Em Pelotas, Ernani Marini tem uma vida dedicada à terra e à estrada

Nascido e criado na Colônia Júlio de Castilhos, 5º Distrito de Pelotas, ainda era menor de idade quando começou na profissão. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

O empresário Ernani Marini, de 76 anos, 59 deles dedicado ao ramo de transportes, e praticamente uma vida inteira ligada direta e indiretamente à agricultura, tem duplo motivo para comemorar o 25 de julho – Dia de São Cristóvão, em que também se celebra o Motorista e o Colono. Proprietário de uma transportadora que leva seu nome, ele reúne atributos que o caracterizam tanto na ocupação como na condição social homenageadas pela data.

Nascido e criado na Colônia Júlio de Castilhos, 5º Distrito de Pelotas, este filho e neto de agricultores que plantavam milho, cebola, batata e produziam leite, ainda era menor de idade quando começou na profissão. O primeiro caminhão, um “Fordinho-F5”, foi presente paterno. O ano era 1962 e ele tinha 16 anos. Não parou mais. Seguiu na estrada até junho de 1986, quando se afastou do volante para gerir a transportadora. “Os primeiros seis meses, meu Deus do céu”, conta. “Eu só dormia. Levantava, tomava café, ia pra cama, dormia de novo. Saía para a rua, não parava em casa, não sabia o que fazer”.

Foi difícil a adaptação à vida burocrática após mais de 20 anos rodando pela região, pelo estado e pelo país. Nesta fase, em que fazia fretes interestaduais, percorria entre 650 a 700 quilômetros por dia – “tudo na mão, sem caixa eletrônica, nada – os caminhões não tinham os recursos de hoje”, completa.

Empresário Ernani Marini, de 76 anos, possui 59 ligados ao setor de transportes. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Mas Marini não fez esta viagem sozinho. Começou com o irmão, Ireno, dois anos mais jovem. Carregavam a produção familiar da área rural para a urbana de Pelotas, incluindo lenha e malha de bambu – esta para comercializar na antiga Fábrica de Papel, na região do Porto de Pelotas.

Dois anos mais tarde, 1964, e 18 anos completos, trocou o Fordinho por um Ford-59. As distâncias aumentaram. Não se limitava mais a fazer Colônia-cidade e vice-versa. Agora, Marini tinha cargas para descarregar na região – tendo Jaguarão e Santa Vitória os destinos mais distantes. Em 1966, com um F-600 seminovo a gasolina, a região ficou pequena para suas pretensões ao volante. Com o novo caminhão pegou a direção do Sudeste, rumo a São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Na época, tudo era diferente, a começar pela infraestrutura rodoviária. Não existia BR 101, as disponíveis eram precárias, com direito a trechos sem asfalto.

Para ir até São Paulo se levava 28 horas desde o Porto do Rio Grande. Marini conta: “Tinha que entrar em Montenegro, pegar uma estrada de chão para desviar de uma serra braba em Nova Petrópolis, depois sair em Caxias e ir embora em direção ao Sudeste.

Descansávamos em hotéis e comíamos bem, hoje a turma passa a café”, compara.
Lembra uma vez que não descansou muito. Foi em 1969, em Juquiá, Vale do Ribeira, Sul de São Paulo, conhecida como zona da banana. Estava por lá na terça-feira à espera de cargas da fruta para trazer para Jaguarão, onde tinha que “encostar nos vagões” para então ser transportada de trem rumo a Montevidéu. Esperar não seria problema se não tivesse casamento no sábado. No caso, o seu. Daquela vez esperou mais do que de costume para arrancar rumo ao destino que lhe aguardava. Felizmente chegou a tempo. Não perdeu o trem em Jaguarão nem a noiva na igreja.

Dois anos de casado e comprou seu primeiro Mercedes Benz, zero bala. Três anos mais tarde, o segundo. À frente da Transportadora Ernani Marini Ltda., chegou a ter uma frota de cinco caminhões Scania. Hoje a empresa conta com três, dois Volvo e um DAF, por escolha própria. “Diminuí para ter uma vida mais tranquila”, justifica.

A decisão de tirar o pé foi tomada pós 1986, quando, além de abandonar profissionalmente o volante, trocou a vida na zona rural de Pelotas por uma casa na área central – para onde foi com a esposa e os três filhos. Além de optar pela gestão da empresa, Marini e Marlene Kaster entendiam que a mudança era necessária pela formação dos filhos – as hoje dentistas Karen e Kellen, e o engenheiro mecânico e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Vinícius Marini. Como se vê, deu certo.

“Nós, no transporte, não fazemos sucessão”, conta ele. “Direcionamos os filhos para outras áreas, no nosso caso foi para o estudo – não queria que meus filhos dormissem em cabine de caminhão na geada, é serviço brabo, resolvi dar estudo, meu filho nunca sentou no caminhão”.

Atualmente, seus três motoristas fazem a região de Dourados (MS), para onde transportam adubo desde o Porto do Rio Grande. De lá trazem para o estado cargas de milho para abastecer aviários concentrados no Planalto, Serra e Vale do Caí. No caminho, principalmente na região de Passo Fundo, carregam soja com destino ao terminal do Rio Grande.

