No Instituto de Menores, em Pelotas, o espírito natalino dura o ano inteiro

Atualmente, são atendidos 260 crianças e jovens, além de 12 bebês. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

A julgar pelas ações e benefícios oferecidos e distribuídos a quem mais precisa, é possível dizer que no Instituto de Menores Dom Antonio Zattera (IMDAZ), o espírito de Natal é uma prática que dura o ano inteiro.

Na ampla sede localizada na avenida Domingos de Almeida, nº 3.150, 260 crianças da chamada primeira infância a adolescentes na divisa com a idade adulta, até os 18, são atendidos no turno inverso ao da escola com direito a café da manhã, almoço e lanche, juntamente com uma série de atividades que incluem práticas esportivas, cursos profissionalizantes, música, dança, recreação e reforço escolar.

Além desse contingente, há ainda 12 bebês a partir dos quatro meses, atendidos em turno integral. Ano que vem, somando berçário e maternal e, mais ainda, os alunos da educação infantil, o que inclui jardim, pré 1 e pré 2, o número salta para 110.

Sim, educação infantil. A partir de 2023, na véspera dos cem anos da entidade, a serem comemorados no ano seguinte, o Instituto passará a oferecer turmas desse período escolar. Para o centenário, a meta é mais ambiciosa: inaugurar turmas da 1ª a 4ª série do ensino fundamental. Vale lembrar que, paralelamente, o Instituto oferece o Clube de Mães, com projetos de formação profissional e geração de renda.

Muito trabalho pela frente, portanto, está à espera da diretora do IMDAZ, a pedagoga e assistente social Patrícia Frank. Ela sabe disso. No cargo há três anos e meio, ela não teme o desafio: “Quem corre por gosto não cansa”, diz.

Patrícia Frank, diretora do Instituto de Menores Dom Antonio Zattera, conta que o trabalho é constante para manter as condições do local para o atendimento das crianças e jovens. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Natal

Patrícia e colegas de gestão do Instituto de Menores precisaram correr muito durante todo dezembro para garantir mais um Natal Solidário a toda comunidade acolhida pela entidade – o que inclui as famílias das crianças e adolescentes. A cesta básica distribuída mensalmente para as 134 famílias cadastradas desta vez incluiu frango, refrigerante e caixa de bombom para propiciar “uma ceia de natal digna”.

Esta é uma parte da campanha. A outra consiste na lista com o nome e a idade de todas as crianças. O documento é oferecido a um padrinho, a quem cabe dar um presente – roupa, calçado ou material escolar. A primeira leva foi entregue dia 14 para as crianças até os sete anos. A segunda, dia 19, para o contingente da faixa etária dos oito aos 18. Com direito à confraternização com as famílias e programação festiva com shows de música, apresentação da banda, presépio vivo e coreografias trabalhadas nas aulas de dança. Ninguém ficou sem presente.

Perfil e projetos

As crianças e adolescentes que chegam ao Instituto de Menores em geral vêm de famílias em situação de vulnerabilidade. Em vários casos são encaminhados por abrigos municipais e pelo Ministério Público.

A eles são oferecidos vários projetos desenvolvidos no espaço. O Notas de Esperança, que conta com apoio da Ecosul, oferece aulas de violão, iniciação musical, banda e de dança. A concessionária assume o salário dos seis professores que participam do projeto, custos de manutenção de instrumentos e o uniforme da banda; na área desportiva, são ofertadas aulas de futebol e handebol, além do projeto Quem luta não briga, em parceria com a Prefeitura, que disponibiliza aulas de taekwondo com o professor Rossano Diniz.

O IMDAZ dispõe também de classes de Informática, Espanhol e Inglês; no reforço escolar, os “pequenos” contam com aulas de letramento e alfabetização; aos “grandes”, interpretação de texto, reforço em Matemática, projetos e trabalhos escolares.

Uma psicopedagoga é responsável pela alfabetização dos maiores de dez anos. “Temos um número bem alto de crianças com déficit de aprendizagem”, informa Patrícia. A estrutura de apoio prevê também a atuação de uma psicóloga do grupo de extensão da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), especialmente junto a crianças vítimas de violência e de algum tipo de abuso.

A parceria com a UCPel garante ainda o atendimento odontológico. Casos mais graves são encaminhados ao setor da Saúde da Universidade, por exemplo, o de uma mãe que perdeu todos os dentes durante à agressão sofrida pelo ex-companheiro quando estava grávida do sétimo filho.

Manutenção

De acordo com a diretora, além de uma verba da Mitra Diocesana, o apoio da comunidade é fundamental para manter a estrutura. Nem sempre é suficiente. “Às vezes é quase mágica”, brinca. “Tem dias que a gente não tem leite e duma hora pra outra aparece um doador”, relata. Foi exatamente o que aconteceu na manhã do dia 8 deste mês, quando uma pessoa doou 50 caixas ao Instituto. Bendita hora. O estoque do produto, um dos mais solicitados, estava crítico na dispensa.
Vale o relato: “Teve uma segunda-feira em que uma menina de três anos perguntou: ‘tia, posso tomar mais um leite’ – dali a pouco a gente ouve: ‘eu tava com muita saudade de tomar leite porque não tinha na minha casa’. Como não vai ter leite? Tem que ter. Graças a Deus nunca faltou”, conta.

