
Junho é conhecido como o mês do Orgulho LGBTQIAPN+. Ao longo dos 30 dias, campanhas são reforçadas em todo o mundo, visando conscientizar a sociedade contra a discriminação e sobre a importância de reivindicar direitos fundamentais. Contudo, uma parcela dessa comunidade permanece invisível. Nos municípios de interior, com a vida íntima mais exposta e as atividades comunitárias mais intensas, além da falta de representatividade e do pensamento conservador, o simples ato de existir pode ser um desafio.
De acordo com Micael Machado, bacharel em Jornalismo na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), mestrando em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor da pesquisa “Do ‘scroll’ ao ataque: a materialidade do discurso de ódio contra homens gays na plataforma de mídia social Instagram”, o discurso de ódio contra a população LGBTQIAPN+ pode ser definido como qualquer expressão que promova a discriminação ou hostilidade baseada na orientação sexual ou identidade de gênero.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, o Rio Grande do Sul liderou o ranking de crimes contra a população no Brasil. No entanto, o pesquisador pontua que, nos últimos anos, o fenômeno passou a ser mais sutil em debates públicos e mais explícito em nichos restritos, devido a polarização política e a arquitetura das plataformas de mídias sociais. Ainda, essa prática gera resultados profundos na saúde mental.
O peso do preconceito
Com um impacto que vai muito além do sofrimento momentâneo, agindo como uma barreira estrutural, conforme Machado, em municípios menores, a intensa vigilância social e a ausência de anonimato expõem constantemente o indivíduo, “enquanto a forte influência de instituições tradicionais e a escassez de redes de apoio e serviços especializados isolam a população LGBTQIAPN+”, pontua.
Ele ainda ressalta que, nessas localidades, o preconceito é mais pessoal, íntimo e contínuo. “Ele se consolida por intermédio da rejeição familiar direta e do boicote social e econômico, tornando a exclusão inescapável devido à proximidade inevitável entre os habitantes, privando a pessoa das bolhas de acolhimento e do refúgio que o distanciamento das metrópoles proporciona”, diz.
A psicóloga pelotense Morgana Cardoso, que faz parte da comunidade LGBTQIAPN+, conta que desde a infância se sentia diferente das suas colegas de escola. Somente com 18 anos, ela conversou com sua mãe e contou sobre sua orientação sexual. “Na época, muitos amigos que se assumiam para as famílias sofriam, apanhavam em casa, eram ameaçados de serem mandados embora, e alguns realmente foram expulsos, sendo acolhidos por vizinhos. Assim, eu tinha muito medo de falar pra minha mãe”, diz. Hoje, quase duas décadas depois e já casada, ela afirma ser bem resolvida com sua orientação sexual, de modo que a opinião das outras pessoas não faz diferença alguma.
Em seu consultório, Morgana observa esse mesmo padrão de comportamento gerado pelo mesmo medo. “É um público que sofre por medo do preconceito, por realmente sofrer dentro de casa, por algumas dificuldades que encontram na profissão que escolhem e no local onde moram. Mas as pessoas não sofrem por serem homossexuais, elas sofrem mais pelas pessoas terem preconceito por serem LGBTQIAPN+, pelas portas que se fecham pela maneira de serem e expressarem aquilo que são, como amam, como se relacionam”, afirma.
Sobreviver e inspirar
Para Luís Domingues, homem transexual de 65 anos, a realidade é repleta de dificuldades a serem superadas. Natural de Rio Grande, ele relata que sofreu preconceito desde criança. “Nunca foi fácil, desde minha experiência quando era lido enquanto lésbica masculinizada até transacionar. A sociedade local continua ‘conservadora’. Prefiro dizer que é hipócrita. Costumo afirmar que sobrevivi à três ditaduras: familiar, militar e social”.
Na adolescência Domingues seguiu passando por processos de violência emocional e física. “Tantas vezes e sem direito a denunciar porque não havia nenhuma lei que garantisse nossos direitos, evadi do colégio. Também experimentei a primeira expulsão de casa”, relembra. Na vida adulta, o maior desafio se deu nas atividades profissionais. “Pela necessidade primária, sobreviver, fui ingresso no mundo do trabalho. Isto garantiu que raramente sentisse fome. Ao mesmo tempo, paguei um preço muito alto. Conseguia trabalhar por um tempo e com salário o suficiente para garantir minha sobrevivência, mas sem ter os direitos trabalhistas garantidos”.
