Mulheres que fazem a diferença na Zona Sul

Mulheres de quatro municípios da Zona Sul contam as barreiras diárias que enfrentam para alcançar o que almejam. (Fotos: Arquivo Pessoal, Liziane Stoelben/JTR, Paulo Barros e Diones Forlan/JTR)

Por Diones Forlan, Liziane Stoelben, Rafael Viana e Rafaela Dutra

Comemorado desde o início do século 20, o chamado Dia Internacional da Mulher foi oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975 e, diferente de outras tantas datas comemorativas no Brasil e no mundo, não é apenas mais uma data comercial. A data surgiu como um símbolo da luta de mulheres operárias por melhores condições de trabalho, direito ao voto e acesso à educação, na época.

Atualmente, o mês de março é utilizado como recurso e instrumento de mulheres que lutam e debatem a importância da equidade de gênero, já que, ainda hoje, os desafios a serem enfrentados pelas mulheres são muitos.

Em 2019, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou que apenas 37,4% dos cargos gerenciais existentes eram ocupados por mulheres e que as mesmas recebiam, em média, 20,5% menos do que homens que ocupam os mesmos cargos e funções. Além disso, o estudo mostrou que a responsabilidade por tarefas domésticas e cuidados com a família custavam, em média, 21,4 horas por semana às mulheres enquanto os homens gastavam 11 horas.

Os dados mostram que o caminho até alcançarmos a equidade de gênero é longo mas que, graças à luta celebrada no dia 8 de março muitos avanços já aconteceram. A exemplo disso, o Jornal Tradição Regional reuniu histórias de quatro mulheres de diferentes áreas que ultrapassaram barreiras e trilharam suas trajetórias de sucesso.

Pelotense e formada em Direito pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Lisiane Lemos ocupa lugares que poderiam ser considerados inalcançáveis para alguém como ela. Aos 31 anos, a especialista em tecnologia já foi executiva de uma das multinacionais mais importantes do mundo, a Microsoft, e hoje é gerente de Desenvolvimento de Agências do Google, além de professora do MBA de Big Data da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS).

Em 2017, Lisiane foi indicada pela revista Forbes como uma das jovens com menos de 30 anos que fazem a diferença no Brasil. (Foto: Paulo Barros)

A advogada usou dos espaços ocupados para engajar movimentos pela inclusão de pessoas negras no meio corporativo, sendo assim, se tornou co-fundadora do Conselheira 101, uma rede de profissionais negros e membro da Blacks at Microsoft Brasil e do Comitê de Igualdade Racial do Grupo de mulheres do Brasil. Em 2017, foi indicada pela revista Forbes como uma das jovens com menos de 30 anos que fazem a diferença no Brasil e, no ano seguinte, como uma das mulheres negras mais influentes do mundo pelo MIPAD (Most Influential People of Africa Descent), na categoria negócios e empreendedorismo.

Lisiane pontua o acesso à educação, proporcionado pela mãe e a avó, como um degrau importante no seu processo. “Minha avó foi uma professora alfabetizadora na escola do Navegantes. Minha mãe deu aula no ensino médio, na Escola Estadual de Ensino Médio Areal e isso me possibilitou, ainda, que eu fosse bolsista nas escolas privadas e a ter um conhecimento de diversas realidades”, pontua.

Uma das experiências mais transformadoras foi sua passagem por Moçambique, na África Oriental, onde vivenciou o ambiente de negócios no dia a dia. Lisiane retornou ao Brasil decidida em se desafiar em uma carreira em uma multinacional.

Hoje, Lisiane possui uma carreira estável e nacionalmente reconhecida, mesmo que em um meio majoritariamente masculino e branco, ela encontra forças para lidar com as adversidades no seu já reconhecido legado para as futuras gerações de mulheres na área de Inovação e Tecnologia.

“Tem dias que são pacíficos e dias que não são tão pacíficos. Às vezes, me questiono, por que estou me propondo a esse tipo de alternativa, mas eu penso que posso ser uma pessoa que abre portas para outras pessoas. Seja através desse diálogo, desse contexto de desafios, de levar um pensamento crítico ou mesmo inspirar através do meu exemplo”, explica. De acordo com ela, a dica para as mulheres que almejam altos voos é: Focar na jornada e não no fim.

O sonho que se tornou realidade em Morro Redondo
Jussara Vega Bitencourt, de 55 anos, atua há 25 anos no ramo de padaria. Natural de Canguçu, com 23 anos foi morar em Morro Redondo com o marido José Bitencourt e a filha Jamila Vega Bitencourt.

Jussara acreditou no sonho e hoje conta com oitos funcionários, sendo sete mulheres. (Foto: Diones Forlan/JTR)

Após o nascimento do segundo filho, Janiel Vega Bitencourt, em 1997, surgiu a necessidade de trabalhar para contribuir com a renda familiar. Aos 30 anos e com interesse pela panificação, começou com o pão sovado grande. Tudo era feito de forma manual, com apenas um pacote de farinha e tendo auxílio da sua filha. O produto era vendido no mini mercado do seu irmão, Daniel Vega, na rua das Guabirobas. Devido à demanda, foi necessário vender o veículo da família. Com o recurso, foi adquirido um cilindro elétrico e uma moto, que auxiliava nas tele-entregas de porta em porta.

