Embora o Rio Grande do Sul esteja entre os estados com maior nível de segurança alimentar do país, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua 2024, mas a realidade local é diferente. Em Pelotas, 43,8% da população vive em algum nível de insegurança alimentar, de acordo o Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável, divulgado em 2025. Diante desse cenário, cozinhas solidárias, hortas urbanas e iniciativas comunitárias têm se tornado fundamentais para garantir comida a quem precisa.
“A insegurança alimentar é um reflexo de condições estruturais da sociedade”
A nutricionista Taila Xavier explica que a insegurança alimentar não se resume à falta de comida, mas à incerteza sobre o acesso regular a alimentos adequados. “É uma condição marcada pela instabilidade. Não saber se haverá alimento suficiente amanhã ou se o que está disponível é nutricionalmente adequado”, diz. A insegurança alimentar pode ser dividida em níveis. Na leve há preocupação com o acesso à comida, na moderada há redução na qualidade e quantidade dos alimentos, e na grave, a fome já está presente.
Os impactos atingem diferentes faixas etárias. Em crianças, pode comprometer o desenvolvimento e a aprendizagem; em idosos, aumenta o risco de doenças e hospitalizações. “Ela também está associada ao aumento de doenças crônicas, como obesidade, hipertensão e diabetes – especialmente quando a alimentação disponível é baseada em produtos ultra processados”, destaca.
Em Pelotas, ainda não há um diagnóstico fechado sobre o problema. Segundo a coordenadora do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Comsea), Cristine Ribeiro, cerca de 53 mil famílias estão cadastradas no CadÚnico, um indicativo de vulnerabilidade. Ela expõe que a insegurança alimentar impacta todas as áreas dos modos de existência.
“Precisamos ter uma alimentação com qualidade nutricional suficiente e essa qualidade ainda é concentrada, o que escancara os processos de desigualdade social, ambiental, onde o racismo estrutural é a base dessa realidade, a gente ainda vive uma sociedade ainda muito colonizadora que fortalece esses processos. O alimento se tornou um ativo financeiro e mexer com essa realidade é pensar sobre um outro viés. Enquanto essa realidade não for questionada ao ponto de mexer na sua própria estrutura nós vamos ter o nível de insegurança alimentar cada vez maior”, reflete.

“A gente assiste cotidianamente o direito de existir negado e começa pela alimentação. As pessoas que não se alimentam, elas não existem, elas não conseguem continuar existindo. E aí são todas as que vivem nos territórios considerados periféricos; as populações que vivem em situação vulnerabilidade, empobrecimento ou de rua; que vivem do trabalho informal e ambulantes; elas vão sofrer a negação de todos esses direitos que estão relacionados à questão da segurança alimentar”, discute a coordenadora do Comsea.
Em fevereiro, sete dessas cozinhas receberam quatro toneladas de alimentos da agricultura familiar, distribuídos pelo governo do Estado. Para a secretária de Assistência Social, Roberta Melo, a ação fortalece iniciativas que atuam diretamente no combate à fome.

Cozinhar para resistir
No Kilombo* Urbano Canto de Conexão, a alimentação é o centro de uma rede mais ampla de apoio comunitário. A Cozinha Solidária Diária das Mais Velhas do Kilombo surgiu ainda no início da ocupação do prédio – abandonado há décadas -, em 2017, quando moradores passaram a cozinhar coletivamente. Com o tempo, a demanda cresceu e a iniciativa se transformou em uma ação permanente. Mesmo assim, a comunidade enfrenta ordens de despejo frequentemente.
Hoje, são cerca de 200 refeições servidas diariamente e até 500 aos domingos, quando a comida também é levada para comunidades em situação de extrema vulnerabilidade. A estrutura funciona com nove equipes rotativas e forte participação de mulheres negras – como Claudete Lessa e Sonia Madruga, que trazem saberes tradicionais para o preparo dos alimentos. Não é preciso se cadastrar, somente levar seu prato ou pote de comida. Quem chega come e pode repetir. “Nossa principal motivação é a fome dos invisíveis, aquelas pessoas que, quando a gente passa, viramos o rosto. Aquelas que, quando batem no carro para pedir uma moeda, a gente ignora. Essas pessoas merecem ter a dignidade de ter uma refeição saudável por dia”, afirma Giovane Lessa, ativista e morador do Kilombo.

Apesar do impacto, os desafios são constantes. “A demanda é absurda, todo dia a cozinha não para. Temos uma rede de solidariedade para além dos programas governamentais. Se não fosse a solidariedade, eu acho que o projeto já teria acabado. Ele é muito maior do que a gente pretendia fazer, nós somos referência para o governo federal, nós estamos no mapa de combate à fome” conta Glauco Manjourany, assessor jurídico do Kilombo e responsável legal pela cozinha. Custos básicos, como gás e insumos, dependem majoritariamente da solidariedade da comunidade.

Além da Cozinha Solidária, o Kilombo é reconhecimento como ponto de cultura na política Cultura Viva e possui uma biblioteca com empréstimo de livros gratuitos, sala de música, além de promover festividades ao longo do ano. Doações de alimentos, roupas, livros, podem ser feitas pessoalmente na sede da ocupação na rua Benjamin Constant, 1327 ou na chave pix (53) 981128918.
Fome tem nome, sobrenome e rosto
Entre as centenas de pessoas que o Kilombo ajuda diariamente está Elizete Bittencourt, moradora do loteamento Ceval em Pelotas. “No Kilombo todo mundo é acolhido, a comida é muito gostosa. No início eu não vinha sempre, agora estou vindo todos os dias. Aqui temos comida de segunda a segunda, não para. Não é que eu precise, eu tenho casa, mas eu venho também porque eu gosto. Eu posso ter o arroz e feijão em casa, mas eu venho aqui no Kilombo porque é gostoso de verdade. O pessoal é muito simpático, a gente escuta eles e eles também nos escutam. Eles sabem conversar, como tratar as pessoas. Como o Giovane fala, às vezes a gente não precisa só da comida, também precisamos de um alimento espiritual. É umas coisas que não tem como explicar. Isso aqui é sensacional”, narra.
Alex Silveira já mora em Pelotas há mais de 30 anos e atualmente, está em situação de rua. Natural do Chuí, ela já passou pelo Uruguai, Argentina, Fortaleza, Paraná e muito mais. Antes de conhecer o projeto, Silveira comia alimentos descartados, mas há dois anos consegue garantir sua sobrevivência. “Eu ainda estou magro, mas com o almoço daqui eu já consegui engordar dois quilos. O alimento aqui é fantástico. Então por isso que nesses anos eu venho seguido no Kilombo. Se não fosse aqui…Ah, nem sei. Talvez até vivo estaria, mas mal”, expõe.

Da horta para o prato
Uma das iniciativas que ajudam a abastecer projetos sociais é o Projeto Do Canteiro ao Prato. A proposta combina educação, formação de jovens e distribuição gratuita de alimento. A horta urbana produz cerca de 150 quilos de hortaliças e legumes sem uso de agrotóxicos por semana. Esses produtos são destinados a diferentes iniciativas da cidade, como o Kilombo, o Instituto Hélio D’Angola e o Satolep Invisível. Além de garantir alimentos frescos, o projeto atua na formação de jovens em situação de vulnerabilidade, oferecendo cursos e promovendo o contato com a terra como ferramenta de transformação social.

“Hoje em dia, nem todo mundo pega a inchada, mas todo mundo se alimenta, e além do alimento e da revitalização do espaço, a gente trabalha com o compartilhamento dos saberes com o curso de agricultura e meio ambiente, trata não só de dar o peixe ou ensinar a pescar, mas dar o peixe e ensinar a pescar. O Porto – onde a horta fica localizada – é uma área de importante desenvolvimento histórico da cidade. O lugar foi um espaço subutilizado há muito tempo, e transformamos além de um lugar para produção de alimentos e ensino, um lugar de lazer que contará com espaço recreativo”, comenta o diretor de projetos da Otroporto, João Eduardo Keiber.

Alimentar com dignidade
Criado em 2025, o Satolep Invisível começou com a distribuição de agasalhos para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social, mas rapidamente percebeu que a fome era a necessidade mais urgente. A partir disso, passou a produzir e distribuir jantas às sextas-feiras, principalmente na região central da cidade. Os alimentos utilizados incluem produtos orgânicos vindos da parceria com o projeto de horta urbana, como couve, alface, beterraba e batata-doce. Para os organizadores, a preocupação vai além de matar a fome.

As ações ocorrem semanalmente, com preparo e distribuição organizados por voluntários. De junho de 2025 à abril de 2026, já foram servidas mais de 3,2 mil refeições, atendendo mais de 800 pessoas. No entanto, a falta de pessoas para atuar na logística e a dependência de doações ainda são entraves para ampliar o alcance do projeto. Outro ponto observado pela iniciativa é a mudança no perfil do público atendido. Se antes a maioria era composta por homens em situação de rua, hoje há aumento no número de mulheres e famílias, o que indica uma ampliação da vulnerabilidade social.
“Oferecer alimentos frescos e saudáveis é fundamental, pois não se trata apenas de matar a fome, mas de promover dignidade e nutrição adequada. Muitas das pessoas atendidas não têm acesso a esse tipo de alimento no dia a dia, então garantir qualidade também é uma forma de cuidado e respeito”, conta Priscila Knuth, idealizadora do projeto. Para colaborar com as ações entre em contato pelo Instagram @satolepinvisível ou doe para a chave pix satolepinvisí[email protected].

*Kilombo escrito com ‘K’ é preferida por movimentos sociais para reforçar a raiz africana, desvinculando o termo da visão pejorativa colonial.




