Colheita do Arroz inicia com anúncio da Conab de mais de R$ 73 milhões para produtores

Com mais de 24,5 mil visitantes, anúncio realizado no último dia da 36ª Abertura da Colheita do Arroz e Grãos pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê investimento nos programas de Prêmio para Escoamento de Produto (PEP). (Foto: Paulo Rossi/Divulgação)

A 36ª Abertura da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas foi oficialmente iniciada em Capão do Leão, em meio a expectativas de redução da safra, retração de área plantada e esforços para ampliar exportações e diversificar o consumo. Durante o evento que marcou o início da colheita, autoridades e representantes do setor anunciaram medidas para o escoamento da produção e apresentaram novas cultivares desenvolvidas para nichos específicos de mercado.

Antes da cerimônia, o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Edegar Pretto, reuniu-se com Denis Nunes, presidente da entidade realizadora do evento, a Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz), para anunciar mecanismos de comercialização para a atual safra. Segundo ele, o governo federal, por meio da Conab, disponibilizará R$ 73,6 milhões para os programas de Prêmio para Escoamento de Produto (PEP) e Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (Pepro), com o objetivo de viabilizar o escoamento de 300 mil toneladas de arroz pela indústria e pelos produtores.

“Toda cooperativa ou agricultor que comprovar que vai escoar para outras regiões, o governo irá pagar a diferença entre o preço de mercado e o preço mínimo”, diz Pretto.
O presidente da Federarroz afirmou que a medida atende a uma solicitação da Federação para dar mais celeridade ao escoamento dos estoques. “A intenção é diminuir a pressão do mercado para obter uma retomada dos preços, proporcionar um escoamento mais célere e oferecer um suporte financeiro aos produtores”, explica.

Nunes avaliou que o público surpreendeu a organização, com mais de 24,5 mil participantes, mesmo com a forte chuva registrada na terça-feira (24), primeiro dia do evento. “Tivemos uma grande participação de visitantes em uma feira que cresceu em torno de 20% nos estandes, e com certeza os produtores irão sair daqui com muita informação para que consigam ser mais competitivos e enfrentar esse ano difícil no mercado”, ressalta.

Segundo ele, há expectativa de redução da safra e melhora nas exportações, com tradings comprando arroz em casca e abrindo perspectivas de melhores preços. Além disso, há esforços para obter alongamento de crédito. “Com certeza sairemos do evento energizados para enfrentar este próximo ano”, afirma.

Ao lado de Denis Nunes, do Irga, o presidente da Conab Edegar Pretto anunciou mecanismos de comercialização para a atual safra com o objetivo de viabilizar o escoamento de 300 mil toneladas de arroz pela indústria e pelos produtores. (Foto: Luciara Schneid/JTR)

A expectativa para 2026 é exportar cerca de dois milhões de toneladas, tanto de arroz em casca quanto beneficiado e quebrado, o que pode trazer alívio ao mercado, uma vez que o estoque de passagem é estimado em mais do que o número previsto. A Federação espera ainda uma redução superior a 15% na produção brasileira nesta safra. Em 2024/2025, o Rio Grande do Sul colheu 8,7 milhões de toneladas do cereal.

Irga
“Competência o produtor já provou que tem e não podemos ser penalizados pela eficiência”, destaca o presidente do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Alexandre Velho. Segundo ele, além de manter programas de altas produtividades, como o RS 14 — que busca reduzir custos de produção e manter a rotação de culturas — e o InvestRS, voltado à atração de investimentos, o Instituto pretende buscar parcerias com a Apex para abertura de mercados. “Temos que buscar um equilíbrio na oferta em relação à demanda e alternativas para o arroz, como o etanol combustível”, ressalta.

O Instituto lançou no ano passado um programa nacional de incentivo ao consumo, com foco nos grandes centros urbanos. “Essa campanha nacional será intensificada este ano e tem o objetivo de atingir uma população maior”, complementa.

O Irga confirmou retração de 8,06% na área semeada em relação ao ciclo anterior. Na safra 2024/2025, o Estado registrou 970.194 hectares cultivados. Para 2025/2026, o plantio foi de 891.908,5 hectares. “Isto é reflexo direto da crise do setor, preço muito baixo, dificuldade de crédito e seguro, enfim o setor passa por um momento muito complicado, o que certamente refletiu no tamanho da área”, salienta.

