
A fumicultura segue sendo um dos pilares da economia de Canguçu e na safra 2023/2024 movimentou R$ 467 milhões. Hoje, aproximadamente 4,9 mil famílias se dedicam ao cultivo do tabaco, atividade que, apesar dos desafios climáticos e econômicos, continua garantindo renda para a agricultura familiar no município.
Airton Josué Wachholz mora no 1º Distrito de Canguçu, na localidade da Solidez. Agricultor, vive com a esposa e três filhos em uma propriedade de 30 hectares, sendo que 20ha são destinados à produção agrícola e os outros 10ha são áreas de mata e reserva legal. A principal fonte de renda da família ainda é o fumo, mas a intenção é, aos poucos, migrar para outras culturas.
“Primeiro pensamos na mão de obra, pois não adianta plantar uma coisa se não consegue atender e se não for com mão-de-obra familiar não se consegue, por isso nós diversificamos mais, para evitar que caia tudo na mesma época, além disso tem o fato da recuperação dos solos e da rotação de culturas”, explicou.
Durante o inverno, período fora da safra do fumo, a família aposta na venda de verduras entregues à uma fábrica de Pelotas de onde os produtos seguem para São Paulo e Rio de Janeiro. Para economizar e manter a renda, Airton acumula a função de produtor e motorista e é, ele próprio, responsável por levar a produção até o comprador. Além do cultivo comercial de verduras e tabaco, os Wachholz também investem na produção de milho. A propriedade ainda tem lavouras de feijão e batata para a subsistência.
Planos para incrementar a renda
Neste ano, a família deu início ao seu projeto de fruticultura com o plantio de 1,5 hectares de laranja, que devem começar a produzir em quatro anos e, também, de melancia. A introdução das novas culturas surge como mais uma aposta para diversificar a produção e incrementar a renda. Para viabilizar os projetos também entrou nos planos investir em irrigação.
“O nosso plano é sair fora do fumo, mas para desistir de produzir tabaco tem que procurar outras alternativas. Só que hoje, as alternativas são raras para que tu consigas entrar e ter uma renda como a oferecida pelo fumo. Essa é a maior dificuldade”, disse.
A falta de mão de obra, no entanto, limita a ampliação da produção, pois mesmo com a ajuda dos filhos mais velhos – de 23 e 22 anos – faltam braços para dar conta de todo o trabalho. “Eles vão seguir no ramo da agricultura, um é certo que vai ficar e o outro não”, comentou Airton.
A partir dessa realidade, que também está presente em muitas outras famílias do interior do município, os moradores da Solidez começam a se organizar de forma associativa para criar uma agroindústria própria para o processamento de legumes e verduras. A ideia é garantir mais uma alternativa de renda para famílias, que enfrentam o desafio de se manter na agricultura sem depender do fumo. A previsão é de que comece a funcionar no próximo ano.
Uma vida de desafios constantes
A decisão de ser agricultor foi tomada, segundo Airton, como consequência natural da vida. “Era a opção que se tinha na época. Na realidade, hoje se tu te envolveres com a agricultura é muito difícil tu conseguires sair fora. Em primeiro lugar pelo investimento que se faz, os financiamentos que são precisos fazer para começar. Então, depois que se começou a investir em uma área, não tem como abandonar tudo que se adquiriu durante dez ou 20 anos”, comentou.
Os desafios são diários, persistência e força de vontade são indispensáveis para seguir na lida. “As dificuldades são permanentes, estão presentes todos os dias, sempre tem que ir lutando e tentando melhorar. Por isso estamos diversificando a propriedade, para não depender só de uma cultura. Tem que ter vontade para trabalhar, quem não tem vontade não segue na lida”.
Apesar das dificuldades, o patriarca dos Wachholz afasta a ideia de abandonar a zona rural, em parte porque considera que viver em meio a natureza é uma satisfação e, também, pelo fato de poder trabalhar de forma autônoma. “Tu podes fazer as coisas do jeito que entende que tem que ser feito”.



