
Chegar aos 72 anos, saudável, ao lado da esposa Irlei, de 67, igualmente saudável, dois filhos criados e formados, duas netas e uma propriedade próspera e cheia de vida, para alguns pode parecer uma realidade incompatível para quem se dedicou a vida inteira à produção de fumo. Mas esta é a realidade do fumicultor Ilgo Beiersdorf, que se aposentou da atividade no ano passado, arrendou as suas terras e passou a atuar na secagem do tabaco para produtores parceiros.
A fumicultura, que não é vista com bons olhos por muitos, é responsável pela movimentação anual de R$ 14 bilhões em resultados, com a geração de milhares de empregos e serviços, além da arrecadação de impostos. Além disso, transforma a realidade de centenas de famílias, como os Beiersdorf, de Arroio do Padre, município que tem a sua economia baseada na cultura do tabaco.
Apesar de não cultivar mais o fumo, Ilgo Beiersdorf, continua apostando na cultura como fator de desenvolvimento para a pequena propriedade e colocou os seus conhecimentos e a tecnologia de sua propriedade, adquiridos ao longo de mais de 60 anos dedicados ao cultivo, a serviço de outros produtores, que assim como Beiersdorf, enxergam no tabaco a possibilidade de prosperar e oferecer conforto às suas famílias. “O fumo não mata a fome e nem a sede, mas se não temos a produção de fumo, as famílias morrem de fome”, diz o produtor.
Na propriedade de 18 hectares, cercada por plantações de fumo, convivem harmoniosamente, lavouras de outras culturas, como o milho, a cebola, feijão, batata-doce, hortigranjeiros como abóbora, melão, tomate e outras verduras. Tudo isso emoldurado por um lindo e caprichado jardim, com as mais diversas flores, além de um pomar, com frutas como laranja, caqui e outras. Cheio de disposição, o casal tem plena convicção de que ainda têm muito a colaborar com o desenvolvimento das pequenas propriedades rurais. Casados há 46 anos, trabalham lado a lado na pequena propriedade e desfazem o mito de que onde está presente a cultura do fumo, não há espaço para outras atividades.
“Do mercado só compramos o arroz e o sal”, afirma o produtor, ao mostrar a criação de gado, porco e galinhas, para corte e produção de ovos. O que não é consumido na propriedade, é distribuído entre familiares ou vendido para vizinhos e amigos. “Com os avanços na cultura, como a mecanização e secagem automatizada, ninguém sofre mais cultivando fumo, nos dias de hoje”, afirma o produtor.
A renda obtida com a cultura também proporcionou investimentos na propriedade, como a reforma e ampliação da residência da família, instalação de energia solar e a construção de silo com aeração para a armazenagem do milho, com capacidade para 40 mil quilos do grão. São conquistas que valorizam ainda mais as terras herdadas do pai, Albino Beiersdorf, já falecido e o responsável por introduzir a fumicultura na propriedade. Ilgo lembra que o primeiro pedido do produto foi emitido em 31 de maio de 1963, quando tinha apenas nove anos, para a empresa Souza Cruz, atual BAT, e nunca mais parou. “Nós trabalhamos com fumo porque o pai nos ensinou e hoje isso não pode mais antes da maioridade”, diz.
Dos quatro filhos de Albino, Ilgo é o mais novo e o único que perpetuou o trabalho do pai com a cultura. Outra atividade ensinada pelo pai foi a da cebola, que sobrevive ainda na pequena propriedade. Também se manteve fiel à fumageira escolhida pelo pai, o que já lhe rendeu inúmeras homenagens e distinções ao longo dos anos. A história da família foi lembrada e registrada pela fumageira, com certificações e publicações, em especial nos 50 anos, completados em 2013. “Só o ouro está valendo mais que o fumo e só não faz dinheiro quem não quer”, finaliza o produtor.
Conhecimento e estrutura terceirizados
O produtor Lisandro Tuchtenhagem Silveira, de 50 anos e que há quase 40 trabalha com fumo, é um dos parceiros que utiliza a estrutura de secagem e armazenagem da família Beiersdorf para a finalização do tabaco. Ele conta que trabalhou pelo menos 11 anos com a família, aprendeu muito e recentemente resolveu investir no seu próprio negócio. Nas lavouras, localizadas na região dos Três Cerros, foram cultivadas 130 mil plantas, o equivalente a sete hectares da cultura, conta.

A expectativa é de colher 22 mil quilos o que deve garantir uma renda em torno de R$ 400 mil, se o preço se mantiver no atual patamar de R$ 20,00 o quilo do tabaco, diz. “Não existe outra cultura que dê este retorno. É só cuidar bem direitinho”, afirma. A família, de quatro pessoas, o produtor, esposa e dois filhos, de 17 e 20 anos, conduzem os trabalhos na propriedade. Além do fumo, também dedicam espaço para criações e o cultivo de feijão, batata, milho para alimentar os animais e para uso da família e reduzir os gastos com alimentação.
A estrutura disponibilizada pela família Beiersdorf para a secagem e armazenagem do tabaco também é destacada pelo produtor como uma forma de reduzir os custos na propriedade.
Presidente do Sindicato defende a continuidade da atividade
Um grande parceiro dos produtores de fumo é o Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Pelotas, que tem como presidente Nilson Loeck. “Se não houvesse a cultura do fumo nas pequenas propriedades o que seria de muitos municípios e o Arroio do Padre é um deles”, questiona.

Loeck cita o produtor Ilgo Beiersdof e sua esposa como exemplos de que é possível produzir fumo mesmo por longos períodos e manter a saúde em dia. “Com a tecnologia atual, não se usa mais o defensivo que era usado há 50 anos atrás”, ressalta. Também critica o impedimento legal dos filhos destes agricultores, mesmo com toda a saúde e robustez, de trabalharem ao lado dos pais na lavoura antes da maioridade. “Este jovem vai aprender quando e se o produtor busca um empregado não existe mão de obra disponível”, ressalta.
Segundo ele, a região possui muitas micro e pequenas propriedades de agricultura familiar, mas não há uma cultura alternativa ao fumo que ofereça a mesma sustentabilidade, em dois a três hectares, por exemplo. “Planta cebola ou milho, não consegue cuidar e nem vender ou se vende é por preços muito baixos”, diz. Ainda de acordo, são necessários muitos hectares destas culturas para que o produtor obtenha rendimento semelhante ao que é obtido no fumo.
Mesmo plantando fumo, o produtor não deixa de plantar estas outras culturas para a subsistência da família, afirma. “Esta propriedade é também exemplo de que é possível ter de tudo, desde o leite, ovo, carne, linguiça, feijão, batata, cebola”, ressalta. Ele também destaca a união dos produtores a partir das comunidades religiosas e suas festas, onde cultivam as tradições e valores familiares. “O fumo não é de comer, mas quantas famílias do nosso Estado comem a partir da renda do fumo, que gera empregos diretos e indiretos?”, indaga. Segundo ele, o consumo do fumo não vai se extinguir combatendo o produtor brasileiro, porque caso não seja produzido aqui, o fumo virá de fora, finaliza.



