são realizadas campanhas diversas que visam mobilizar os fiéis de forma comunitária. Neste ano de 2026, especialmente, seguindo o Tema do Ano da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, que faz um chamado a “Cuidar da Criação de Deus”, os fiéis focam em ações que difundem o significado da Quaresma, como a boa convivência e a coleta seletiva do lixo.
Para os luteranos, o caminho a ser seguido no período de renovação espiritual é de escuta e esperança, segundo Becker. “A Quaresma é tempo de ouvir mais atentamente a Palavra de Deus e refletir sobre o sacrifício de Cristo buscando inspiração para atitudes e gestos que possam ajudar o mundo a ser melhor. Assim, não é um tempo de tristeza, mas um momento de humildade, renovando a confiança na promessa do evangelho que culmina na alegria da ressurreição na Páscoa”, conclui.




