
O Dia Nacional da Doceira foi comemorado pela primeira vez na quinta-feira (6). A homenagem, que já era realizada a nível municipal, em 2023 se tornou nacional com a Lei 14.749.
Conhecida como a terra do doce, Pelotas também se tornou oficialmente a Capital Nacional do Doce através da Lei Federal 14.867/2024, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no dia 28 de abril. A origem deste reconhecimento vem dos famosos “doces de Pelotas”, uma tradição que originou a Fenadoce.
“Esse titulo é realmente muito importante para nós e ele marca mais uma parte da nossa história” diz a presidente da Associação dos Produtores de Doces de Pelotas, Simone Maciel Jara Bica, sobre o reconhecimento da cultura e trabalho do doceiro. Simone ressalta ainda que a certificação ajuda a proteger a cultura da produção de doces, que é também uma tradição passada a cada geração entre os doceiros pelotenses.
De acordo com dados da Associação dos Produtores de Doces de Pelotas, não se tem precisão do surgimento da tradição doceira no município. Entretanto, é possível afirmar que a origem está ligada a influência de Portugal. E também, na década de 1860, Pelotas era considerada a cidade mais aristocrática do Estado devido ao investimento no charque. Por conta disto e aos negócios com o exterior, a cultura europeia estava cada vez mais presente e os doces eram servidos nos saraus pelotenses. A produção era caseira e feita por mulheres. O açúcar era o principal ingrediente para diversas receitas como os camafeus, bem-casados, fios-de-ovos, papos-de-anjo, ninhos, quindins e os pastéis de Santa Clara.
Outro fator que contribuiu para a popularização dos “Doces de Pelotas” foi o fim da escravidão, que levou ao declínio das charqueadas e o surgimento dos frigoríficos – o que forneceu subsídios para uma projeção nacional dos doces. Na década de 1920, os doces passaram a ser divulgados comercialmente em todo o país. No mesmo período, os imigrantes alemães, pomeranos e franceses que residiam em Pelotas começaram a cultivar frutas de clima temperado – o que deu início a produção de doces coloniais, como geleias, conservas, pastas, entre outros.
A forte cultura do doce no município originou, em 1986, a Feira Nacional do Doce – a Fenadoce. O evento é um espaço para que as docerias possam comercializar e apresentar para os turistas os “doces de Pelotas”. Além disso, também são vendidos diversos outros produtos, como roupas, utensílios para casa, artesanatos e assim por diante.
A Fenadoce potencializou o conhecimento popular sobre os doces. Além disso, no Centro da cidade está localizada a “Rua do Doce”, um espaço em que as docerias se uniram para comercializar e divulgar a tradição pelotense. Atualmente, os produtos possuem o selo de procedência, que permite a identificação geográfica para que o consumidor de outro Estado tenha certeza da origem do doce. E o título de Capital Nacional do Doce reafirma as receitas pelotenses.
Para o secretário municipal de Desenvolvimento, Turismo e Inovação, Gilmar Bazanella, a lei de Capital Nacional do Doce traz benefícios para Pelotas como um todo. “A lei vem para amparar quando a gente fizer algum pedido de investimento para a região e para um setor como este”, afirma. Bazanella também diz que o título é importante para a cidade no intuito de evitar a apropriação dos produtos e usar a nomenclatura de “doces de Pelotas” sem ter essa procedência, além de promover o trabalho das doceiras.

Museu do Doce homenageia as doceiras
A exposição “Cadernos de receitas: narrativas da tradição doceira” foi inaugurada no Museu do Doce, no Casarão 8 da Praça Coronel Pedro Osório, na quinta-feira (6) para comemorar o Dia Nacional da Doceira. Os visitantes podem conhecer os cadernos de receitas doados ou emprestados ao museu até o dia 30 de agosto. O intuito é apresentar as mulheres envolvidas na tradição doceira.
As receitas estarão expostas nos espaços “quarto das meninas” e “quarto do menino” na sede do Museu. Os cadernos foram posicionados de forma cronológica para melhor entendimento das questões culturais e sociais da época em que foram escritos. Durante a visita, também é realizada uma atividade na qual os visitantes podem compartilhar receitas de doces para a elaboração do “Caderno Participativo de Receitas do Museu do Doce”.
30ª Fenadoce tem nova data
A 30ª edição da Fenadoce, que aconteceria entre 29 de maio e 16 de junho, precisou ser adiada devido às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul ao longo do mês passado. O adiamento foi anunciado no dia 6 de maio. A presidente da Associação dos Produtores de Doces de Pelotas relatou que as docerias já tinham iniciado os preparativos para a feira, época de aumento na produção. A nova data foi anunciada na quarta-feira (5), e a Fenadoce será de 17 de julho a 4 de agosto. Dessa forma, a preparação para o período retoma do zero.
“O motivo dessa feira daqui para frente, ao meu ver, seria para reerguer o Estado”, afirma Simone. Ela acrescenta que a categoria está com esperança de que o público se motive a ir para feira como forma de ajudar tanto o Estado como também Pelotas que foi atingida pela elevação das águas. “O momento não é fácil! A gente está com medo e vai com medo mesmo, mas o momento é de otimismo e de pensar que vamos conseguir fazer um bom trabalho,” finaliza Simone.
Bazanella também afirma que a feira irá auxiliar na economia e na reconstrução das áreas afetadas. “Eu considero [a 30ªFenadoce] importante para a retomada do turismo. É um momento oportuno para a cidade como um todo,” disse ele. O secretário destacou que existe uma expectativa de turistas durante a feira devido aos voos para Florianópolis e São Paulo que estão acontecendo no Aeroporto de Pelotas por conta dos serviços suspensos no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. Portanto, a parada em Pelotas pode despertar a curiosidade dos turistas em relação à Fenadoce.




