Pela primeira vez, jovem com deficiência visual se forma em Jornalismo pela UFPel

Jornalista, Samira Lucas Silveira se prepara para ter o Direito como segunda graduação. (Foto: Reprodução)

Samira Lucas Silveira, de 25 anos, se formou no curso de Jornalismo no último sábado (4) pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Diagnosticada desde a infância com glaucoma, a agora jornalista foi a primeira aluna com deficiência visual formada no curso.

Natural de Pedras Altas, a jovem relata que nunca enxergou do olho esquerdo, e até os 11 anos teve baixa visão no olho direito, o que foi perdendo gradativamente, restando apenas uma percepção de luz atualmente.

A condição visual de Samira não se mostrou um verdadeiro problema. E se a faculdade costuma ser um desafio, Samira tirou de letra. Segundo ela, mesmo no início da jornada rumo ao diploma, tudo correu normalmente. “Eu achei bem tranquila a acolhida quando eu cheguei. Nunca tive nenhum problema, então me senti bem recebida, tudo de boas mesmo”, conta.

Com uma curiosidade sem medida e fome de aprender, Samira diz que viu no jornalismo uma oportunidade de unir o que gosta. “Essa amplitude, essa possibilidade da gente abordar vários assuntos, vários temas, é algo que sempre me chamou atenção. E gostar de esporte, de rádio, de investigação, até mesmo de pesquisar e ser curiosa contribui pra que eu goste de Jornalismo e tenha escolhido cursar”, detalha.

Ao longo do curso, a então aluna manteve diálogo frequente com os professores para ajustar possíveis demandas específicas trazidas por aulas. Nem mesmo a chegada da pandemia e a necessidade de utilizar a plataforma virtual da universidade foi um problema para Samira. “Quando entrou o EAD até foi tranquilo. A única coisa que a gente tinha mais dúvidas é como seria a questão de acessibilidade da plataforma, porque a gente não usava. Então eu achei de boa a plataforma, não tive grandes problemas, era mais a adaptação de mexer e conhecer o E-aula”, relata.

Hoje, com a graduação concluída, a jornalista já pensa nos próximos passos, que lhe levarão a ser bacharel em Direito. “Eu sempre flertei com o Direito eu acho. É algo que me chama muita atenção. Eu gosto de saber, ler as leis, curiosidade mesmo, mas é algo que me interessa muito, me chama atenção. É algo que eu já pensava, ou fazer Direito e Jornalismo depois, ou Jornalismo primeiro, como foi”, destaca. Mas apesar da mudança de ares, a jornalista deixa claro que pretende estar perto da profissão. “Eu gosto de aprender novas coisas, de investigar novas possibilidades. Acho que o que surgir eu estou de olho, não pretendo me distanciar do jornalismo, é algo que eu estou sempre ligada”, afirma.

Experiência no ambiente acadêmico
A coordenadora do curso de Jornalismo da UFPel, Silvia Meirelles, lembra que o ingresso de Samira na graduação enriqueceu e trouxe variedade para as áreas e atividades abordadas.

“Isso foi muito importante pra gente se dar conta, primeiro que o curso de Jornalismo não tava enxergando pessoas com deficiência, não tava enxergando pessoas cegas, e aí começaram a aparecer projetos no curso e a gente começa a pensar a produção de conteúdo pra pessoas cegas. Então, com certeza, quando uma pessoa com deficiência entra em um curso na universidade a universidade passa a fazer perguntas que antes não fazia”, aponta.

Silvia cita que em uma das disciplinas que ela própria ministra, a aluna e suas necessidades a fizeram repensar a acessibilidade do conteúdo produzido até então no curso. Isso porque algumas plataformas utilizadas na faculdade não possuíam recursos para leitura de tela para deficientes visuais e, durante a busca por outras ferramentas, a docente conta que acabou descobrindo recursos ainda melhores em sites com suporte acessível.

Como professora, a coordenadora descreve Samira como uma aluna que já chegou muito conectada no curso, trazendo sempre ideias e informações que acrescentassem ao assunto discutido.

“Eu aprendi muito com ela. Porque, primeiro, ela é uma pessoa muito proativa, então ela tinha muita vontade de fazer as coisas. A gente entregava algo, ela já retornava com algo além do que a gente tinha falado. E é muito legal trabalhar com um aluno assim. E isso fez a gente ver que ela não é uma pessoa cega, ser cega é uma parte dela, mas ela tem muitas outras características que são importantes para ela ter chegado na graduação, para ela ter concluído a graduação, e que fazem dela essa pessoa tão especial”, aponta.

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