O mundo mudou e os adolescentes também

Sérgio Corrêa, jornalista e radialista.

Mudanças profundas impulsionadas pelo contexto político, econômico, tecnológico, social e até mesmo familiar fizeram surgir gerações diferentes de seus pais e avós, e para entender estas transformações é preciso olhar o mundo com os óculos dos adolescentes de hoje.

Para as gerações anteriores, o sucesso profissional era medido pela estabilidade e por longos anos dedicados à mesma empresa. Para os jovens de hoje, o sucesso está vinculado à qualidade de vida. Este modelo de trabalho presencial com 8 horas diárias, tendo que percorrer longas distâncias, perdeu o sentido, especialmente após a pandemia que consolidou o trabalho remoto e híbrido. Os jovens valorizam o controle sobre seu próprio tempo e tendem a pedir demissão de empresas que não oferecem o mínimo de flexibilidade.

Diferente das experiências dos vovôs e vovós que iniciaram a vida profissional e se aposentaram na mesma empresa, os jovens hoje, cresceram assistindo seus pais dedicarem décadas de vida e trabalho a uma empresa para, muitas vezes, serem demitidos sem cerimônia em momentos de crise ou reestruturação.

Essas vivências, mesmo que dolorosas, ofereceram a percepção de que a lealdade cega a uma empresa não garante segurança financeira ou estabilidade de longo prazo no trabalho. Assim os jovens passaram a pensar: se a empresa pode substituí-los rapidamente, eles entendem que também podem, e devem, buscar opções melhores quando for conveniente, sobretudo porque não faz parte da vida deles o sonho da aposentadoria uma vez que, nasceram excluídos desse benefício e terão que trabalhar enquanto tiverem forças.

Trabalhar apenas pelo salário já não basta para grande parte dessa fatia da população. Os jovens buscam organizações com propósitos claros de responsabilidade com a diversidade, a sustentabilidade ambiental e com o social. Ambientes corporativos com lideranças tóxicas, falta de transparência ou que promovam a cultura do burnout (esgotamento profissional) são rejeitados, se não podem sonhar, não usarão seu tempo num trabalho que adoece e diminui o tempo de vida com qualidade.

Criados na era da instantaneidade digital, onde tudo está a um clique de distância e hábeis na realização de múltiplas tarefas ao mesmo tempo, os jovens têm uma percepção de tempo diferente, por isso, planos de carreira tradicionais que prometem uma promoção em cinco ou dez anos estão ultrapassados. Esse modelo de recompensa a longo prazo atraiu os jovens dos anos 70/80 que sonhavam em comprar um carro ou a casa própria e compravam pagando com o salário mensal, mesmo que por muitos anos.

Hoje o jovem não se interessa por carro, usa o transporte por aplicativo, não pensa em casa própria, aluga um imóvel e aquele que pensar na aquisição desses bens, é bom que pense porquanto tempo de sua vida vai permanecer com dívidas. Por isso, quando percebem que o aprendizado estagnou ou que as promessas de crescimento na empresa são vagas, eles preferem buscar a ascensão profissional mudando de emprego, uma estratégia que muitas vezes acelera o aumento salarial de forma mais eficaz.

O mercado de trabalho se descentralizou alterando a percepção do jovem de hoje sobre o trabalho com a carteira assinada, como já falei, é proibido sonhar com a aposentadoria. Então, a internet, este grande portal para o empreendedorismo digital, a economia dos criadores de conteúdo, o trabalho como freelancer ou “PJ” Pessoa Jurídica e a atuação para empresas estrangeiras sem sair de casa proporcionou aos jovens acesso a estes múltiplos ecossistemas de geração de renda, diminuindo o medo de ficar desempregado e desmistificando a ideia de que a única forma de sobrevivência econômica é a carteira assinada.

Diferente de épocas passadas, onde tolerar abusos psicológicos e assédio moral no ambiente de trabalho era visto como “resiliência”, a saúde mental hoje é tratada pelos jovens como um ativo inegociável. A linha que divide a vida pessoal da profissional tornou-se mais rígida. Se o emprego começa a cobrar um preço alto demais na saúde psíquica, o jovem prefere renunciar à vaga do que comprometer seu bem-estar.

Amigo(a) leitor quando você pensar em ser autor de críticas aos jovens, lembre-se dos sonhos e perspectivas que você tinha quando adolescente, que eles hoje não têm, assim talvez você entenda a arte de ser feliz e ver o mundo através de um smartphone que hoje, custa menos que um fusca.

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