Moradora de Canguçu denuncia caso de intolerância religiosa

Ialorixá Natália Paulsen relatou as situações vivenciadas por ela e por sua filha. (Foto: Freepik)

A ialorixá Natália Paulsen, moradora de Canguçu, através de uma live na sua conta na rede social Facebook, relatou um caso de intolerância religiosa sofrida por sua filha, atualmente com oito anos, na rede municipal de educação do município.

Segundo Natália, a criança estava, inicialmente, no maternal de uma escola particular quando tinha quase três anos, até que nas férias foi transferida para uma escola do município.

A mãe de santo relata que, no início, várias situações inesperadas conturbaram os primeiros passos da pequena na instituição de ensino, fatos que até então não havia relacionado com intolerância religiosa. Com certa frequência, Natália era informada de que a filha possuía algum problema ou condição especial que deveria ser examinada. “A minha filha tinha um problema. Minha filha não era normal. Foi me dito isso pois ela contava até 30 enquanto a professora estava ensinando a contar até cinco”, diz.

Os relatos escolares insistindo para que Natália procurasse ajuda especializada continuaram, de forma insistente. “Foi falado pela professora que a minha filha poderia ter autismo. O que não pode, gente? Professor não é médico, professor não dá diagnóstico. É crime”, enfatiza.

A situação se tornou ainda pior quando a ialorixá foi até a escola e, segundo ela, encontrou a menina amarrada em uma cadeira alta especial para alimentação de bebês. Ao questionar a instituição sobre o uso do equipamento para a criança que já possuía três anos recebeu a resposta de que era para a segurança dela. “Ela começou a aparecer com marcas de pegada nos braços, machucados. Ela chegava na frente da creche e se jogava no chão falando de bruxa má e eu, sinceramente, não entendi”, detalha.

Tempos depois, Natália descreve uma nova situação de exclusão sofrida pela filha, desta vez envolvendo a invernada da escola para a qual havia transferido a menina após os problemas na instituição anterior. A participação na atividade era paga, o que a mãe revela ter feito mensalmente até que, no início das apresentações, a menina não pôde estar presente pois era a data de seu aniversário, fato que segundo a mulher foi comunicado com antecedência, logo após ela foi excluída do grupo. “Posterior a isso eu fui atrás, como assim vão me excluir? Recebi uma mensagem, me pedindo mil desculpas mas que a * não estava pronta. E como iria conversar comigo ela não dançava perfeito pra apresentar. A * retornou para a invernada, porque eu não gostei do assunto eu tava pagando, e eu ia espiar os ensaios e ela tava sentada. Deixavam a * sentada enquanto os outros ensaiavam pra dançar perfeitos, sem a presença da minha filha”, relata. Ao fim do episódio, a menina se sentiu desanimada e não quis retornar para a apresentação, que já havia sido divulgada para a família.

Com a chegada da pandemia e o período de adaptação às novas regras escolares, Natália foi mais uma vez orientada a procurar ajuda pois, conforme dito, deveria ter algo errado com a sua filha. A instituição solicitou o encaminhamento para a sala de AEE, Aula de Educação

Especial, para fazer testes e avaliar a necessidade de apoio médico. “Foi um dia que eu chorei bastante na escola, aceitei, fizemos uma ata, conversei com elas e disse ‘se caso ela tiver alguma coisa eu quero que ela tenha estrutura do município, já que vocês estão tão preocupados com a saúde dela, eu quero que ela tenha uma estrutura, vamos fazer todos os teste’”, conta.

A avaliação feita após encaminhamento mostrou que a menina não possuía qualquer alteração ou anormalidade cognitiva, mas o problema não teve fim. “Me chamaram na escola e disseram que a minha filha não tinha nada, e aí disseram que ela tinha tudo. Quando eu vi o encaminhamento em cima da mesa da enfermeira que foi fazer a anamnese, tinha tudo que é tipo de sintoma”, revela. Após uma série de novas consultas, os testes psicológicos apontaram que a criança possui uma inteligência acima da média. “A * foi negligenciada o ano inteiro. Enquanto uns não aprendiam a ler e escrever ela tinha que fazer as atividades para aprender a ler e escrever, e reclamam que ela fazia a atividade muito rápido”, fala

