Pequenos negócios mantêm viva a cultura gaúcha e movimentam economia no Rio Grande do Sul

Segundo estudo coordenado pela Universidade Feevale em parceria com órgãos do Governo do Estado, o tradicionalismo movimentou R$ 4,5 bilhões na economia gaúcha em 2023. (Foto: divulgação)

Vestidos de prenda, cuias, facas, erva-mate e artigos campeiros. Além símbolos culturais, esses produtos sustentam pequenos negócios, geram renda, fortalecem comunidades e ajudam a manter viva uma das identidades mais marcantes do Rio Grande do Sul. Em um cenário de transformação dos hábitos de consumo e das relações sociais, empreendedores do setor tradicionalista mostram que preservar a cultura também é uma forma de desenvolver economicamente o Estado.

Segundo estudo coordenado pela Universidade Feevale em parceria com órgãos do Governo do Estado, o tradicionalismo movimentou R$ 4,5 bilhões na economia gaúcha em 2023, reunindo atividades ligadas a rodeios, música, projetos culturais, erva-mate, cutelaria e outros setores que compõem a cadeia tradicionalista. Por trás desses números estão histórias de pequenos empreendedores que transformaram saberes culturais em profissão.

Chimarrão como herança, trabalho e resistência
Na Colônia São Manoel, 8º distrito de Pelotas, a erva-mate surgiu onde ninguém planejava encontrá-la. Na propriedade agroflorestal da família Schiavon, mudas começaram a aparecer naturalmente depois da recuperação ambiental de uma área degradada. O agricultor e educador Nilo Schiavon lembra que a propriedade havia sido desgastada por práticas agrícolas anteriores e passou por um processo de restauração ecológica.

Com o retorno das árvores e dos pássaros, a erva-mate apareceu espontaneamente. Anos depois, visitas de pesquisadores e universidades despertaram uma nova possibilidade de transformar aquelas plantas em produção. A partir de experimentações com métodos tradicionais de secagem e beneficiamento inspirados em técnicas históricas, nasceu uma produção familiar. “No ano passado, fizemos em média 300 quilos de erva seca. Atualmente estamos com 400 árvores plantadas, entre árvores maiores e árvores pequenas, que ainda não estão em produção. Mas a tendência é a cada ano aumentar esse volume”, relata.

Nilo Schiavon é produtor rural de erva-mate na Colônia São Manoel, na divisa entre Pelotas e Canguçu. (Foto: reprodução)

Hoje, toda a cadeia – cultivo, colheita, secagem, moagem e comercialização – é realizada pelos quatro integrantes da família, Nilo, sua esposa Márcia e os filhos Luana e Rômulo. Para o produtor, produzir erva vai além do mercado. “O chimarrão é presente na vida da maioria das pessoas do Rio Grande do Sul e eu acho um hábito bom, porque, além de tudo, ele ajuda a socializar. É uma forma de agregar, de juntar pessoas e cultivar o companheirismo. No dia a dia está presente pelas manhãs ou na tardinha, de ser tomado quente e/ou servido gelado, como o tererê, a planta é muito rica”, diz.

É possível adquirir os produtos da família Schiavon na Feira Ecológica da Arpasul – que Nilo ajudou a construir há 31 anos – em Pelotas, na avenida Dom Joaquim todos os sábados pela manhã, ou às quintas-feiras no Largo do Mercado Público Central pela tarde. Também é possível adquirir em Canguçu, na multifeira realizada em frente à Prefeitura nas quintas-feiras pela manhã. “Hoje a gente não tem produção suficiente para atender o mercado durante o ano inteiro, então temos um período muito curto de produção. Os meses de maio, junho e julho são os que a gente usa para colher e para respeitar o ciclo da planta”, explica.

Ele lamenta que o cultivo da erva-mate tenha diminuído em muitas áreas da região. “Terminou se perdendo praticamente toda a essência que tinha da planta da erva-mate, que era tão bonita”, afirma. Ainda assim, vê na produção agroecológica uma forma de recuperar parte dessa história. “A importância da erva-mate vem desde os tempos antigos, quando os índios guaranis começaram a usar a folha da erva-mate chá para ter energia, e a partir dali entrou no tradicionalismo”, conclui.