Mercado atual
“Está inviável, o caminhão subiu muito”, critica o empresário. Marini diz que já houve tempo em que se comprava caminhão novo a cem mil dólares, “no máximo”. Hoje o mercado oferece a 200 mil. Além do frete não subir na mesma proporção, a taxa de juros, segundo o transportador, está impraticável.

“Não tem como pagar, o cavalinho hoje está R$ 1 milhão, com 20% de entrada tem que dar R$ 200 mil e assumir uma prestação de R$ 24 mil, R$ 25 mil por mês – como vai pagar? Não paga”, reclama.

As recentes quedas no valor de diesel não amenizam. Segundo ele, para o transportador (em geral envolto em prestações e outros compromissos similares), quando cai o preço do combustível o efeito é contrário. Ele explica: “É pior porque baixa também o valor do frete. Baixa custos, concordo, mas baixa receita, não entra o que se esperava e a margem de lucro está cada vez menor”.

Porém, com tantos anos literalmente de estrada, Marini pode até criticar. Não se dá, no entanto, o direito de se apavorar: “Já esteve pior, e não vai ser agora, depois de 59 anos, que vou mudar de profissão”, ri.

Mão de obra escassa
Tal como na atividade rural, o setor de transportes de carga também enfrenta escassez de mão de obra, em especial a experiente e qualificada. É lugar comum na categoria: não se dá caminhão pesado a quem não tem experiência.

No caso da Transportes Ernani Marini Ltda ainda mais. A empresa transporta adubo, é preciso descarregar a carga em lavouras, muitas delas de difícil acesso, o que exige perícia do motorista. E hoje, um profissional com essas características, além de valorizado, costuma ter seu próprio caminhão.

Atualmente, empresários do setor têm buscado novos motoristas no meio rural. Em geral, começam como tratoristas, nas lavouras. “Daqui a pouco pegam um caminhãozinho, aprendem, dão uma treinada e quando vê saem motoristas”, explica o empresário. “Peguei um no Morro Redondo que puxava carvão com caminhãozinho velho, não conhecia nem Santaninha, comprei um mapa e larguei. Deu certo, trabalhou três anos comigo.” Formar profissionais do volante e mantê-los em seu quadro de funcionários é motivo de alegria para Marini. “Quatro se aposentaram comigo, tem outro se aposentando agora, depois de 24 anos”, orgulha-se.

Vida de colono
Marini está de volta onde tudo começou. Hoje ele consegue dedicar boa parte do seu tempo à propriedade de 28 hectares na Colônia Júlio de Castilhos herdada do pai e do avô. Embora tenha sobrevivido mesmo do caminhão, ele não nega que a agricultura está no sangue. “Até os 17 minha vida era de colono. Depois, já no volante, quando diminuía os serviços no caminhão, pegava a enxada e vinha ajudar a família na lavoura”, recorda.
Já produziu pêssego – como tantos na Colônia. Chegou a ter quatro mil plantas. Escassez de mão de obra e preços pouco atrativos o levaram a desistir da fruta. Este ano nem vai colher.

Na propriedade de 28 hectares na Colônia Júlio de Castilhos, em Pelotas, se dedica à produção de bergamotas ponkan e montenegrina, em um pomar com 1,1 mil plantas em quatro hectares. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Não é o caso da bergamota – ponkan e montenegrina – produção que mantém há 14 anos em um pomar de 1,1 mil plantas em quatro hectares. Não pensa em parar com ambas. A resistência da planta e as últimas produções o animam a continuar o cultivo. Em 2021 colheu 90 toneladas. Em 2022, mesmo com quebra, foram colhidas 60 toneladas. Neste ano estima algo em torno de 75 mil quilos.

Também já apostou na laranja de umbigo, chegou a imaginá-la “para a aposentadoria”. “Colhi 50 toneladas, coisa mais linda, mas entrou o cancro cítrico [doença provocada pela umidade] e tive que arrancar tudo”, lamenta. Restaram meia “meia-dúzia” de pés para distribuir entre familiares e amigos. “A laranja é muito sensível, por isso estou na bergamota, que é muito mais resistente e tem bom mercado”.

O manejo no pomar das bergamotas é feito por ele mesmo, juntamente com o caseiro da propriedade. Se dedica com mais afinco à correção de solo e comercializa diretamente na Ceasa e em um macro-atacado do município.

Além da fruticultura, Marini tem nesses 28 hectares algumas cabeças de Angus e, em sociedade, lavoura de soja. Um pé na terra, outro na estrada, como desde sempre. “Me sinto feliz e realizado. Criei os filhos, estão bem, tenho saúde, minha esposa, uma companheira de vida, está bem também, tenho ótimos amigos e vizinhos, ajudei a fundar a Aprocapel [Associação dos Proprietários de Caminhões de Pelotas], onde também tenho muitos amigos e faço parte do Conselho, enfim, não posso nem devo me queixar”, finaliza.

1 comentário

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome