Arroio do Padre desenvolve projeto para manejo e conservação do solo e da água

Projeto pioneiro no RS capacita produtores rurais e incentiva práticas sustentáveis. (Foto: Divulgação)

O dia 15 de abril foi definido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária como o Dia Nacional da Conservação do Solo, instituído pela Lei 7.876/1989, em homenagem ao pesquisador norte-americano Hugh Hammond Bennett, que teve papel importante no combate à erosão. Mais do que uma data, a efeméride convida à reflexão sobre a relevância desse recurso natural. O solo é fundamental para a produção de alimentos, a filtragem da água, a regulação do clima e a manutenção da biodiversidade nos agroecossistemas.

A Emater trabalha o tema há décadas. Trata-se de eixo central das ações da instituição, já que o solo é a base produtiva da agricultura. Ao longo do tempo, diversas experiências apresentaram resultados positivos, especialmente em regiões que avançaram em práticas conservacionistas, como o plantio direto, o uso de plantas de cobertura, sistemas agroflorestais e a produção orgânica voltada à melhoria da atividade biológica do solo.

Tradição da terra

Com praticamente 100% das propriedades de base familiar, Arroio do Padre tem produção diversificada. Em 2023, a partir de demanda da Câmara de Vereadores, foi proposta a capacitação de agricultores em manejo e conservação do solo. A iniciativa contou com recursos de emenda parlamentar municipal repassados à Emater — um modelo inédito no Rio Grande do Sul.

O trabalho é desenvolvido pelo escritório municipal da Emater/RS-
Ascar, que definiu o tema como prioridade. O chefe do escritório, o engenheiro agrônomo Ricardo Afonso, afirma que a produção local inclui grãos como soja, milho e feijão, além de hortaliças, frutas, leite e tabaco — principal atividade econômica do município. “Todas essas atividades dependem da qualidade do solo”, diz.

Segundo Afonso, eventos climáticos extremos têm levado à decretação recorrente de situação de emergência no município, seja por estiagem, excesso de chuva, granizo ou ventos. “Para minimizar esses impactos, o foco passou a ser o manejo e a conservação do solo, fundamentais para a agricultura familiar”, afirma.

O projeto começou com o repasse de R$ 32.222,00 para capacitação de agricultores. No primeiro ano, foram realizadas etapas administrativas e de planejamento. Depois, foi estruturado um cronograma com nove módulos, combinando atividades teóricas e práticas, com participação de pesquisadores da Embrapa, professores da Universidade Federal de Pelotas e técnicos da Emater e da iniciativa privada.

Entre os temas abordados estão erosão, práticas conservacionistas, propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, bioinsumos e mecanização agrícola.

Procura por melhora

Um dos destaques foi a excursão ao município de Angelina (SC), referência no Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), desenvolvido com apoio da Epagri. “O sistema está consolidado há mais de 15 anos e demonstra ganhos na qualidade do solo, aumento da matéria orgânica e melhoria da fertilidade”, diz Afonso.

A viagem incluiu visitas a propriedades e acompanhamento técnico, contribuindo para a formação dos participantes. “É uma referência nacional, que atrai inclusive visitantes estrangeiros”, afirma.

A experiência também resultou na realização de um Seminário Regional de Horticultura, com foco no SPDH. O evento reuniu especialistas, incluindo pesquisadores da Embrapa e profissionais com experiência em manejo de solo e compostagem. Também participaram técnicos com atuação prática no sistema.

O seminário ampliou o alcance da iniciativa, já que a excursão teve participação limitada. A expectativa é realizar nova edição, com abordagem de outros aspectos do sistema.

Segundo Afonso, o plantio direto já é adotado em diversas culturas no Estado. Em Arroio do Padre, produtores vêm incorporando práticas como cobertura do solo e cultivo mínimo, inclusive na produção de tabaco, com incentivo das empresas do setor.

O trabalho da Emater também se articula ao programa estadual Terra Forte, voltado à mitigação dos impactos climáticos. No município, 22 agricultores são beneficiados, com investimentos de R$ 30 mil por produtor.

O objetivo é melhorar a qualidade do solo por meio de uma política pública com componentes sociais e ambientais. “Os agricultores definem as áreas e a aplicação dos recursos”, afirma Afonso.