
Conhecido por personagens marcantes em novelas da Globo como “Mulheres de Areia” e “Cambalacho”, o ator Marcos Frota construiu uma trajetória única na televisão brasileira. Mas foi no circo que o ator encontrou sua verdadeira paixão e propósito. Há uma década à frente do Mirage Circus, Frota transformou o que muitos consideravam um “desvio de carreira” em um dos maiores empreendimentos culturais da América Latina.
Agora, aos 70 anos de idade e celebrando meio século de carreira artística, o ator está em Pelotas com o espetáculo que se tornou sua maior conquista profissional. A cidade da Zona Sul marca um momento simbólico: é aqui que começa um novo ciclo para o Mirage Circus, consolidando definitivamente o espetáculo como arte de excelência no Brasil.
Em entrevista ao JTR, o ator revelou sua emoção ao ver o circo finalmente reconhecido e valorizado. “Eu lutei muito contra o preconceito. Minha mãe, esposa, meus filhos, os autores da Globo me questionavam: ‘Você está queimando toda a sua carreira'”, relembrou Frota.
Uma paixão de outra vida
A relação de Frota com o circo começou em 1985, na novela “Cambalacho”, em que seu personagem, Henrique, era um trapezista de circo. Anos após, de forma surpreendente, a vida imitou a arte: seu personagem em “Mulheres de Areia”, Tonho da Lua, foi embora com o circo nos capítulos finais da trama – exatamente o que o próprio ator faria anos depois. “A pessoa do financeiro da Globo que veio assinar contrato comigo lembrou disso. Ela falou: ‘você é talvez o único artista da nossa história onde o personagem se misturou com o artista'”, contou.
Enquanto colegas de elenco gravavam novelas de sucesso e passavam os fins de semana em restaurantes e baladas, Frota estava no interior do país, em cidades como Imperatriz do Maranhão e Santa Maria da Boca do Monte, levando o circo aos brasileiros. “Eu estava conhecendo o Brasil inteiro pelo interior enquanto meus amigos gravavam novelas. Mas eu me expunha fisicamente, expunha minha história, porque acreditava que um dia o circo ia dar essa virada”, recorda.
A decisão de investir no ramo veio de uma convicção profunda. “Eu acreditava que um dia o circo ia deixar de ser uma arte decadente. Hoje, em Pelotas, com o Mirage Circus, eu posso afirmar: houve essa virada”, declarou o ator.
A magia acende na Princesa do Sul
O gigante da América Latina chega a Pelotas como uma das maiores estruturas do continente, com mais de 200 profissionais envolvidos e trazendo artistas de diversas nacionalidades. A estreia está com ingressos praticamente esgotados, reflexo da expectativa do público pelotense e de toda a Zona Sul. “Nós conseguimos um diálogo criativo, lúdico, humano. Conseguimos conectar gerações”, explicou Frota.
Lueny Motà, CEO do Mirage, destaca que o empreendimento é como uma cidade itinerante. “Cada peça é fundamental. Desde a decisão de onde vamos estar, qual território montar, até cada pessoa que cuida de um setor específico. Todos os dias são de decisões difíceis”, conta. A montagem da estrutura em Pelotas foi feita em tempo recorde, mobilizando dezenas de caminhões e uma equipe multidisciplinar.
Para Frota, o circo é mais que entretenimento. “O artista veio para servir e não para ser servido. Poder servir com emoção, isso não tem preço”, afirma. O ator relembra que, durante dez anos, se apresentou todos os fins de semana, sacrificando o convívio familiar. “Meu argumento era: quem vai pagar a folha de pagamento são as três sessões de domingo. Eu entendi que tinha uma causa maior, um propósito maior”.
O reconhecimento internacional veio quando foi convidado para ser jurado do Festival de Circo de Buenos Aires, em 2025, evento que reúne toda a América Latina. “Quando o locutor anunciava ‘agora, o senhor Marcos Frota, representando do circo brasileiro’, eu ficava arrepiado. Ser chamado para representar meu país num evento emblemático da atividade circense foi um retorno que vocês nem imaginam”, falou, emocionado.
Planos
Atualmente, Frota está à frente de uma mobilização para que o Mirage Circus seja reconhecido oficialmente como patrimônio cultural do Brasil. Um projeto de lei já foi protocolado no Congresso Nacional, e a próxima etapa é conseguir que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheça o circo como patrimônio imaterial. “Por que o circo fica numa condição menor? Aqui temos artistas, diretores, iluminadores, técnicos, gestores. Todo o pavimento da arte acontece no picadeiro”, questionou.
O ator também criticou o uso pejorativo da palavra “palhaço” na política e na sociedade. “Vai acabar essa brincadeira de chamar qualquer ação política errada de palhaçada. Palhaço é um artista de circo que se prepara o dia todo para divertir suas crianças, para te dar risada. Tem uma área educacional, de formação de personalidade e caráter”, defendeu.
Além do circo, Frota está prestes a retornar às telas da Globo, onde contracenará com Cauã Reymond em uma nova série. “É um desafio muito grande pegar um ator que está muito afiado, atualizado. Eu brinco que ‘não sou a Odete Roitman, mas só penso no Cauã’”, brincou, falando dos personagens de Reymond e Débora Bloch na novela ‘Vale Tudo’.
Para Pelotas, Frota reserva um lugar especial em sua história. “Pelotas nunca mais vai sair da história do Mirage porque começa aqui um novo tempo. Completamos uma década com muito êxito, saímos de Roraima, em Boa Vista, e chegamos em Pelotas. Aqui, o circo entendeu definitivamente que não dá para vivenciar o êxito sem gestão, sem profissionalismo”, finalizou.
O espetáculo do Mirage Circus está em curtíssima temporada em Pelotas, com ingressos sendo vendidos no site www.miragecircus.com.br.



