Cia. de Dança Afro Daniel Amaro celebra 25 anos de resistência, arte e transformação social

O espetáculo “A Dança dos Orixás” chega na sua 20ª edição de sucesso. (Foto: Josiane Franken)

A Cia. de Dança Afro Daniel Amaro completa 25 anos em dezembro com uma trajetória que transcende a arte e se consolida como instrumento de transformação social, profissionalização e valorização da cultura negra no sul do estado. Nascida na Vila Castilhos, periferia de Pelotas, a companhia se tornou referência nacional em dança de matriz africana, tendo viajado por 48 cidades em seis estados brasileiros, além de apresentações no Mercosul.

A história da Cia. começa em dezembro de 1999, de forma quase inesperada. Amaro, que acaba de retornar a Pelotas após temporada em Montevidéu e Buenos Aires, foi convidado para apresentar um trabalho no Cabobu, um grande evento de cultura negra que estava sendo organizado na cidade. Desse convite nasceu o que, inicialmente, se chamou Grupo de Dança Afro, situado na Vila Castilhos.

“Eu queria montar uma companhia com a estética da dança negra que pudesse competir, em visibilidade e mercado, com o balé clássico e contemporâneo”, explica Amaro, que buscou criar uma “marca” própria, unindo a força da dança afro com a técnica contemporânea.

A metodologia da companhia sempre foi clara: formar bailarinos vindos da periferia. “Eu prefiro pegar pessoas que não são bailarinas, que nunca tiveram nenhuma experiência e começar a formar essas pessoas”, conta o coreógrafo. Esse modelo criou uma estética única e facilmente reconhecível. Atualmente, a grande maioria dos bailarinos é morador de bairros periféricos.

Onze espetáculos e uma missão de ressignificação
Ao longo dos anos, foram realizados 11 espetáculos, todos coreografados e dirigidos ou coproduzidos por Amaro. Os maiores destaques ficam com “Reminiscência” (2000) e “A Dança dos Orixás” (2017), com o último sendo um instrumento de ressignificação histórica. A obra é indissociável da Charqueada São João, onde o coreógrafo buscou transformar a narrativa do lugar, que era contada apenas sob a ótica da dor da escravidão.

Em 2016, a Cia. iniciou uma investigação com o proprietário da Charqueada, Marcelo Mazza, para criar uma obra que falasse sobre os orixás, dando um novo significado ao local. “Onde antes houve dor e silêncio, hoje há espaço para aprendizado, reflexão e reconhecimento”, define. A obra chega agora à sua 20ª edição, provando a potência da nova narrativa.

Até janeiro de 2020, a Cia. teve como base a Vila Castilhos, desenvolvendo um projeto sociocultural que oferecia à comunidade uma nova perspectiva de vida através da arte. Atualmente, as atividades regulares acontecem no Espaço de Terapias Corporais Claudia Weingartener, Theatro Guarany, Charqueada São João e Bibliotheca Pública Pelotense – locais que mesclam patrimônio material e imaterial de Pelotas. Parte dos alunos do antigo projeto segue fazendo aulas de dança e participando do elenco dos espetáculos.

Fundada na periferia de Pelotas, companhia completa um quarto de século levando a cultura afro-brasileira para seis estados e ressignificando
espaços históricos por meio da dança. (Foto: Volmer Perez)

Quebrando barreiras e profissionalizandoa arte
Um dos maiores legados da Cia. é a luta pela profissionalização. Amaro é enfático: “A companhia não nasce num projeto social. O carro-chefe dela é espetáculo, é profissionalismo. Todos os bailarinos recebem.” A Cia. foi construída como uma empresa, com o objetivo de dar emprego e remunerar seus artistas.

Cerca de 350 bailarinos já passaram pela companhia, que se apresentou em diversos estados do Brasil, como Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Distrito Federal, Paraíba, Bahia e Rio Grande do Norte. Além da presença constante em cidades do estado, a Cia. já marcou presenças fora do país, tendo passado por Montevidéu, Canelones e Barra do Chuí, no Uruguai, e em Buenos Aires, na Argentina.

Programação comemorativa marca os 25 anos
As celebrações começam em novembro com uma extensa programação que se estende até setembro de 2026. No dia 5, Amaro conduz um Workshop de Danças de Matrizes Africanas, na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, em Natal, apresentando a proposta da Cia. que funde dança afro-brasileira, danças de Benin, do Senegal e a afro contemporânea.

Durante o mês, a Cia. se apresenta em diferentes cidades: no dia 15, às 16h, leva “A Dança dos Orixás” ao Cerro dos Porongos, em Pinheiro Machado, no evento de Homenagem aos Lanceiros Negros. No dia 16, às 19h, o mesmo espetáculo é apresentado em Passo Fundo, dentro da programação do Dia da Consciência Negra. No dia 20, feriado da Consciência Negra, às 10h, a Cia. apresenta “A Reminiscência dos Tambores do Corpo” na Sociedade Criativa e Cultural 13 de Maio, em Piratini.

Duas noites especiais de transmissão on-line também marcam as comemorações: no dia 28, às 20h, será apresentado “São Lázaro, o Omolú dos Humanos”, obra inspirada em territórios quilombolas e indígenas, focada na ancestralidade e na cura através da natureza. No dia seguinte, às 20h, é a vez de “Arqueologia Também Dança: A Dança de Ogum”, espetáculo que usa a dança para dar voz às culturas afro a partir de pesquisas arqueológicas na Charqueada São João. Em ambas as noites, Amaro compartilhará bastidores e reflexões sobre o processo criativo, e as apresentações serão precedidas por um vídeo com depoimentos de pessoas que fizeram parte da história da Cia.

O momento mais esperado das comemorações acontece no dia 30, às 19h, com a 20ª edição do espetáculo “A Dança dos Orixás” na Charqueada São João.

O ano de 2026 traz continuidade às celebrações com cursos de verão de dança de matrizes africanas no Cassino (17 e 18 de janeiro) e no Laranjal (24 e 25 de janeiro), além de uma oficina em Blumenau (SC) entre 7 e 9 de fevereiro. Nos dias 19 e 20 de fevereiro, às 18h, ocorrerá a audição para novos bailarinos no Theatro Guarany, que formarão o elenco do novo espetáculo “A Cia. de Dança Afro Daniel Amaro Dança Luis Melodia”, uma homenagem ao cantor e compositor brasileiro.

Os ensaios começam em março e a estreia está marcada para 13 de setembro, às 20h. A partir de abril, a Cia. realiza ações de interiorização em Santa Vitória do Palmar, Bagé, Arroio Grande e Rio Grande. No dia 13 de maio, às 19h, ocorrerá a 4ª edição da Performance & Culinária dos Orixás no Theatro Guarany, unindo dança e gastronomia de matriz africana.

A Cia. de Dança Afro Daniel Amaro completa 25 anos tendo cumprido sua missão de levar a verdadeira narrativa do povo negro por meio da dança, construindo um legado que vai além dos palcos: é resistência, é memória, é formação de pessoas e é, sobretudo, a prova de que a arte transforma vidas e ressignifica histórias.