Encontro entre literatura e ilustração transformam fantasia em tema da 32ª Fenadoce

Escritor e ilustradora formam a dupla responsável pelo livro “As Doces Aventuras de Pelotas: Uma Jornada Mágica”. (Fotos: Rafael Takaki)

Há histórias que começam antes mesmo da primeira página. No caso de As Doces Aventuras de Pelotas: Uma Jornada Mágica, obra que deu o tom à 32ª Fenadoce, elas nasceram do encontro entre duas trajetórias construídas na própria cidade. De um lado, Jorge Braga, autor de uma sequência de trabalhos voltados à literatura infantil e à formação de leitores. Do outro, Mariana Pouey, artista que faz sua estreia na ilustração de livros e leva para as páginas uma experiência construída na pintura, nos murais e nas artes digitais.

Juntos, eles transformaram o universo da Fenadoce em uma narrativa que percorre cenários conhecidos de Pelotas, valoriza a cultura doceira e convida crianças a conhecerem a cidade através do lúdico. Mais do que isso, o livro inspirou a identidade visual da Feira, deu origem ao espetáculo apresentado durante o evento e se tornou uma das principais apostas da 32ª edição para aproximar os pequenos ao patrimônio pelotense.

A escolha pelos artistas não foi por acaso. Tanto Braga quanto Mariana construíram suas trajetórias tendo Pelotas como plano de fundo. Em As Doces Aventuras de Pelotas, esse vínculo dá vida a uma narrativa que mistura fantasia e memória, dando personalidade a doces como Quindim, Olho de Sogra, Figo Cristalizado, Ninho e Bombom de Morango, que embarcam em uma aventura ao lado da doceira Dona Quindinha e da formiga Docília, mascote da Fenadoce.

Durante a história, o grupo passa por cenários emblemáticos de Pelotas e revisita momentos que ajudam a explicar o início da tradição doceira.

Sonho de criança

Jorge Braga costuma dizer que decidiu ser escritor ainda menino. Aos 12 anos, quando muitos descobrem o gosto pela literatura, ele já imaginava criar as próprias histórias. A vocação se consolidou com o passar dos anos. Hoje, o autor acumula 16 livros publicados, projetos de incentivo à leitura e reconhecimento dentro e fora de Pelotas. Em 2022 foi patrono da Feira do Livro da cidade e, no ano seguinte, foi Embaixador da Cultura na primeira Casa de Cultura de Pelotas.

Grande parte de sua produção é voltada ao público infantojuvenil. O primeiro livro para crianças, Dedé Buscapé e os Morangos (2005), alcançou a 6ª edição e chegou a ganhar versões em braille e Libras, integrando projetos de leitura em diversas escolas. Desde então, o autor construiu uma bibliografia voltada à valorização da identidade local e, em diferentes momentos, escolheu contar histórias inspiradas em personagens que fizeram parte da construção de Pelotas.

Foi justamente essa afinidade entre literatura e patrimônio cultural que aproximou Braga da Fenadoce. O convite partiu de uma ideia central: criar uma história capaz de despertar o interesse pela tradição doceira. “O pano de fundo seria esse: as doceiras estão se aposentando e a gurizada não está dando continuidade. A ideia era mostrar para as crianças, principalmente, a importância dessa tradição”, explica o escritor.

A proposta provocou Braga a imaginar uma aventura em que a fantasia conversa constantemente com a cidade real. O Theatro Sete de Abril, o Trapiche do Laranjal e referências a João Simões Lopes Neto são alguns dos espaços e elementos que aparecem ao longo da narrativa. A intenção, segundo o autor, era fazer com que os leitores enxergassem Pelotas como um cenário de descobertas.

Ainda assim, Braga conta que nenhuma história nasce pronta. Antes de chegar ao papel, elas passam semanas – às vezes meses – sendo organizadas entre anotações e folhas soltas. “Escrever é sempre um desafio (…) Mas ver a obra virando outra obra [o teatro], saindo do papel e se tornando real, é uma satisfação muito grande”.