Em 2001, houve o registro da Padaria Hot Pan que durante 4 anos funcionou em sua residência, na Vila Aurea. Porém, Jussara tinha certeza de que iria conseguir um lugar próprio. “Por eu acreditar sempre e dizer para os meus familiares que um dia ia ter a minha padaria com funcionários uniformizados e com um caixa com computador”. O prédio foi escolhido em uma caminhada, quando viu a edificação, na avenida Jacarandá, nº 348. A locação foi feita em 2005 e a padaria funciona no local até os dias de hoje.

Padaria está no local desde 2005. (Foto: Diones Forlan/JTR)

“Uma realização pra mim, adoro essa rotina, não me vejo fora desse cenário mesmo quando me aposentar, tudo que adquiri de bens, formação dos filhos foi com recursos obtidos na padaria”, disse.

Todos os produtos na parte de panificação são confeccionados na padaria, numa linha diversificada envolvendo em torno de 40 itens, equipe com oito funcionários, sendo sete mulheres.

“Proporciono a quem trabalha comigo ter a sua própria independência, elas amam o que fazem, são além de funcionárias, uma família”, disse.

Uma empreendedora em Arroio Grande
Letícia Christ de Souza Lima, 45 anos, é farmacêutica e bioquímica com especialização em Manipulação Magistral Alopática, Farmácia Clínica e Hospitalar e Terapia Floral. Com 25 anos de formação, ela é uma das tantas mulheres arroio-grandenses que enfrentou o desafio de empreender em uma cidade do interior.

Participante de diversos segmentos na cidade, já atuou na saúde pública nos municípios de Arroio Grande e Herval. Atualmente, dedica-se exclusivamente ao seu empreendimento, a CuRaRe Manipulação, Drogaria e Reabilitação, a primeira farmácia de manipulação instalada no município.

Letícia tem 25 anos de formação, e decidiu empreender há 16. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ao relembrar o início de sua trajetória empreendedora, a farmacêutica conta que atuou, logo após a formatura, em um laboratório de análises clínicas, pensando que esse seria seu caminho. No entanto, ao retornar para Arroio Grande, após realizar uma pesquisa de mercado e com o apoio incondicional do seu pai, a qual cita como grande inspirador, Letícia inaugura a CuRaRe, hoje com uma história de 16 anos.

Ao falar da experiência como empreendedora, a profissional cita como principal erro achar que o conhecimento técnico seria o suficiente pra conduzir o negócio. “Acho que meu maior obstáculo fui eu mesma, que precisei rever meus conceitos a respeito de negócio e administração ao longo desses quase 16 anos”, disse.

Em relação ao preconceito por ser mulher, ela afirma que nunca enfrentou em sua área de trabalho, mas relembra do seu envolvimento com o futebol, quando assumiu a liderança do Consulado Colorado no município. “O futebol, infelizmente, ainda tem uma essência machista, e apesar da abertura de espaço – pequena ainda, ao meu ver – vemos uma sociedade surpresa em ter mulheres gerindo e participando ativamente desse grande negócio que é o futebol”, conta Leticia.

Em Canguçu, empoderamento e o amor de irmãos
A microempreendedora Liliane Rutz Bierhals, atua no ramo de produtos naturais há cerca de 5 anos. Oriunda do interior do município, localidade de Nova Gonçalves, ela nasceu em família alemã. Com pai agricultor e mãe professora aposentada, passou a cuidar de seu irmão desde muito cedo. O jovem Lucas Bierhals possui a Síndrome Cri-du-Chat, que não tem cura e exige cuidados diversos.

Com a loja de produtos naturais, Liliane busca levar a alimentação saudável para todos, o que afirma ser um direito e um ato político. (Foto: Liziane Stoelben/JTR)

Aos 15 anos, mudou-se para a zona urbana, onde poderia estudar e ter acesso facilitado do irmão à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Canguçu (APAE). Liliane, que em diversos momentos é chamada de “irmãe”, conta que desde sempre divide sua caminhada com Bierhals. “O fato de ter ele por perto de mim me causa muita segurança, sou muito apegada a ele”, conta. Além do carinho pelo irmão, ela também procura pelos seus tratamentos médicos e costuma comemorar vitórias diárias “como quando ele colocou o chinelo corretamente, é um dia de cada vez”, lembra Letícia.

Formada em Serviço Social e atualmente graduanda em Nutrição, Lilica, como é popularmente conhecida, conta que sua trajetória profissional começou durante a atuação como conselheira tutelar, trabalho que, segundo ela, foi crucial para que tivesse uma visão mais humanitária.

Uma das principais pautas que defende é a importância de uma alimentação básica saudável. “Comer é um ato político, ligado à economia, à exploração e ao consumo desde quando alguém coloca um garfo na boca”, enfatiza. Procurando possibilitar o contato das pessoas com estes conhecimentos, decidiu montar a primeira loja de produtos naturais de Canguçu.

“Comecei vendendo como sacoleira até que criei uma loja na garagem de casa. No início tinha poucos produtos, fui desconstruindo algumas ideias sobre alimentação e aprendendo sobre o conjunto de ação: alimentação, produção natural e atividades físicas”, afirma.

Lilica, como é conhecida, cuida do irmão desde jovem. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para ela, a vida é feita de pequenas conquistas, de detalhes pequenos, todos os dias. “Sinto gratidão pelas pequenas felicidades e isso tudo mudou a forma como olho para as coisas”, pontua, citando a evolução das ações do irmão. Ela conta que pretende continuar apoiando o gênero feminino, principalmente por meio de seu trabalho. “Hoje levo uma vida mais tranquila, após anos de vivências. Sei que posso mudar todos os dias, ser alguém muito melhor”, destaca.

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