Costurar pertencimento
Em Pelotas, o que começou como uma paixão pela dança tradicionalista tornou-se profissão e fonte de renda para dezenas de pessoas. No Ateliê Vanessa Brites, vestidos de prenda deixam de ser apenas figurinos para se tornarem peças carregadas de memória, identidade e expectativa. “Nós começamos em 2015 e criamos o ateliê pela carência de lugares especializados na confecção de indumentárias, não só em Pelotas, mas até fora do Rio Grande do Sul. No início, como em qualquer negócio, não é fácil, mas eu sabia o que estavam esperando de mim, então eu me cobrava e tinha essa responsabilidade de entregar um bom produto. Eu sempre pensava como eu gostaria de receber esse vestido”, conta.

Vanessa costura para todas as idades e estilos de prenda. (Foto: rquivo pessoal)

O ateliê atende desde crianças em grupos de dança até adultos envolvidos com festivais tradicionalistas. “É gratificante ver que consegui tirar do papel aquele sonho e transformar em realidade as expectativas desde a menina de cinco anos até uma senhora de cinquenta que está dançando, e que se emociona em ver o vestido. Eu sou privilegiada porque o meu trabalho me dá satisfação pessoal e retorno financeiro. É uma realização de um projeto de vida e isso acaba se tornando às vezes mais fácil de enfrentar as dificuldades”, comenta a empresária.

A longo dos anos, Vanessa passou a movimentar também outros profissionais. Arranjos florais, acessórios, tecidos, bordados e mão de obra terceirizada passaram a integrar a produção das peças. O negócio cresceu e hoje gera demanda para costureiras e fornecedores da região. Ela afirma que hoje já não consegue atender toda a procura da região sul do Estado.

Vanessa também abriu espaço para formação profissional por meio de estágios obrigatórios na área de vestuário. “Hoje eu tenho um cadastro dentro do Instituto Federal Sul-rio-grandense Campus Visconde da Graça (Cavg) no curso de Técnico em Vestuário, porque eu fui muito ajudada quando iniciei e tenho como objetivo poder formar outras costureiras dentro do ateliê. Isso me possibilita contribuir de certa forma na comunidade para podermos aumentar a mão de obra, porque esse é um mercado em expansão, não só com os estilos de prenda, mas da parte masculina, que temos uma carência maior para a confecção”, diz.

Do galpão para a cidade
Se algumas empresas produzem a tradição, outras ajudam a colocá-la em circulação. Há 19 anos no mercado, a Correaria TuneSilva, em Pelotas, trabalha com cuias, bombas, facas, artigos em couro e outros produtos ligados ao universo gaúcho. Segundo o sócio proprietário Everton Azevedo, a ideia surgiu para ampliar o alcance dos produtos e aproximar consumidores urbanos de elementos tradicionalmente ligados ao campo.

 

A Correaria TuneSilva segue o lema “Do Galpão pro apê”. (Foto: divulgação)

Hoje, os itens mais procurados continuam sendo cuias e bombas, embora a loja trabalhe com uma grande variedade de artigos. Apesar disso, Azevedo identifica mudanças no comportamento do consumidor. “Infelizmente a gente está sentindo esse reflexo da diminuição do interesse dos jovens pelos artigos gaúchos”, aponta. Para ele, a internet ajudou a ampliar as vendas, mas também trouxe desafios para o comércio físico. Ao mesmo tempo, a empresa mantém o compromisso de valorizar fornecedores locais. “A gente sabe que tudo é uma engrenagem, se quebrar um elo a engrenagem falha, então a gente se preocupa muito com a questão dos artesãos e valorizar os produtos da região para fortalecer toda a cadeia produtiva do setor”, explica.