Jorge Braga escreve desde a infância e tem mais de dez livros publicados.

 Hobby que virou livro

Mariana Pouey acredita que sua relação com a arte começou antes da escolha pela psicologia. Formada na área e especialista em Teoria e Prática Psicanalítica, também é artista visual autodidata, transitando entre telas, murais, pinturas na pele e, mais recentemente, livros. Em suas obras, explora a fantasia, a subjetividade, os afetos e até os aspectos da psique humana. “Sou psicóloga, mas acho que sempre fui artista visual. Fui uma dessas crianças que desenhou desde sempre e nunca parei”, conta a ilustradora.

Para ela, arte e psicologia não ocupam lugares separados. Ambas partem do interesse pelas pessoas, pelos sentimentos e pelas diferentes formas de interpretar o mundo. “A psicologia veio como formação, mas a parte artística, criativa, sempre veio comigo. Acho que tudo se conversa, porque falar de psicologia também é falar de arte”, elucida.

O convite para ilustrar As Doces Aventuras de Pelotas veio por intermédio de Jorge Braga e representou uma estreia. Embora já acumulasse experiência nas artes visuais, nunca havia participado da criação de um livro infantojuvenil. A responsabilidade, segundo a artista, era construir imagens capazes de conversar com leitores diversos sem perder a identidade do próprio trabalho.

Durante o processo, procurou equilibrar delicadeza e espontaneidade: optou por um traço mais infantil, inspirado na textura do giz de cera, mas preservando características marcantes de sua produção.

Ilustrar Pelotas, para Mariana, foi uma oportunidade de dar vida a tantos cenários que fizeram parte de sua infância. Reencontrá-los através do que ama fazer significou, de acordo com ela, revisitar memórias pessoais. “Desenhar esses personagens, esses pontos turísticos tão importantes e emblemáticos, que conheço e visito desde criança, é uma forma de ajudar a contar a nossa história e passar para as crianças isso tudo. Ainda mais com a minha arte, é muito gratificante”, completa.

Mariana Pouey é psicóloga e tem a ilustração como um hobby.

Fantasia que valoriza a identidade local

Em As Doces Aventuras de Pelotas, história e ilustração cresceram juntos, em um diálogo constante entre Braga e Mariana. Enquanto o autor escrevia os capítulos, a psicóloga começava a imaginar os personagens, cenários e movimentos. Em alguns momentos, Braga chegou a compartilhar pequenos rascunhos que representassem o que ele imaginava para determinada cena.

“Foi bem bacana, fluiu bem. As ilustrações foram sendo rascunhadas junto com o desenvolver da história. Para algumas artes o Jorge já tinha uma ideia e me passava um rascunho e eu desenvolvia, outras eu já enviava como tinha imaginado. Foi bem orgânico e muito divertido”, lembra a ilustradora.

O resultado dessa troca foi uma obra em que texto e imagem pareceram ter nascido ao mesmo tempo, com uma rapidez que surpreende. Embora as ideias estivessem sendo amadurecidas desde 2025, a produção do livro levou cerca de dois meses.

Os personagens da obra passaram a integrar a identidade visual da 32ª Fenadoce e inspiraram o espetáculo de mesmo nome, apresentado diariamente durante a Feira.

Para Mariana, essa continua sendo uma experiência difícil de dimensionar. “Ainda acho engraçado ver algo que eu desenhei ilustrado em dezenas de livros, nos pôsteres da Feira e no telão no fundo do palco. É uma sensação engraçada, fico muito feliz”, afirma.

Entre a experiência de um escritor que há décadas transforma memória local em literatura, e uma artista que encontra na ilustração uma linguagem pessoal, As Doces Aventuras de Pelotas: Uma Jornada Mágica mostra que preservar um patrimônio também passa por encontrar novas formas de contá-lo.

 

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