Amica garante ceias o ano inteiro para a população de rua de Pelotas

Voluntários preparam e distribuem 120 jantas todas as quintas-feiras, além de café da manhã aos domingos. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Não é só no Natal que a Associação Amigos do Caminho (Amica) está presente na vida de quem não tem mesa – e muito menos o que colocar sobre ela para ter o direito humano básico a uma alimentação digna e saudável.

Semanalmente, nas quintas-feiras a partir das 19h, com ou sem chuva, frio ou calor, os voluntários da entidade percorrem as ruas de Pelotas para oferecer uma marmita a moradores de rua.

“São servidas em média 120 jantas”, informa a vice-presidente da entidade, a assistente social Marta Lopes Tonollier.

Mas a assistência cada vez mais necessária não se resume às refeições noturnas das quintas. Amenizar a dor da fome é um ativo da Associação também aos domingos, todos eles. Cedo, às 8h, e aqui independe também de chuva ou sol, frio ou calor, durante todo o ano, os Amigos do Caminho estão no Altar da Pátria, no parque Dom Antonio Zattera. Ali servem café da manhã não apenas à população de rua, mas a famílias que se deslocam de diferentes pontos da periferia para ter acesso à primeira refeição do dia – “a grande maioria com crianças”, emenda Marta. Foi, aliás, essa a atividade, que hoje oferece em torno de 100 refeições matinais, que deu início ao trabalho desenvolvido pelos Amigos do Caminho, há seis anos.

Marta conta essa história. Tudo começou com um grupo de amigos, “em prol de fazer o bem sem olhar a quem”, em uma sede alugada na rua Andrade Neves. Depois migrou para um prédio maior na Barão de Santa Tecla, também na área central. No espaço, mais amplo, a Amica servia jantas todas as quartas-feiras a famílias em situação de vulnerabilidade. A maioria não vivia na rua, lembra ela.

Na época, na rua, em geral, viviam usuários e ex-usuários de drogas. A esse contingente, as ações da entidade ocorriam às terças; também às quartas, com a estrutura disponível, eram oferecidos banho e mudas de roupa, além da janta. Havia janta também nas quintas e na sexta. E ainda aos sábados, quando era feita a ronda, com distribuição de marmitas pelas ruas da cidade – como se faz hoje.

A pandemia, no entanto, atingiu os Amigos em cheio. “Foi um caos”, lamenta Marta. “Todo trabalho voluntário depende de doação, tivemos que devolver o prédio e graças à parceria com o Grupo Escoteiro Iguassu, que nos cedeu a cozinha e as demais dependências, mantivemos nosso trabalho, mesmo em menor escala”, conta.

Para 2023 o objetivo é um só: “Queremos voltar ao que era antes”. Hoje, a falta de um espaço próprio em condições de retomar o trabalho realizado até a pandemia, explica as restrições. A pandemia comprometeu, mas não paralisou a entidade. Além da entrega de janta nas quintas a moradores de rua, são disponibilizadas entre 50 a 80 cestas básicas todo o mês e é feito o acompanhamento das famílias acolhidas – extremamente carentes. Um fato importante é que Marta estima que 95% delas são chefiadas por mulheres – todas elas mães de crianças. Mais ainda, datas comemorativas não passam despercebidas.

No Dia da Criança, a Amica promoveu uma atividade no parque Dom Antonio Zattera em parceria com os escoteiros do Iguassu. Pelo menos 50 crianças das famílias atendidas pela Associação passaram a tarde no local, com direito a lanche e diversas atividades. Enquanto isso, as mães ficaram na sede provisória da Amica, onde fizeram aula de Biodança. A empresa de transportes Kopereck transportou as famílias atendidas, além da oferta da cesta básica do mês.

E então é Natal, que também foi celebrado. Dia 22, as famílias e as crianças foram levadas à sede provisória da rua 15 de Novembro. Teve lanche, entrega de cestas básicas e chegada do Papai Noel para distribuir brinquedos. “Trabalhamos para que não se perca o lúdico, às vezes essas famílias e essas crianças são obrigadas a enfrentar lugares e situações muito difíceis, quem não chega perto deles não imagina”, lamenta Marta. Ela lamenta, também o agravamento da situação em alguns casos. “A miséria aumentou muito, pode-se ver pela fila no café da manhã de domingo. É muita família, com muita criança – pessoas que saem dos bairros para ter direito a primeira refeição do dia”, completa.

Parcerias, apoios e Renas do Natal

Vale reforçar: todo esse trabalho só é feito com doações da comunidade. Por isso, como diz Marta, “toda ajuda é sempre bem-vinda”. A Amica está presente nas redes sociais Instagram (https://www.instagram.com/amigosdocaminho/) e Facebook (https://www.facebook.com/amigosdocaminhopelotas). Também é possível obter mais informações pelo WhatsApp (53) 99121-1814.

Para já a partir de 2023 os Amigos do Caminho retomarem o ritmo e intensidade do trabalho prestado no período pré-pandemia, a ajuda de pessoas físicas e jurídicas é fundamental. Os brechós, que com sede própria eram permanentes, atualmente são esporádicos. No dia 11 de dezembro, foi feito no bairro Quartier, quando são promovidas edições do Quintal Quartier. “Hoje precisamos de mais pessoas físicas nos apoiando regularmente”, sugere Marta, que atribui a queda à inflação e ao preço “altíssimo” dos alimentos. “O volume de doações diminuiu horrores”, lamenta.

Dentre as jurídicas ela cita o suporte do Arroz Emoções, do Sicredi, Confraria do Espetinho, Josapar, Construtora Roberto Ferreira, as academias Augusto Saleh e Fit 2k, postos Paulo Moreira, Garagem e Estacionamento RG 2, Lavanderia Lave-Seke, Numer Imóveis, Frente Norte Imobiliária, Gebras Construtora, Lojas Obino, Pousada Krolow, Acadêmica Suplementos e restaurante Tio Hugo, além das ações do advogado Iuri Cunha, da clínica odontológica Estima e grupo de magistrados do Foro de Pelotas.

Mas não apenas.

A estudante do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Rafaela Montiel, e integrante do Renas de Natal e a assistente-social e vice-presidente da Amica, Marta Lopes Tonollier, esperam que haja aumento de doações para que as ações do projeto sejam ampliadas em 2023. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Este ano, para as ações de Natal, a Amica ganhou o auxílio luxuoso de jovens estudantes do curso de Publicidade e Propaganda da UCPel, responsáveis pelo projeto Renas do Natal. A iniciativa arrecadou doações para viabilizar atividades alusivas à data.
Na conta na rede social Instagram ((https://www.instagram.com/renasdonatal/) foi disponibilizado contato via WhatsApp com as operadoras do projeto e a chave pix (53 98114-3849) para doação de valores em dinheiro que foram revertidos para a organização. Além do montante financeiro, a iniciativa angariou mantimentos para cesta básica, roupas em bom estado de conservação e brinquedos para a festa de Natal do dia 22.

De acordo com a integrante do projeto e estudante do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Rafaela Montiel, o Renas do Natal, além de atuar como suporte à festa da Amica, pretende ir além: tem objetivo de garantir maior visibilidade à organização. “Nosso diagnóstico aponta que é o que falta, este grupo é uma verdadeira família, faz um trabalho exemplar e ainda não tem a projeção que merece”, afirma a universitária.

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