A gota d’água para denunciar formalmente a situação chegou junto com a compreensão do caso de intolerância religiosa e o convite para participar do Fest Quilombola, um evento da instituição. Na ocasião, a mãe diz ter sido chamada para organizar e incentivar a participação no evento até que uma súbita mudança lhe foi comunicada. “Pra minha surpresa, no outro dia quando eu fui buscar minha filha na escola, me chamaram que teria que ter uma mudança de roteiro porque, pasmem, uma professora da escola poderia acabar me ofendendo dentro de sala de aula eu disse ‘me ofendendo por quê?’ ‘porque ela não gosta da tua religião’”, descreve.

A discriminação religiosa teria prosseguido ainda mais forte com comentários feitos diretamente para a pequena mesmo após uma nova transferência na rede municipal. “Ela chegou em casa e se ajoelhou em cima de uma cadeira e muito triste começou a rezar. Eu disse ‘mas o que tá acontecendo…’. Nós não somos cristãos, eu respeito Jesus Cristo, acredito que tenha sido um grande médium, tenho muita fé em Deus, Olorum pra nós, mas nós não somos cristãos aqui em casa. Nem eu nem meu marido nem meus filhos. E ela chegou em casa muito triste, chorando e rezando em cima de uma cadeira e eu (disse) ‘por quê, minha filha?’ Porque disseram que ela tinha um mal muito grande dentro dela, ou ódio que ela precisava rezar para tirar o mal de dentro dela, isso logo depois que ela veio da escola”, conta.

Ao fim do vídeo, a mãe fala sobre o medo que sente pela família e o cansaço diante de tantos problemas acerca do preconceito com a religião que segue. “Minha filha sofre intolerância religiosa, meu filho é pardo, sabe. Ele vai sofrer além da intolerância religiosa, ele vai sofrer racismo e eu não sei até quando o meu psicológico vai aguentar”, desabafa.

Questionada pela reportagem do JTR acerca de possíveis mudanças no tratamento do caso após a divulgação na rede social Natália, que até então não havia conseguido o retorno do município, conta que foi procurada pouco depois de anunciar a live. “Quando eu falei que iria entrar via Ministério Público fizeram uma junta pedagógica pra me atender mas não me deram retorno nenhum. E no dia da live, quando eu divulguei a live, elas me ligaram porque a secretária tinha tempo pra conversar comigo”, comenta.

Geovane Klipel, delegado da Polícia Civil de Canguçu, informou que o caso encontra-se em andamento de forma sigilosa. Testemunhas ainda devem ser ouvidas e o inquérito deve ser concluído dentro de 30 dias.

O que diz a Prefeitura

Em nota via Assessoria de Comunicação, a Prefeitura ressaltou que a condução da pasta é ” é sempre na construção de uma cultura de respeito e convívio harmônico entre todas as cores, crenças e religiões, especialmente porque Canguçu se caracteriza por uma grande diversidade étnica na sua formação”.

Apontou ainda que os problemas que acontecem nas escolas são “averiguados e esclarecidos de forma a buscarmos o entendimento entre os envolvidos. Quanto aos fatos apontados pela denunciante, enfatizamos que não há qualquer diferenciação de tratamento da aluna em relação as crenças religiosas da família”.

Confira a nota completa

“A condução da Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Cultura é sempre na construção de uma cultura de respeito e convívio harmônico entre todas as cores, crenças e religiões, especialmente porque Canguçu se caracteriza por uma grande diversidade étnica na sua formação.Conforme preconizado tanto na BNCC quanto na RCG, trabalhamos de uma forma ampla todas as religiões em nossas escolas, promovendo reflexões sobre os fundamentos, costumes e valores existentes na sociedade, com atividades que estimulem o diálogo e respeito entre todos.

Em relação a problemas que acontecem em nossas escolas, tanto com relação a questão religiosas como demais assuntos, os mesmos são averiguados e esclarecidos de forma a buscarmos o entendimento entre os envolvidos. Quanto aos fatos apontados pela denunciante, enfatizamos que não há qualquer diferenciação de tratamento da aluna em relação as crenças religiosas da família”.