A iniciativa privada, juntamente com clubes de serviço, também dá seu apoio. Patrícia cita a construtora Roberto Ferreira, a Josapar (que garante estoque de arroz e feijão) e a Biscoitos Zezé (que faz doação mensal de seus produtos), além das ações do Rotary. Em 2022, o Fundo Social do Sicredi custeou a carne utilizada nas refeições. Com apoio dos funcionários da Caixa Econômica Federal foi aberto um curso de barbearia, no qual sete adolescentes já se formaram e atualmente cortam o cabelo dos colegas.

“É preciso dar formação”, afirma a diretora. “Eles ficam aqui até os 18, depois saem e vão fazer o quê?” – questiona, e prossegue: “Na primeira semana de dezembro, 55 alunos se formaram no curso básico de Informática. Ninguém vai sair expert daqui, mas o básico está garantido”, comemora.

Famílias não ficam de fora. O Clube de Mães, composto pelas responsáveis pelas crianças e adolescentes que frequentam o Instituto de Menores, oferece curso de costura, modelagem, serigrafia, manicure, corte de cabelo e panificação. Em 2023, os planos apontam para a instalação semanal de banquinhas na frente do IMDAZ para oferecer a produção do Clube.

Um desses produtos terá sido feito pelas mãos de Bruna Bernardi Ávila, moradora do Vasco Pires. Mãe da pequena Bela – uma das 260 crianças atendidas pelo Instituto de Menores – estava desempregada no início do ano. Por indicação da cunhada, fez o curso de costura. Se saiu bem e foi convidada a integrar o projeto Entrelaçando Sonhos. Em seis meses, aprendeu também “o básico e mais um pouco” do ofício de modelar, cortar, serigrafar e, assim, já presta trabalhos para fora em sistema cooperativado. A ideia é progredir também nos estudos, que ficaram pelo caminho no 1º ano do Ensino Médio. “Já retomei [os estudos]”, diz, com orgulho. “Termino [o Ensino Médio] no meio do ano que vem”, projeta.
O preço de manter uma estrutura capaz de proporcionar transformação e novos rumos não é baixo. “É uma luta”, reconhece Patrícia. “É uma rotina de inscrever projeto, ir atrás de patrocínio, de acionar a imprensa, ligar desesperada porque precisa de comida, de leite, é assim que vamos”, revela.

Rumo aos 100 anos

No papel, a contagem regressiva já começou. Na prática, a partir de 3 de julho do ano que vem, quando completa 99 anos. Será um ano inteiro de atividades a cada mês até 2024.
A programação será aberta com jantar no Dunas Clube. Depois, até julho do ano seguinte, ações envolvendo crianças e famílias. Em agosto, gincana no Laranjal; para setembro, caminhada do Ginásio do Areal ao Piratinino de Almeida, às escolas onde estuda a maior parte dos alunos atendidos no IMDAZ, com participação da banda, alunos, funcionários e egressos.

A programação alusiva ao centenário culmina com apresentação de todas as atividades realizadas na instituição no palco do Theatro Guarany. “A ideia é mostrar que estamos vivos, de que a ideia de Dom Antonio Zattera, de melhorar a vida de quem está aqui dentro, continua mais viva do que sempre”, indica.

“O coração de Deus”

O professor Sérgio Guimarães (ao fundo) com alunos durante ensaio da banda, pelo projeto
Notas de Esperança, patrocinado pela Ecosul. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Mineiro de Inhaúma, o regente da banda do Instituto de Menores, Sérgio Guimarães, não esconde a realização com o trabalho que desenvolve junto à crianças e adolescentes desde o início de 2020, quando em pouco tempo as atividades precisaram ser suspensas devido à pandemia do novo coronavírus.

Mesmo assim, não desanimou. Em Pelotas, para acompanhar a filha, estudante de Medicina, retomou o trabalho musical no IMDAZ no final do ano. Em 2021, passado o período mais agudo da crise sanitária, retomou as atividades já em fevereiro. “Em seis meses, já se começou a apresentar alguma coisa, no final do ano já estavam tocando – desenvolveram muito”, conta, orgulhoso.

Bacharel em Trompete pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com estudos de Regência pela Proarte, também no Rio, o músico demonstra um prazer inestimável ao ver os alunos da banda apreendendo os ensinamentos que teve oportunidade de ter acesso durante sua formação. “A música ajuda na vida, porque socializa, educa para a responsabilidade, para o trabalho em equipe, ensina a importância do silêncio, de tocar e ouvir, do falar e aprender”, discorre. “Eu aqui estou muito feliz, o IMDAZ é o coração de Deus, uma grande mãe e um grande pai dessa meninada”, aponta.

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