Audiovisual fazendo parte da indústria criativa de Pelotas

Produções de alunos da UFPel mobilizam a cidade e aquecem a indústria criativa local. (Foto: Eduardo Teixeira)

Reconhecida por sua história e bagagem cultural, Pelotas tem se firmado como referência na indústria criativa gaúcha. Um dos motivos disso é a alta produção do setor de audiovisuais. Hoje a cidade é uma das poucas do Estado a oferecer um curso de graduação na área, além de possuir um escritório municipal destinado tanto a apoiar produtoras interessadas em produzir seus filmes na cidade quanto captar novas produções.

Desde sua criação, em 2007, o curso de Cinema e Animação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) tem transformado a cidade em um cenário fértil para a produção audiovisual. “O curso contribui no fortalecimento da cena, justamente fortalecendo e ampliando esse ecossistema de produção”, explica a professora dos cursos e presidente do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine), Lanza Xavier.

O curso também fomenta uma cultura cinematográfica que se espalha por diferentes espaços da cidade. “A gente produz vários curtas-metragens semestrais e anuais, tanto em animação quanto em live action. Então, a gente traz essa cultura, essa vivência do cinema para a cidade”, destaca.

Segundo Lanza, os alunos realizam, em média, de 12 a 15 projetos por ano, entre exercícios acadêmicos e trabalhos de conclusão de curso. “O curso estimula essa produção autoral porque a gente tem um exercício a cada semestre em que todas as disciplinas trabalham em prol de um único produto audiovisual”, disse. Para além da técnica, a liberdade criativa é essencial. “A gente sempre orienta, dá toda liberdade para eles produzirem o roteiro que quiserem”.

Grande parte dessas produções é feita em Pelotas, o que contribui para valorizar a cidade e revelar espaços e histórias ainda pouco conhecidos até pelos próprios moradores.

Para garantir que os profissionais formados permaneçam na região, o curso também atua em diálogo constante com o poder público.

A expectativa é que o fortalecimento de políticas públicas, a preservação da memória audiovisual e a criação de condições favoráveis perpetuem o setor na cidade. “O curso de Cinema vem para movimentar e fazer Pelotas respirar cinema todos os dias do ano”, resumiu.

Cinema fortalece identidade cultural e movimenta a cidade

Em diversas ocasiões, Pelotas já serviu de cenário para produções de renome nacional da sétima arte, como por exmeplo “O Tempo e o Vento” (2012), adaptação da obra literária de Érico Veríssimo, com Fernanda Montenegro no elenco e “Domingo” (2019), estrelando Camila Morgado. Recentemente, o município foi confirmado como locação para o longa-metragem “Vó África – Em Busca dos Velhos Trilhos”, da Nação Produtora, e que terá no elenco a atriz Vera Fischer.

Filme “Domingo”, estrelado por Camila Morgado, foi rodado em Pelotas em 2019. (Foto: Divulgação)

Com direção e roteiro de Nando Ramoz, o filme se passa entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, em plena Ditadura Militar, e aborda memórias apagadas de personagens marginalizados pela sociedade. Vera dará vida a Tereza, uma jornalista que, em meio à repressão e censura, representa vozes dissidentes e grupos historicamente excluídos.

A produção abriu chamada para atores, atrizes e figurantes locais. A seleção valoriza perfis diversos e reforça o compromisso do projeto com a representatividade e a inclusão de talentos da região. As gravações ocorrem entre julho e agosto.

Cinema 4.0 pode transformar narrativas audiovisuais

Em meio às rápidas transformações tecnológicas, os estudantes de cinema enfrentam um novo desafio: desenvolver habilidades e competências alinhadas ao chamado Cinema 4.0, para colaborar com o desenvolvimento do audiovisual na cidade. A exigência vai muito além de dominar técnicas de roteiro, fotografia ou som. É necessário ter desenvoltura diante do desafio tecnológico e entender como diferentes dispositivos e formatos impactam a criação de narrativas audiovisuais.

Segundo o professor Guilherme Rosa, um roteirista, por exemplo, não escreve mais apenas para telas planas e é preciso considerar as potencialidades e limitações de mídias imersivas, como vídeos em 360º ou experiências em realidade virtual, que envolvem óculos especiais e dispositivos capazes de simular movimentos humanos.