O aço que atravessa gerações
Em São Lourenço do Sul, outro pequeno negócio transforma tradição em sustento familiar. Desde 2012, a Cutelaria Coimbra produz facas artesanais e utensílios que carregam técnicas manuais e elementos que fazem parte da identidade gaúcha. O que começou como curiosidade e uma forma de complementar a renda tornou-se a principal atividade da família. Segundo Silvano e Josiane Coimbra, o crescimento do empreendimento aconteceu a partir da escuta dos clientes e da busca constante por peças diferenciadas.

O casal Coimbra tem na tradição familiar da cutelaria o seu sustento. (Foto: arquivo pessoal)

Por trás de cada peça existe um processo que exige tempo, técnica e precisão. A produção começa na escolha do aço que passa por muitas etapas que dependendo do modelo, uma única faca pode render entre 12 e 40 horas de trabalho efetivo. Para os proprietários, o diferencial do artesanal está justamente naquilo que não aparece à primeira vista. “Nossas facas artesanais diferenciam-se desde o processo de fabricação, exclusividade, qualidade dos materiais e carregam histórias e paixão em cada peça”, afirmam.

A faca ocupa um espaço simbólico dentro da cultura gaúcha. Para a família Coimbra, ela representa permanência e pertencimento. “A faca artesanal é um elemento de identidade e tradicionalismo, é um símbolo de sobrevivência e honra, deixando de ser um mero utensílio para se tornar uma extensão do próprio homem do campo”, dizem. Hoje, mesmo com apenas três pessoas diretamente envolvidas na produção, a cutelaria atende consumidores da região sul, de outros estados e até de fora do país, impulsionada pela internet e pela participação em feiras. Ainda assim, os desafios permanecem em equilibrar técnicas ancestrais com as exigências do mercado atual, enfrentar custos elevados e mostrar ao consumidor que, mais do que preço, cada peça carrega valor.

Consumir também é preservar
Se existem empreendedores produzindo tradição, também existem consumidores que mantêm esse ciclo vivo. Para a comunicadora Bibiana Mattos, de Canguçu, a relação com o tradicionalismo começou ainda na infância, acompanhando o pai em eventos e atividades culturais. Ao longo dos anos, participou de invernadas artísticas, ganhou concursos de prendas e atividades ligadas ao movimento tradicionalista. “A cultura gaúcha faz parte do dia a dia desde o costume diário de tomar o chimarrão, o uso de roupas ou acessórios que integram a pilcha e de certa forma, para quem vive isso, significa muito pois é uma maneira simples de valorizar e manter viva a tradição gaúcha”, ressalta.

Bibiana aprecia a cultura gaúcha graças ao incentivo do pai. (Foto: arquivo Pessoal)

Bibiana observa que produtos artesanais carregam valor que vai além do consumo. “Os gaúchos mantem forte a tradição de coisas feitas manualmente […] é algo tradicional da nossa cultura. Podemos seguir a moda dentro do estado, mas sem abrir mão das raízes. Comprar algo artesanal em lojas pequenas tem várias vantagens, uma delas é o valor. Eu encontro em festivais nativistas ou feiras, estandes de pequenas lojas com produtos de altíssima qualidade não muito conhecidas, vendendo desde cuias, bombas, facas, conjuntos de brincos e camafeus, flores de cabelo, mantas e bolsas de couro”, assegura.

A comunicadora expressa que enxerga a cultura gaúcha bem valorizada hoje em dia. “Especialmente nos jovens que doam grande parte das suas vidas para estar dentro dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) ensaiando nos grupos de dança para competições como o Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (Enart) e isso custa abdicar muitas vezes de estar presente na família, se dedicar melhor ao trabalho e aos estudos, além dos altos custos, é um exemplo claro da valorização da cultura através do jovem tradicionalista”, salienta.

Entre os objetos que mais guarda com afeto está um vestido de prenda (foto) desenhado por ela e confeccionado especialmente para momentos importantes da trajetória tradicionalista. Para Bibiana, levar o tradicionalismo para o cotidiano também fortalece o sentimento de pertencimento ao Estado.

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome