Escolas de educação especial se preparam para o retorno presencial em Pelotas

Alfredo Dub tem retorno programado para o dia 7 de março. (Foto: Rafaela Dutra/JTR)

A pandemia de Covid-19 tirou milhares de alunos das salas de aula e fez com que muitos desses precisassem se adaptar à educação a distância. Segundo dados divulgados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em janeiro, a taxa de evasão escolar de alunos entre 5 a 9 anos saltou de 1,41%, no último trimestre de 2019, para 4,25%, no mesmo período de 2021 – a taxa é 128% mais alta.

Outra pesquisa, realizada pelo Datafolha, aponta que dois em cada três estudantes precisam de reforço escolar. Isso aconteceu porque muitos alunos e responsáveis não conseguiram se adaptar ao ensino online ou até mesmo não tinham acesso à internet. Agora, perto do retorno ao ano letivo, as escolas se preparam para uma nova fase: o ensino presencial durante a pandemia. Os setores pedagógicos precisarão se encaixar à nova realidade das salas de aulas.

Na educação especial os desafios são ainda maiores. Em Pelotas, a Escola Especial Professor Alfredo Dub, uma instituição filantrópica que atua na educação de alunos surdos, precisou de muito esforço da equipe pedagógica para promover educação e atividades de qualidade para os mais de 150 alunos, do 1º ao 9º ano.

Alfredo Dub tem retorno programado para o dia 7 de março. (Foto: Rafaela Dutra/JTR)

As aulas via chamadas de vídeo funcionam graças ao esforço dos pais e professores, que se empenharam para fazer dar certo. Além da distribuição de material didático na escola e via e-mail, as professoras instruíam os responsáveis a acessar as plataformas. “Uma das nossas professoras, que é mais tecnológica, fazia esse apoio técnico junto às famílias. Ela ia nas casas e explicava como conectar o celular na TV, por exemplo”, conta Fabiane Bohm, diretora da escola.

A equipe da Associação Escola Louis Braille, também enfrentou empecilhos nos últimos dois anos. Situada em Pelotas, a escola é voltada para o atendimento a deficientes visuais, com cegueira ou baixa visão, e outros comprometimentos. Uma das principais queixas recebidas pela escola foi a falta de didática dos responsáveis, que auxiliavam os alunos em casa.

Louis Braille atua há 70 anos no atendimento
a pessoas com deficiência visual, cegueira
ou baixa visão e outras condições. Foto: Rafaela Dutra/JTR)

“Eles sentiam muito essa dificuldade. De repente, foi repassado a eles uma função que é nossa, mas a gente não tinha o que fazer”, conta a vice-diretora, Karina Monteiro Bueno. Em razão disso, o suporte aos responsáveis precisou ser intensificado e a divisão dos alunos em grupos menores, para que o professor pudesse realizar as atividades de maneira eficiente.

Coordenadora pedagógica, Andreia Nachtigall Robe e a vice-diretora Karina Monteiro Bueno, da Associação Escola Louis Braille. (Foto: Rafaela Dutra/JTR)

Na Louis Braille, são trabalhadas turmas do pré ao 5º ano, Educação de Jovens e Adultos (EJA) “etapa inicial” e “formação para vida”. Assim como na Alfredo Dub, a dificuldade no acesso às plataformas também foi enfrentada por alguns alunos. A coordenadora pedagógica, Andreia Nachtigall Robe, citou ainda a evasão como ponto negativo:

“Infelizmente, a gente tentou resgatar de várias formas, mas não conseguimos. Tínhamos pais com muita dificuldade financeira, tendo que priorizar o estudo ou acompanhamento médico”, contou. Segundo a coordenadora, o EJA “formação para vida” foi onde o ensino a distância funcionou melhor“. Aquela prática que era feita aqui, quando surgiu a possibilidade do remoto, se viu eles trabalhando em casa. Os alunos na cozinha, querendo ajudar em casa. Foi muito legal”, afirmou.