“Determinado dispositivo vai exigir determinadas questões para o profissional, independentemente da área em que ele for atuar. O mesmo vale para fotografia, o mesmo vale para som ou para outras questões”, explicou.

A formação, portanto, precisa ser interdisciplinar. Mesmo que cada estudante escolha uma área de atuação, o conhecimento deve englobar aspectos tecnológicos, estéticos e narrativos, além de dialogar com linguagens interativas. “É uma exigência cada vez maior, mas não tão distante do que o mercado audiovisual já demanda. Desde sempre, quem quer se inserir nesse setor precisa entender um pouco de tudo”, explicou.

Para além das competências técnicas, Rosa destaca que nenhuma tecnologia, por si só, garante narrativas mais interativas. “O que faz uma tecnologia ser incrível é o uso social que se faz dela”, ressalta. No entanto, ferramentas como realidade expandida, vídeos imersivos e narrativas não lineares criam novas formas de o público se relacionar com o conteúdo. O espectador passa a ter mais autonomia sobre o tempo de fruição da história, que não fica mais restrita a formatos fixos de curta ou longa-metragem.

Essas possibilidades também podem fortalecer setores, conectando produções audiovisuais a contextos regionais. “A gente tem aqui nos cursos, por exemplo, curtas-metragens feitos em vários lugares do Brasil e, principalmente, na região, e que poderiam ser referenciados e poderiam ser muito interessantes para as pessoas se eles fossem conhecidos dessa maneira, ou seja, localizados a partir de onde eles foram feitos, enfim, relacionados ao passado, ao próprio presente. Então, o Cinema 4.0 pode estar conectado a isso”.

Faltam políticas públicas, mas há caminhos possíveis

No cenário regional, ainda não existem políticas públicas específicas voltadas ao desenvolvimento do Cinema 4.0. Contudo, iniciativas nacionais para realidade expandida e aumentada já contam com editais que incentivam produções inovadoras. Além disso, parcerias entre universidades, startups e polos tecnológicos podem abrir novas frentes. “A universidade tem um parque tecnológico e nada impede, por exemplo, de a gente ter empresas especializadas nisso, seja em Inteligência Artificial, seja em outras questões de realidade aumentada, principalmente em relação ao audiovisual, ainda que a gente utilize algumas dessas tecnologias com um certo cuidado, que precisa ser refletido, especialmente a Inteligência Artificial”, afirmou Rosa.

Pelotas Film Commission transforma cidade

O trabalho da Pelotas Film Commission tem contribuído para firmar Pelotas como um polo de produção audiovisual. Instituída em 2023, mas em atividade desde 2011, a comissão atua como facilitadora para produções de cinema, televisão e outras linguagens.

Conforme um dos desenvolvedores do projeto, o jornalista e cineasta Bruno Viana, a proposta é oferecer estrutura, apoio logístico e intermediação entre produtoras e o poder público, agilizando trâmites burocráticos e viabilizando filmagens em locações variadas. “Pelotas tem, em questão de locações, a parte histórica, tem praia, tem campo, tem todas as estações do ano, tem a Faculdade de Cinema, tem mão de obra para as produções, tem uma galera querendo trabalhar em produções e grandes produções para ganhar experiência”, afirmou.

Dentre os principais projetos atendidos estão os longas-metragens Passaporte Memória, de Décio Antunes, e Vó África, de Fernando Ramos; a série Chef Estradeiro, da TV Bandeirantes; o programa Permita-se, do Travel Box Brazil; e Antártica – Terra de Todos; além de curtas-metragens do curso de Cinema da UFPel.

Todo o suporte inclui desde orientações para obtenção de autorizações de filmagem em espaços públicos até a interlocução direta com secretarias municipais de Trânsito, Segurança, Educação, Governo e com o gabinete do prefeito.

O modelo se inspirou em iniciativas de outras cidades, como Porto Alegre e São Paulo, que já contam com estruturas consolidadas para captar produções audiovisuais.

O projeto dialoga com os cursos de Cinema da UFPel também visando atrair produções externas e movimentar a economia local. “Quando a gente atrai produções maiores pra cá, isso gera um impacto na economia importante”, enfatizou Lanza, lembrando que o audiovisual é uma das indústrias mais rentáveis do país.