Hoje ele conta com diversas qualificações. Além de ser chefe de cozinha, Domingues é historiador – consolidando-se como o primeiro homem trans a colar grau na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), pioneiro presidindo um diretório do Partido Socialismo e Liberdade (Psol) e participando enquanto delegado pelo Rio Grande na Conferência Nacional de Direitos Humanos. Mesmo assim, a insegurança trabalhista ainda ameaça sua vida. “Não estou aposentado e sou quase que totalmente dependente de minha esposa. Presto alguns serviços esporádicos, mas que não garantem minha autonomia”, declara.
De acordo com Machado, a ocupação de espaços públicos, políticos, culturais e profissionais por pessoas LGBTQIAPN+ nessas cidades menores é essencial para demonstrar aos jovens que é possível habitar esses espaços e construir um futuro viável sem a necessidade de migrar. “Essa visibilidade desconstrói estereótipos diretamente no cotidiano, humaniza a diversidade diante de uma comunidade tradicional e força a transformação cultural do município”, reforça. Somado a isso, a ocupação impulsiona a criação de políticas públicas e ambientes inclusivos.
Construir caminhos e referências
O professor de matemática da rede estadual e especialista em Gênero e Sexualidade de 29 anos, Henrique Romel, natural de Caxias do Sul, cresceu em Morro Redondo, vivendo toda sua infância, adolescência e grande parte da vida adulta no município. Para ele, sua vivência na cidade foi um exercício diário de resistência. “Embora a sociedade brasileira tenha avançado significativamente em relação aos direitos da população LGBTQIAPN+ nas últimas décadas, a realidade vivida por quem mora em pequenas cidades continua marcada por desafios que nem sempre são percebidos por quem observa essa questão à distância”, reforça.
Romel sempre ouviu que ser da comunidade era uma “escolha”. “Desde cedo compreendi que existiam expectativas sociais muito claras sobre como um homem deveria agir, falar, vestir-se e amar. Essas afirmações revelam não apenas desconhecimento, mas também a dificuldade que parte da sociedade ainda possui para compreender a diversidade humana. A verdade é que ninguém escolhe sua orientação sexual ou sua identidade de gênero, e diversos estudos contemporâneos nas áreas da psicologia, sociologia e educação demonstram que a diversidade sexual e de gênero faz parte da própria experiência humana”.
Em 2024, o professor se mudou para Pelotas, onde reside atualmente. A experiência ampliou sua percepção sobre as diferentes realidades sociais presentes no estado. “Nas cidades um pouco maiores, apesar dos preconceitos ainda existentes, geralmente há mais espaços de acolhimento, maior diversidade de grupos sociais e mais oportunidades para que cada pessoa construa sua identidade com liberdade. Já no interior, onde as relações sociais são mais próximas e a vida comunitária é mais intensa, muitas vezes a diferença torna-se visível demais. Todos sabem quem você é, onde mora, quem são seus familiares e quais são seus hábitos”.
Entretando, Romel se assumiu homossexual ainda em Morro Redondo. “Assumir-se publicamente no interior não é simples. Quando me assumi publicamente como homem gay, vivi um dos momentos mais importantes da minha trajetória. Não foi apenas um ato de afirmação pessoal. Foi também um processo de libertação”, relembra. Ainda, para ele, ser professor hoje em dia exige responsabilidade, pois pode promover reflexões e inspirar estudantes a serem mais justos e humanos.
Machado pontua que o êxodo de pessoas LGBTQIAPN+ para os centros revela que “o preconceito em municípios menores funciona como uma força expulsiva e estrutural, demonstrando que a hostilidade comunitária inviabiliza a construção de uma vida segura, digna e economicamente sustentável”. A fuga prova que o anonimato muitas vezes não é uma preferência, mas sim ferramenta fundamental de sobrevivência.