Além de todas as dificuldades de ensino causadas pelo coronavírus, as escolas agora planejam maneiras de enfrentar esses e outros obstáculos no formato presencial. A mais antiga entre as duas, a Alfredo Dub, que completa 72 anos em 2022, começou a apresentar problemas de infraestrutura.

Para Fabiane Bohm, diretora do Alfredo Dub, as aulas via chamadas de vídeo funcionam graças ao esforço de pais e professores. (Foto: Rafaela Dutra/JTR)

A infiltração no telhado do prédio localizado na rua Zola Amaro, nº 379, bairro Três Vendas, fez com que grande parte do teto da escola cedesse. Além disso, acabou comprometendo a rede elétrica. “Nós ficamos impedidos de ligar luzes. Parte da escola ficava no escuro e algumas salas de aula também. Então nós não pudemos nem retornar às aulas no ano passado”, conta Fabiane.

Para contornar essa situação, iniciou-se uma campanha de arrecadação de fundos com o objetivo de custear a obra. A partir daí, vários voluntários, não apenas oferecendo a quantia em dinheiro, como também mão de obra.

Campanha e ajuda de voluntários
permitiu realizar a recuperação de
parte do telhado da Alfredo Dub. (Foto: Arquivo Pessoal)

Manoel Luís da Cruz, 60 anos, é professor aposentado e divide o tempo entre o Rio Grande do Sul e o Ceará, mas foi no Dub que ele teve a primeira experiência profissional, em 1978. Ao retornar a Pelotas, ele se deparou com a campanha de arrecadação e não pensou duas vezes antes de mobilizar o grupo de amigos para ajudar a escola. “Foi uma ação entre amigos que se propuseram a contribuir com valor e outros com trabalho técnico e especializado da parte elétrica”, conta.

A obra do telhado e a troca da rede elétrica já estão em 50%, permitindo que os alunos voltem às salas de aula em 7 de março. O voluntário agora promete seguir auxiliando a escola na campanha e na busca de sócios fixos, para aumentar a renda mensal.

“Espero poder contribuir mais, devolver um pouco pra escola que me deu a oportunidade de começar a caminhar dentro da minha profissão de maneira mais sólida, de me compreender como professor e trabalhador”, pontua. A instituição segue recebendo doações de qualquer quantia para a conclusão da obra e manutenção da escola, via PIX: CNPJ 87393229000111.

Na Louis Braille, que fará 70 anos, o principal obstáculo enfrentado pelos profissionais durante o ensino remoto, foi a falta de contato físico. Os materiais pedagógicos e outros elementos físicos de acessibilidade são fundamentais para as pessoas com deficiência visual, pois permitem que elas se familiarizem com os objetos e lugares. “Estamos bem preocupadas porque tudo que não se pode higienizar não se pode usar e aqui, [para] os nossos alunos tudo é toque, tudo eles precisam experienciar, pra poder entender, poder construir um conceito, então isso nos limita um pouco na questão do trabalho”, lamenta Andreia.

A escola, que até então ofertava o material didático, agora vai ter que solicitar uma caixa de materiais escolares individuais para os responsáveis no retorno, que ocorre na segunda-feira (21). Por isso, estão aceitando doações de materiais e brinquedos de som e luz, para a estimulação visual. Dúvidas sobre as necessidades específicas da escola podem ser retiradas pelo (53) 3222-1474 ou direto na sede da Associação, rua Andrade Neves, nº 3084, no Centro. Também são aceitas doações em dinheiro.

As duas escolas esperam por um retorno tranquilo e com adaptação o mais rápido possível e contam com o apoio da população e dos pais e responsáveis para o monitoramento de possíveis sintomas do vírus, tendo em vista a situação atual do município em relação a pandemia. “A gente conta com o comprometimento dos pais de que se a criança apresentar uma febre ou qualquer sintoma, que não venha pra escola”, frisou a coordenadora do Louis Braille.