
Por décadas, para muitas meninas de Pelotas, jogar futebol significou insistir onde quase não havia espaço. Antes das transmissões televisivas, dos investimentos maiores e do crescimento recente da modalidade, existiam treinos em horários alternados, viagens organizadas com ajuda da comunidade, rifas para disputar campeonatos e famílias que sustentavam sonhos com esforço próprio.
Foi nesse cenário que nasceu, em 1996, o projeto das Lobas, do Esporte Clube Pelotas, uma iniciativa que atravessou gerações e ajudou a formar atletas, profissionais e histórias que seguem influenciando o futebol feminino da cidade. Entre quem construiu essa trajetória estão ex-jogadoras como Veridiana Moraes e Flávia Betemps e o coordenador histórico do projeto, Marcos Planela. Além da evolução do esporte, suas memórias revelam o papel do futebol na formação de mulheres dentro e fora de campo.
Quando jogar era ocupar um espaço que ainda não existia
A história de Veridiana — hoje técnica em enfermagem — começou cedo. Aos sete anos, ela entrou em uma escolinha onde não existia equipe feminina. Jogava entre meninos, repetindo uma realidade comum para muitas atletas da época. Mais tarde, aos 13 anos, entrou por meio de uma seleção para o time feminino do Pelotas e encontrou um espaço que mudaria sua vida. Durante cerca de doze anos defendendo as Lobas, acumulou conquistas, amizades e viveu um dos momentos mais marcantes da história do clube, sendo, em 2008, capitã da equipe campeã gaúcha adulta.
Para ela, vestir a braçadeira significava mais do que representar o grupo. “Ser capitã de uma equipe é de grande responsabilidade. Tem que ter um olhar especial para cada atleta, saber ouvir, incentivar e saber a hora certa de unir o grupo em busca de um objetivo maior”, relata. Mas permanecer no futebol exigia escolhas difíceis. Veridiana conta que precisou interromper a carreira para entrar no mercado de trabalho e, depois, conciliar maternidade e vida profissional, realidade compartilhada por muitas atletas que jogaram antes da profissionalização do futebol feminino. Mesmo com as dificuldades, ela afirma que foi no esporte que aprendeu valores que carrega até hoje, como comprometimento, dedicação e responsabilidade.
Um projeto que formou atletas e também pessoas
Quando Marcos Planela e Marli Becker Moro idealizaram o departamento de futebol feminino do Pelotas, em 1996, o objetivo inicial era criar oportunidades. Trinta anos depois, o projeto se transformou em uma referência estadual. Planela expõe que jamais imaginou que passaria décadas envolvido com o futebol feminino e que boa parte da sua trajetória profissional nasceu dessa escolha. Ao longo dos anos, segundo ele, o projeto deixou de ser apenas um espaço esportivo para se tornar um ambiente de formação.
A exigência por frequência escolar, acompanhamento de desempenho acadêmico e participação em ações sociais passou a fazer parte da rotina das atletas. “A gente tenta preparar não só jogadoras, mas cidadãs. Ser loba não é melhor nem pior, mas diferente, diferente justamente porque a gente se preocupa com a formação escolar das meninas, monitora e apoia isso em vários momentos. Com o apoio da nossa parceria, temos coisas que nos orgulham muito como o Lobas Solidárias, que faz atletas se inserirem em ações de cunho social, atividades alternativas e complementares aos treinos que a gente faz”, explica o treinador.
Para ele, o cenário atual é diferente. Hoje, pais acompanham treinos, filmam jogos e incentivam as filhas a praticarem futebol, algo raro nas primeiras gerações. Segundo Planela, o crescimento da modalidade também aparece na qualidade técnica das atletas e no aumento das oportunidades. Ao longo da história das Lobas, dezenas de meninas passaram por convocações para seleções brasileiras ou seguiram carreira em clubes nacionais e internacionais. Ainda assim, ele defende que o principal investimento precisa continuar acontecendo na base.
Das primeiras gerações ao legado que permanece
Se para Veridiana o futebol ensinou disciplina e coletividade, para Flávia — hoje educadora física — ele ajudou a definir toda a vida profissional. Filha única entre quatro irmãos homens, ela cresceu cercada pelo esporte e começou a levar o futebol mais a sério ainda na adolescência. Em 1996, integrou o primeiro grupo das Lobas e participou da construção inicial do projeto.
“Ali nasceu uma ideia de futebol levado a sério, com comprometimento de todas e profissionais trabalhando para que cada atleta desempenhasse o melhor em campo. Muitos títulos conquistados e acima de tudo uma etapa da minha vida que me formou como ser humano. Ali aprendi que tropeços fazem parte da vida e que pra toda conquista é necessário esforço, superação e repetição. Sou o que sou hoje porque lá atrás tive uma base forte de cobranças e valores aprendidos no esporte”, relata a ex-jogadora.
Flávia se tornou uma das principais referências da história do clube e hoje é lembrada como a maior goleadora das três décadas das Lobas. Mas o impacto do projeto ultrapassou os resultados. Ela conta que o estímulo aos estudos e as oportunidades criadas pelo clube influenciaram diretamente sua escolha profissional. Conseguiu apoio para cursar pré-vestibular e mais tarde ingressou na universidade, optando pela Educação Física. “O esporte forma caráter. Não existe nada parecido”, afirma.
Apesar de ter recebido oportunidades para ampliar a carreira esportiva fora de Pelotas, decidiu seguir outro caminho naquele momento para priorizar os estudos. Hoje, observa uma transformação importante no futebol feminino. “Na nossa época era um amadorismo quase invisível. Agora é uma indústria profissional global”, diz a educadora física. Mesmo reconhecendo os avanços, ela acredita que ainda é preciso ampliar apoio empresarial e políticas públicas para fortalecer a modalidade.



