
Apesar de caber hoje ao fumo e não à fruticultura a liderança da produção agrícola no Arroio do Padre, o caqui ainda é uma cultura valorizada no município. Ao lado da maçã, a fruta motiva a esperada festa deste fim de semana na cidade. A Festa do Caqui e da Maçã chega a sua 14ª edição, e juntamente com a 18ª Festa Municipal de Arroio do Padre, celebra os 27 anos de emancipação deste que já foi o 10º distrito de Pelotas.
Nesta safra, segundo Gustavo Lapschies, presidente da Cooperativa Agropecuária de Arroio do Padre (Coopap), com mais de 80 associados, estima-se produção de 20 toneladas de caqui no município.
Ele é um dos produtores que contribui para a estimativa. Na propriedade de sete hectares, divididos em áreas em dois e cinco hectares no bairro Arroio do Padre II, ele se dedica ao pomar que mantém desde a emancipação política, em 1996, quando começaram os projetos de fruticultura.
Os pés de caqui se concentram na área menor, onde também planta cítricos e hortaliças. Projeta para esta safra, cujo trabalho de preparo do solo e plantação começou em setembro, a colheita de sete toneladas da fruta até maio, das variedades branca e amarela. Quando concedeu a entrevista ao Tradição Regional, ainda não tinha em mente a quantidade que levaria para a Festa. Só sabia que não seria pouca. “Sempre tem boa saída”, afirma.
Além da Festa, o caqui produzido em sua propriedade é comercializado no Ceasa, em Pelotas, em atacados e em chamadas públicas para abastecer instituições como escolas, universidades, hospitais, presídios, entre outras.
O produtor diz que nesta safra tem a se queixar de dois fatores: do custo de produção e do fungo que provoca antracnose. Insumos e demais produtos estão “bem caros”, segundo ele, embora o caqui “não demande muito”. Mesmo assim sentiu no bolso, principalmente na questão de adubação. Quanto à antracnose, estima perda em torno de uma tonelada no pomar. “Não tem muito o que fazer, é um fungo que está na terra, está no ar”, conforma-se.
Já a estiagem, felizmente, não foi problema. Pelo menos para ele: “Aqui [bairro Arroio do Padre II] choveu, foram pancadas boas, cheguei a pensar em irrigar, mas nem precisei, foram três semanas seguidas de pancadas de chuva, algumas com mais de 30 milímetros.”

Mercado
Lapschies vende sua produção in natura. Segundo ele, o preço pago pelo varejo ao produtor está bom. Varia entre R$ 4 a R$ 5 o quilo, tanto no Ceasa como nos atacados.
Já foi pior. Tanto que em um momento bom como esse ele não pensa em abandonar a fruticultura em nome do fumo ou da soja, que começa a penetrar no pequeno município. “Sempre trabalhei com hortifruticultura, não penso em abandonar”, afirma.
A olericultura também é forte na propriedade. Na área de cinco hectares dispõe de canteiros extensos onde estão plantadas uma diversidade de culturas, como berinjela, abobrinha, beterraba, alface, entre outras. Quanto à alface, apenas na semana passada colocou 200 dúzias no mercado pelotense, entre Ceasa, varejo e em instituições de ensino para alimentação escolar. “É assim toda semana, o ano inteiro, com alface não se descansa nunca”, diz.
Além das culturas in natura que produz na própria propriedade, o agricultor também vai oferecer ao público produtos da agroindústria familiar, a Agroguga, administrada, como de praxe no meio rural, pela ala feminina da família – no caso, a esposa Veralice. Com o selo da unidade colocará à venda geleias de caqui, morango “e o que mais tiver”.
Valter Thompsen, um dos precursores
Com 58 anos de idade, quase todos dedicados à agricultura, o fruticultor Valter Thompsen é um dos precursores da Festa do Caqui e da Maçã no Arroio do Padre. Ele foi um dos poucos produtores que lançaram a semente para dar início ao evento que projeta o município para além das suas divisas com Pelotas.
Na primeira, ele lembra bem, realizada no campo do Esporte Clube Arroio do Padre, vendeu uma caixa de caqui; na seguinte, oito. Hoje, a Festa está na 14ª edição.
Também por isso é presença certa no evento. Além de variedades mais líquidas de caqui, de acordo com o gosto do consumidor, vai levar goiaba, nectarina, ameixa e “mais alguma coisa”. Tudo produzido em sua propriedade, no Arroio do Padre, onde a família Thompsen está instalada há várias gerações.
Este ano, deve produzir entre quatro a cinco mil quilos de caqui, a estrela da festa. A se queixar somente do preço ao produtor, que segundo ele é o mesmo há dez anos. “Esse é um fator que desacorçoa”, lamenta. Mesmo assim, a exemplo de Lapschies, não pensa em desistir da fruticultura: “É com o que eu gosto de trabalhar, mas não está rendendo”.
Para ele, a população tem cada vez menos poder aquisitivo para comprar fruta. “Até chegar no caqui, [o consumidor] primeiro passa pela banana, depois a maçã, que está ficando cara -até chegar no caqui, que dá uma vez por ano e não fica muito tempo na gôndola, principalmente o mole – diferentemente de outras variedades, que se mantém na câmara fria, é um longo caminho”.
Açudagem
Uma das alternativas para manter o produtor na fruticultura, de acordo com Thompsen, é oferecer mananciais para a produção, como a partir da construção de açudes nas propriedades. “No Arroio do Padre a importância de um programa de açudagem é enorme, principalmente para a fruticultura e para a olericultura. Chega num ponto em que a água é necessária para desenvolver [a fruta] e muitas vezes falta – a fruta fica pequena e assim é mais difícil para comercializar. Programas de açudagem no Arroio do Padre seriam ideais. A goiaba está miúda, caqui não está tão graúdo. Com mais água a fruta fica com aparência melhor e desenvolve mais”, explica.



