Além da corrida: motorista de aplicativo transforma o carro em espaço de histórias e acolhimento em Pelotas

Hérique Rodrigues abdicou de um emprego na área comercial para se dedicar à profissão de motorista autônomo. (Foto: Arquivo pessoal)

Trocar a rotina de metas e horários fixos pela liberdade de dirigir foi uma decisão que transformou a vida de Hérique Rodrigues, 29 anos. Há dois anos e meio trabalhando como motorista de aplicativo em Pelotas, ele encontrou na profissão uma oportunidade de reorganizar a vida pessoal e profissional após enfrentar um quadro de burnout. Hoje, embora reconheça os desafios da categoria, afirma que o volante representa mais do que uma fonte de renda: é um espaço de encontros, histórias e aprendizado.

A experiência de Rodrigues reflete uma realidade que cresce em todo o país. Dados da última edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que aproximadamente 878 mil brasileiros tinham o transporte de passageiros por aplicativo como principal atividade em 2024. Considerando todas as ocupações intermediadas por plataformas digitais, o Brasil contabilizou 1,7 milhão de trabalhadores, número 25,4% maior do que o registrado em 2022.

Liberdade com responsabilidade

Depois de anos atuando na área comercial, Rodrigues decidiu mudar de profissão em busca de maior autonomia e qualidade de vida. “O aplicativo me trouxe mais liberdade de tempo e também a possibilidade de cuidar da minha mente”, conta.

A flexibilidade é justamente um dos principais atrativos da atividade. No entanto, ela não significa trabalhar menos. Para aproveitar os horários de maior demanda, ele organiza a rotina em diferentes turnos, iniciando o expediente pela manhã, fazendo uma pausa no início da tarde e retornando no fim do dia, muitas vezes encerrando as corridas por volta das 22h ou 23h.

Essa realidade acompanha o cenário nacional. Segundo o IBGE, motoristas de aplicativo trabalham, em média, 45,9 horas por semana, jornada superior à de outros profissionais do transporte. Embora apresentem rendimento mensal ligeiramente maior, o ganho por hora trabalhada — que varia de acordo com o município e estado — é semelhante ao dos demais motoristas justamente em razão da carga horária mais extensa.

O peso dos custos

Se a autonomia é um dos pontos positivos da profissão, manter o veículo em condições de trabalho exige planejamento constante. Para o motorista, combustível, manutenção e desgaste provocado pelas ruas da cidade comprometem boa parte da renda.

“O combustível é o maior vilão. A gente precisa estar sempre procurando postos com promoções para conseguir economizar. Depois vêm manutenção, suspensão e todos os outros gastos. É preciso ter uma organização financeira muito rígida”, afirma.

Além dos custos operacionais, o motorista destaca que o trabalho exige disciplina para lidar com despesas inesperadas e períodos de menor movimento.

Regulamentação ainda é desafio

Outro tema que preocupa a categoria é a ausência de uma regulamentação definitiva da atividade. Para Rodrigues, a relação entre motoristas e plataformas ainda carece de regras que garantam mais segurança jurídica. “Se eu pudesse mudar uma coisa, seria a regulamentação da profissão. Hoje quem depende integralmente do aplicativo fica muito inseguro porque todas as regras acabam sendo definidas pelas plataformas”, comenta.

Os números nacionais reforçam essa percepção. Conforme o IBGE, 83,6% dos motoristas de aplicativo trabalham na informalidade e apenas 25,7% contribuem para a Previdência Social, o que limita o acesso a benefícios como aposentadoria e auxílios em caso de afastamento por doença ou acidente. A regulamentação da categoria segue em discussão no Congresso Nacional.

A segurança também faz parte da rotina. Durante mais de um ano trabalhando principalmente no período noturno, o jovem afirma que precisou desenvolver estratégias para reduzir riscos.

“Tu nunca sabes quem vai entrar no carro. Muitas vezes a corrida está em nome de uma pessoa e chegam outras. A gente fica vulnerável e, mesmo tendo seguro no carro, não existe proteção para a nossa vida”, relata.

Histórias que entram pela porta

Apesar das dificuldades, é no contato diário com os passageiros que ele encontra o maior significado da profissão. Estudante de Psicologia, ele percebe que o carro frequentemente se transforma em um ambiente de confiança. “Não estamos levando uma carga, estamos levando um ser humano”, resume.

Ao longo de quase 15 mil corridas realizadas pelas plataformas, ele ouviu histórias de superação, perdas, reencontros e conquistas. “Às vezes as pessoas entram no carro e começam a desabafar. É um ambiente neutro. Elas sabem que provavelmente nunca mais vão ver aquele motorista. Já ouvi histórias muito difíceis, mas também conversas que me ensinaram bastante”, conta.

Segundo ele, cada passageiro leva consigo uma realidade diferente, tornando cada corrida única. “Tem gente indo comemorar uma conquista, gente voltando de um velório, pessoas felizes, pessoas tristes. Tu acabas levando histórias. Acho que essa é a parte mais bonita da profissão”, diz.

Muito além do destino

Para Rodrigues, oferecer uma boa experiência não depende apenas de um carro confortável. Educação, respeito e atenção ao passageiro fazem parte do serviço. “Um bom dia, uma boa tarde, fazer a pessoa se sentir confortável. No fim das contas, estamos trabalhando com atendimento”, afirma.

Enquanto aguarda avanços na regulamentação da profissão, ele segue dirigindo pelas ruas de Pelotas acreditando que o verdadeiro valor do trabalho vai além do trajeto indicado no aplicativo. “Hoje muita gente sustenta a família trabalhando com aplicativo. É uma profissão que merece mais reconhecimento e direitos. Enquanto isso não acontece, seguimos fazendo o nosso melhor todos os dias”, conclui.

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