Durante a pandemia, casos de violência contra a mulher aumentam em Canguçu

Foto: Jelson Stoelben Rodrigues

Canguçu, um município de diferentes culturas, terra de pessoas fortes e batalhadoras, mas que também carrega histórias de realidades nada orgulhosas. A violência contra a mulher vem demonstrando números cada vez maiores. Durante a pandemia de coronavírus não foi diferente. Os casos que englobam violência física e psicóloga atingiram níveis ainda maiores.

De acordo com dados da Secretaria Estadual da Segurança Pública, somente em janeiro de 2021, o município registrou sete ameaças, oito lesões corporais e um estupro. Para que os casos sejam contabilizados e existam medidas de proteção, é necessário que as vítimas recorram à polícia e realizem denúncias.

No ano de 2020, foram 44 ameaças, 30 lesões corporais e oito casos de estupro. No estado, 33.392 mulheres sofreram ameaças, 18.944 tiveram lesões corporais e 1.908 foram estupradas.

Causas da violência em Canguçu
A juíza da Comarca de Canguçu, Hélen Fernandes Paiva, disse que a maioria dos casos atendidos no município é referente à violência praticada pelo ex-companheiro da vítima.

Conforme relatos, o comportamento agressivo já era percebido no começo do relacionamento, mas que “as mulheres apenas procuram ajuda após o término da relação, pois durante não são capazes de encarar a realidade, buscam colocar a culpa em si mesmas ou em outros fatores, como álcool ou estresse do homem, não tendo coragem de dar um fim à união, explicou.

A juíza comentou que muitas mulheres afirmam que o fator principal que levam os homens a cometerem atos violentos estão ligados ao consumo de bebidas e entorpecentes, mas acredita que a causa seja outra. “A violência doméstica é uma cultura enraizada na sociedade, sendo muito forte no município de Canguçu, principalmente entre os moradores da zona rural, em que sequer a situação de violência vivenciada pelas mulheres vem à tona, ficando muitas vezes velada por toda uma vida”, afirmou.

Isso ocorre porque homens e mulheres são educados nessa cultura e, a partir disso, as mulheres entendem que devem continuar mantendo relacionamentos abusivos, embora sofram situações de desprezo e violência, não apenas física, mas também psicológica, moral e patrimonial.

Outra questão que dificulta ainda mais essa realidade é o preconceito que gira em torno do tema. Em um município predominantemente rural, questões como essas são ainda mais difíceis de encarar. No entanto, é importante salientar que a vítima nunca é ou será culpada por um ato de violência sofrido.

Em relato contado por uma entrevistada, que preferiu não se identificar, ela disse que sofre violência psicológica pelo companheiro e informou que sua mãe, agricultora e moradora da zona rural, vive uma situação de violência física, cometida também pelo marido. Desde quando era criança e questionada sobre o motivo que a impede de denunciar, ela relatou que as famílias da região iriam ver isso como um ato de fraqueza e culpa-la pelos atos cometidos.

A violência verbal contra a mulher em Canguçu ocorre principalmente após o fim do relacionamento. Segundo a juíza, as ofensas dizem respeito ao caráter da mulher, principalmente quando iniciam um novo namoro e são perturbadas pelo ex-
companheiro. Ainda, durante a relação abusiva, existe a violência psicológica que “consiste em desvalorizar a mulher e chamá-la de louca.

Formas de denunciar
A recorrente realidade assola diariamente a vida de crianças do gênero feminino e mulheres que ocupam os mais diversos cargos dentro da sociedade. Atualmente, o município não tem uma casa de acolhimento para as vítimas, mas existem outras formas de denunciar e procurar pelos direitos assegurados em lei.

A advogada Karen Telesca (OAB 116.133), especialista em direito da família e capacitada em direito para mulheres que atua na defesa das vítimas de violência doméstica contou sobre as formas possíveis de procurar ajudar.

“A gente recomenda, quando há um caso conhecido de violência doméstica, seja consigo mesma ou alguma pessoa próxima, que seja realizada a denúncia através do 180, na Brigada Militar, diretamente na Polícia Civil ou então que seja procurado um advogado(a) de sua confiança para que a gente então possa ir até a delegacia fazer esse registro”, explicou.

Karen ainda complementou: “Hoje em dia é possível fazer o registro pela internet sem que a vítima precise se expor um pouco mais em ir até a delegacia prestar o depoimento. Através do próprio celular da pessoa ou no computador através da delegacia online para relatar e solicitar as medidas de proteção que serão concedidas ou não conforme o caso e relatos noticiados”.

Ações para conter/combater a violência
Um dos principais pontos destacados pela a juíza foi um alerta para as mulheres que “devem ficar atentas ao comportamento abusivo e/ou agressivo desde o início do relacionamento. O grande erro das mulheres está em tentar minorar as agressões verbais e físicas, que se iniciam leves e vão se agravando com o passar do tempo, até o ponto em que a situação se tornar insustentável e a vítima precisar procurar ajuda para se desvencilhar do relacionamento ou da perseguição do agressor”.

Além de atos de violação do corpo, desestruturação psicológica e feminicídio, as mulheres convivem diariamente com outras tantas ameaças e amarras sociais. E para acabar com isso, é necessário começar do início, criando e incentivando o diálogo, para que cada vez mais existam políticas públicas, responsabilização dos agressores e os diretos femininos assegurados.

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