A diretora técnica do Instituto, Flávia Tomita, afirmou que a colheita está em andamento e que, na última semana, a estimativa era de cerca de 8% da área colhida. “Ano passado tivemos um recorde de produtividade e este ano deve baixar um pouco”, diz.

Segundo o Irga, as seis regiões arrozeiras do Estado, distribuídas em 135 municípios, registraram queda na área plantada, com variações entre 4% e 11%. A produtividade estimada para este ano deve ser inferior aos nove mil quilos por hectare obtidos na safra passada.

Embrapa
Diante de uma oferta superior à demanda e da redução no consumo de arroz branco, longo e fino — em razão de mudanças nos hábitos alimentares e do aumento da renda, que levou o consumidor a optar por outros alimentos — a Embrapa trabalha na diversificação da produção e da oferta, com incentivo ao consumo de tipos especiais.

Na quinta-feira (27), foi lançada a BRS AS707, primeira cultivar de arroz preto da Embrapa voltada à gastronomia, ampliando oportunidades em nichos diferenciados. A variedade, desenvolvida pela Embrapa Arroz e Feijão, possui grãos de coloração preta intensa e compostos bioativos com potencial antioxidante e anti-inflamatório, além de propriedades associadas à proteção contra doenças crônicas.

Com maior teor de fibras e minerais, a cultivar agrega valor nutricional e reforça o apelo funcional do produto, alinhando-se à crescente demanda por alimentos voltados ao bem-estar e à saúde. De ciclo médio e potencial produtivo competitivo, combina desempenho agronômico estável com características que favorecem o uso gastronômico. A nova cultivar deve estar disponível aos produtores na safra 2026/2027.

Arrozes preto e vermelho apresentam maior teor de fibras, minerais e compostos bioativos, como antocianinas, associados à saúde e ao bem-estar. Já materiais indicados à culinária japonesa possuem características específicas de textura e teor de amido, atendendo a um mercado disposto a pagar mais por qualidade e padronização.

Outras cultivares também foram destaque, como a BRS AG, arroz irrigado desenvolvido para produção de álcool de cereais (bioetanol) e alimentação animal, com grãos grandes e elevado teor de amido, capaz de gerar cerca de 430 litros de etanol por tonelada.

A BRS 358 é indicada para culinária japonesa, com grãos médios a curtos, arredondados e baixo teor de amilose, resultando em textura macia e aderente após o cozimento. Já a BRS 902, de pericarpo vermelho, possui propriedades funcionais, produtividade superior a 7,5 toneladas no Sul do Brasil e elevado rendimento de grãos inteiros.

O tipo de arroz BRS AS707 foi lançado oficialmente pela Embrapa durante os três dias de evento. (Foto: Luciara Schneid/JTR)

O pesquisador Élbio Cardoso explicou diferenças entre variedades. “A BRS Pampeira e a BRS Pampa CL são cultivares do grupo longo fino, que é padrão de mercado, acima de 98%, não tem diferença entre elas visualmente”, pontua. No campo, segundo ele, a principal diferença está no ciclo. “A Pampeira possui ciclo médio e a Pampa CL, ciclo precoce, e outra diferença é que a primeira é cultivar convencional e a segunda é do grupo Clearfield, tolera um determinado herbicida específico e controla melhor as plantas daninhas”, observa.

Ainda de acordo, a Pampeira tem teto produtivo alto, superior a 12 mil quilos, e a BRS Pampa CL é mais raro chegar aos 12 mil quilos. Cultivares têm uma relação direta entre comprimento do ciclo e potencial produtivo; plantando as duas no mesmo dia, época, manejo e local, a de ciclo maior deve produzir mais.

Entre os grãos especiais, de coloração preta e vermelha, a principal diferença em relação às variedades invasoras é que estas debulham no campo e permanecem no solo por vários anos, contaminando a lavoura. “Essas variedades da Embrapa não debulham, chegam ao final do ciclo maduras sem debulhar, foi selecionada para isso”, afirma. Segundo ele, para manter as características visíveis do arroz preto e vermelho, o produto deve ser comercializado na forma integral, apenas descascado.