
“Olha o camarão!”, “Vem que o peixe tá fresquinho”, “Vamos aproveitar?”. Frases como estas passaram a preencher diversos pontos de Pelotas com o início da 10ª Feira Municipal do Peixe que teve início na segunda-feira (3). Nesta data, muitos feirantes já alertavam para a possível falta de opções ainda nos primeiros dias. O principal alvo da preocupação é a traíra, espécie mais solicitada pelos compradores e que possui menor disponibilidade no ano.
Igor Fonseca, proprietário de uma peixaria do Mercado Central, indica que o movimento tem crescido bastante antes da sexta-feira. “As pessoas tão antecipando as compras, acho que isso é importante também, pra não pegar aquela muvuca do final de semana.”, comenta. Segundo ele, tainha, camarão e pescadinha estão entre os favoritos do público.
Ele também fala sobre o ano atípico em relação à disponibilidade. “Esse ano tá bem escasso. Traíra mesmo é o primeiro ano na minha vida que eu não tenho”, pontua.
O movimento ainda no início da semana impôs um alerta para a população: quem não se antecipar pode ficar sem, ou pagar mais caro, conforme Brenda Costa, vendedora de outro estabelecimento. “Desde segunda-feira (3) tem tido bastante movimento, e vem só crescendo. […] Tem bastante peixe que as pessoas pedem mais e vem diminuindo (a disponibilidade), que é o filé de tainha, a traíra mesmo, diminui bastante”, indica.

Pensando nisso, muitos consumidores resolveram se adiantar e aproveitar a oportunidade, como Ricardo Jardim, de 57 anos, que mora em Santa Vitória do Palmar mas, de passagem por Pelotas, já garantiu as compras do feriado. “A gente já tá comprando agora pra quando chegar a sexta-feira já ter organizado”, diz.
O movimento também é intenso fora da área central. Há mais de 20 anos, Deise Chagas, proprietária de uma peixaria da Colônia Z3, ocupa sua banca em frente a um supermercado na avenida Duque de Caxias em época de feira e a expectativa é boa para os dias que antecedem à Sexta-feira Santa. Quanto ao líder dos pedidos, a traíra aparece mais uma vez como desejo de consumo de grande parte da clientela. “A disponibilidade dele hoje é bem precária, porque a nossa lagoa permanece salgada por muito tempo, e daí a gente não tem muita traíra. Essa que eu tenho tá vindo do Uruguai e de uns açudes”, explica.
A descentralização na venda dos peixes também é vista com bons olhos pelos clientes. Geovana Einhardt, de 76 anos, já é compradora assídua dos produtos de Deise. “É ótimo, porque aí não precisa se deslocar lá pro Mercado pra buscar”.
Conforme Márcia Vesolosquzki, extensionista da Emater/RS-Ascar, a traíra é o produto mais requisitado pelo público, no entanto, por falta de oferta não é o mais vendido. Ela indica a tainha como campeã das vendas em Pelotas. “Traíra tem pouco também, então a oferta não está sendo o esperado […] tem muitos feirantes que eu tenho conversado que acham que na quinta-feira já não vão ter mais pescado pra vender”, ressalta. Espalhados por diversos pontos de Pelotas, 45 feirantes cadastrados junto à Prefeitura comercializam seus produtos. É possível conferir a lista completa com os pontos de venda, no link: https://bit.ly/3KCegg7.
Trabalho intenso
Para quem trabalha com as vendas de forma autônoma a correria também não cessa. Miguel Donini é analista comercial e estudante de Jornalismo, além de ser filho de pescador e ter contato direto com o trabalho do pai. Ele relata que, especialmente durante a Semana Santa, as vendas da peixaria familiar disparam e todos se envolvem nos preparativos.
O dia dele começa às 6h30, com deslocamento da Colônia Z3 até o bairro Três Vendas e o movimento segue pelo menos até às 19h. “Quando voltamos para casa, precisamos descarregar tudo, guardar peixe se sobrar, lavar as caixas, já organizar para o outro dia, tem dias que paro por volta de meia-noite, mas também já tive dias onde fui deitar às 3h para acordar às 6h”, descreve.
Donini conta que começou a participar do trabalho por conta própria, após perceber que poderia fazer parte desta rotina da casa. “Meu pai é pescador desde sempre, mas ele me blindava desse mundo, não queria que eu seguisse os passos dele na pesca, dizia que não queria que eu “passasse trabalho” igual ele, já que realmente é uma profissão incerta, onde tudo depende de diversos fatores. Ele sempre quis que eu seguisse estudando, e foi isso que eu fiz, hoje tenho uma profissão e também sou graduando. Mas de uns anos pra cá ele resolveu entrar no mundo das feiras e nisso vi uma oportunidade de trabalhar junto com ele, já que em semanas normais vamos somente aos sábados. Foi meu primeiro emprego, comecei a ir às feiras antes de começar a trabalhar de carteira assinada, no início nós fazíamos entregas dias de semana”. A demanda é tanta que ele aproveitou as férias do trabalho para auxiliar a família. No local em que trabalha, a traíra também lidera entre os mais pedidos.



