Julho Amarelo: Hepatites virais desafiam saúde

Ampliação da testagem rápida, segundo a SMS, resultou em um aumento no número de casos registrados em relação ao mesmo período de 2026 (Foto: Geovana Albuquerque)

O corpo avisa quando algo não vai bem. A dor aparece, a rotina é interrompida e, quase sempre, a procura por atendimento médico acontece. As hepatites virais, porém, podem seguir um caminho diferente: em muitos casos, instalam-se de forma silenciosa e permanecem durante anos, comprometendo a função do fígado aos poucos.

Instituído pela Lei nº 13.802/2019, o Julho Amarelo abraça a campanha nacional de conscientização e controle das hepatites virais, buscando informar sobre prevenção, vacinação e diagnóstico precoce — fundamental para o combate da doença que, em muitos casos, não apresenta sintomas perceptíveis. A iniciativa procura reduzir a transmissão da doença que pode se apresentar de diferentes formas (A, B, C, D e E).

Diagnóstico precoce

Hepatites virais são infecções que inflamam o fígado, e podem ser causadas por diferentes vírus. Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, as hepatites mais comuns são: A, transmitida pelo consumo de água ou alimentos contaminados com fezes de pessoas infectadas; B, transmitida pelo contato com o sangue ou fluidos corporais; e C, transmitida, majoritariamente, pelo contato com sangue (raramente associada à transmissão sexual, por exemplo).

Embora os avanços no tratamento tenham mudado o prognóstico dos pacientes, o principal desafio ainda é descobrir a infecção antes que ela provoque danos permanentes ao fígado. Nas hepatites virais, esperar pelos sintomas pode significar perder um tempo precioso para iniciar o tratamento.

Essa mudança de perspectiva passa, necessariamente, pelo diagnóstico precoce. Segundo Lucia Elbern, fundadora e vice-presidente da VIAVIDA — entidade beneficente que promove a doação de órgãos e tecidos no Rio Grande do Sul — identificar a infecção antes do comprometimento do órgão amplia as possibilidades de tratamento e evita que a doença evolua para quadros mais graves. “Como é uma doença silenciosa, muitas vezes é descoberta quando já está avançada e o fígado não funciona mais. Daí o transplante é necessário”, explica.

Quando não identificadas e tratadas, as hepatites virais podem provocar complicações como cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado. Hoje, a hepatite C conta com tratamento altamente eficaz e elevadas taxas de cura, enquanto a hepatite B pode ser controlada por meio de acompanhamento profissional. A hepatite A, por outro lado, é uma infecção aguda autolimitada, o que significa que o próprio corpo combate o vírus e, na grande maioria dos casos, se cura sozinho.

Pensando em ampliar as oportunidades de diagnóstico, Pelotas intensificou suas ações durante o Julho Amarelo. Segundo Carolina Felix, coordenadora da Rede de Doenças Crônicas Transmissíveis da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), mais de 20 mil testes rápidos para hepatites virais já foram realizados em 2026. “O município vive um momento de intensificação das ações de testagem para as hepatites virais, com o objetivo de identificar precocemente pessoas que ainda não possuem diagnóstico, ampliar o acesso ao tratamento e interromper a cadeia de transmissão da doença”, afirma.

A ampliação da testagem rápida, segundo a SMS, resultou em um aumento no número de casos registrados em relação ao mesmo período de 2026. Ainda assim, a Secretaria destaca que esse crescimento não necessariamente representa um avanço da doença, mas indica uma capacidade maior de identificar pessoas que convivem com ela e ainda não sabem.

No município, os testes rápidos são oferecidos gratuitamente em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). O procedimento é simples: realizado com uma gota de sangue retirada da ponta do dedo, leva cerca de 20 minutos para apresentar o resultado. Em caso positivo, o paciente é encaminhado para um exame de carga viral que confirma o diagnóstico e orienta para a consulta médica.

Informação e prevenção caminham juntas

Além da testagem, a vacinação também sustenta a campanha do Julho Amarelo. Em Pelotas, mais de 9 mil doses da vacina contra hepatite B já foram aplicadas em 2026. Ainda assim, a SMS reforça medidas como o uso de preservativo e o não compartilhamento de seringas, agulhas, lâminas, alicates e outros itens que possam entrar em contato com sangue.

Para Lucia Elbern, um dos maiores desafios da campanha de conscientização está na desinformação. De acordo com a fundadora do VIAVIDA, muitos desconhecem tanto a existência da vacina quanto a necessidade de evitar a transmissão do vírus. “Muitos pensam que é uma doença, e realmente é. Por isso exige cuidados de quem tem para não transmitir”, reforça.

Há mais de duas décadas, o VIAVIDA atua no Rio Grande do Sul promovendo a conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, além de desenvolver ações voltadas à prevenção de doenças que podem comprometer órgãos vitais, como as hepatites virais. Para a entidade, ampliar o acesso à informação é uma forma de reduzir o número de pacientes que chegam aos serviços especializados apenas quando a doença já provocou danos irreversíveis ao fígado.

Daiane Nickel, enfermeira e integrante do Movimento Brasileiro de Luta contra as Hepatites Virais (MBHV), observa que a conscientização também passa por desmistificar a doença. De acordo com ela, pacientes geralmente descobrem a condição durante exames de rotina, doações de sangue ou ao investigar outro problema de saúde. Para Daiane, é fundamental incluir a testagem entre os cuidados periódicos. “Na maioria das vezes, [as hepatites] evoluem por anos sem causar sintomas. A pessoa pode estar infectada e levar uma vida ‘normal’, enquanto o fígado vai sofrendo progressivamente”, afirma.

O MBHV reúne pessoas de diferentes perfis, desde pacientes que convivem com doenças hepáticas, até familiares e pessoas que aguardam ou já realizaram o transplante de fígado. Em muitos casos, segundo a enfermeira, o diagnóstico aconteceu de forma inesperada. “Alguns [pacientes] relatam que descobriram a hepatite por acaso, em exames de rotina ou durante uma doação de sangue, por exemplo”, conta.

Os relatos recebidos pelo Movimento reforçam o principal alerta do Julho Amarelo: diante de uma doença que pode permanecer silenciosa por anos, não é necessário esperar pelos sintomas para procurar atendimento.

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