
A 36ª Abertura da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas foi oficialmente iniciada em Capão do Leão, em meio a expectativas de redução da safra, retração de área plantada e esforços para ampliar exportações e diversificar o consumo. Durante o evento que marcou o início da colheita, autoridades e representantes do setor anunciaram medidas para o escoamento da produção e apresentaram novas cultivares desenvolvidas para nichos específicos de mercado.
Antes da cerimônia, o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Edegar Pretto, reuniu-se com Denis Nunes, presidente da entidade realizadora do evento, a Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz), para anunciar mecanismos de comercialização para a atual safra. Segundo ele, o governo federal, por meio da Conab, disponibilizará R$ 73,6 milhões para os programas de Prêmio para Escoamento de Produto (PEP) e Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (Pepro), com o objetivo de viabilizar o escoamento de 300 mil toneladas de arroz pela indústria e pelos produtores.
“Toda cooperativa ou agricultor que comprovar que vai escoar para outras regiões, o governo irá pagar a diferença entre o preço de mercado e o preço mínimo”, diz Pretto.
O presidente da Federarroz afirmou que a medida atende a uma solicitação da Federação para dar mais celeridade ao escoamento dos estoques. “A intenção é diminuir a pressão do mercado para obter uma retomada dos preços, proporcionar um escoamento mais célere e oferecer um suporte financeiro aos produtores”, explica.
Nunes avaliou que o público surpreendeu a organização, com mais de 24,5 mil participantes, mesmo com a forte chuva registrada na terça-feira (24), primeiro dia do evento. “Tivemos uma grande participação de visitantes em uma feira que cresceu em torno de 20% nos estandes, e com certeza os produtores irão sair daqui com muita informação para que consigam ser mais competitivos e enfrentar esse ano difícil no mercado”, ressalta.
Segundo ele, há expectativa de redução da safra e melhora nas exportações, com tradings comprando arroz em casca e abrindo perspectivas de melhores preços. Além disso, há esforços para obter alongamento de crédito. “Com certeza sairemos do evento energizados para enfrentar este próximo ano”, afirma.

A expectativa para 2026 é exportar cerca de dois milhões de toneladas, tanto de arroz em casca quanto beneficiado e quebrado, o que pode trazer alívio ao mercado, uma vez que o estoque de passagem é estimado em mais do que o número previsto. A Federação espera ainda uma redução superior a 15% na produção brasileira nesta safra. Em 2024/2025, o Rio Grande do Sul colheu 8,7 milhões de toneladas do cereal.
Irga
“Competência o produtor já provou que tem e não podemos ser penalizados pela eficiência”, destaca o presidente do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Alexandre Velho. Segundo ele, além de manter programas de altas produtividades, como o RS 14 — que busca reduzir custos de produção e manter a rotação de culturas — e o InvestRS, voltado à atração de investimentos, o Instituto pretende buscar parcerias com a Apex para abertura de mercados. “Temos que buscar um equilíbrio na oferta em relação à demanda e alternativas para o arroz, como o etanol combustível”, ressalta.
O Instituto lançou no ano passado um programa nacional de incentivo ao consumo, com foco nos grandes centros urbanos. “Essa campanha nacional será intensificada este ano e tem o objetivo de atingir uma população maior”, complementa.
O Irga confirmou retração de 8,06% na área semeada em relação ao ciclo anterior. Na safra 2024/2025, o Estado registrou 970.194 hectares cultivados. Para 2025/2026, o plantio foi de 891.908,5 hectares. “Isto é reflexo direto da crise do setor, preço muito baixo, dificuldade de crédito e seguro, enfim o setor passa por um momento muito complicado, o que certamente refletiu no tamanho da área”, salienta.
A diretora técnica do Instituto, Flávia Tomita, afirmou que a colheita está em andamento e que, na última semana, a estimativa era de cerca de 8% da área colhida. “Ano passado tivemos um recorde de produtividade e este ano deve baixar um pouco”, diz.
Segundo o Irga, as seis regiões arrozeiras do Estado, distribuídas em 135 municípios, registraram queda na área plantada, com variações entre 4% e 11%. A produtividade estimada para este ano deve ser inferior aos nove mil quilos por hectare obtidos na safra passada.
Embrapa
Diante de uma oferta superior à demanda e da redução no consumo de arroz branco, longo e fino — em razão de mudanças nos hábitos alimentares e do aumento da renda, que levou o consumidor a optar por outros alimentos — a Embrapa trabalha na diversificação da produção e da oferta, com incentivo ao consumo de tipos especiais.
Na quinta-feira (27), foi lançada a BRS AS707, primeira cultivar de arroz preto da Embrapa voltada à gastronomia, ampliando oportunidades em nichos diferenciados. A variedade, desenvolvida pela Embrapa Arroz e Feijão, possui grãos de coloração preta intensa e compostos bioativos com potencial antioxidante e anti-inflamatório, além de propriedades associadas à proteção contra doenças crônicas.
Com maior teor de fibras e minerais, a cultivar agrega valor nutricional e reforça o apelo funcional do produto, alinhando-se à crescente demanda por alimentos voltados ao bem-estar e à saúde. De ciclo médio e potencial produtivo competitivo, combina desempenho agronômico estável com características que favorecem o uso gastronômico. A nova cultivar deve estar disponível aos produtores na safra 2026/2027.
Arrozes preto e vermelho apresentam maior teor de fibras, minerais e compostos bioativos, como antocianinas, associados à saúde e ao bem-estar. Já materiais indicados à culinária japonesa possuem características específicas de textura e teor de amido, atendendo a um mercado disposto a pagar mais por qualidade e padronização.
Outras cultivares também foram destaque, como a BRS AG, arroz irrigado desenvolvido para produção de álcool de cereais (bioetanol) e alimentação animal, com grãos grandes e elevado teor de amido, capaz de gerar cerca de 430 litros de etanol por tonelada.
A BRS 358 é indicada para culinária japonesa, com grãos médios a curtos, arredondados e baixo teor de amilose, resultando em textura macia e aderente após o cozimento. Já a BRS 902, de pericarpo vermelho, possui propriedades funcionais, produtividade superior a 7,5 toneladas no Sul do Brasil e elevado rendimento de grãos inteiros.

O pesquisador Élbio Cardoso explicou diferenças entre variedades. “A BRS Pampeira e a BRS Pampa CL são cultivares do grupo longo fino, que é padrão de mercado, acima de 98%, não tem diferença entre elas visualmente”, pontua. No campo, segundo ele, a principal diferença está no ciclo. “A Pampeira possui ciclo médio e a Pampa CL, ciclo precoce, e outra diferença é que a primeira é cultivar convencional e a segunda é do grupo Clearfield, tolera um determinado herbicida específico e controla melhor as plantas daninhas”, observa.
Ainda de acordo, a Pampeira tem teto produtivo alto, superior a 12 mil quilos, e a BRS Pampa CL é mais raro chegar aos 12 mil quilos. Cultivares têm uma relação direta entre comprimento do ciclo e potencial produtivo; plantando as duas no mesmo dia, época, manejo e local, a de ciclo maior deve produzir mais.
Entre os grãos especiais, de coloração preta e vermelha, a principal diferença em relação às variedades invasoras é que estas debulham no campo e permanecem no solo por vários anos, contaminando a lavoura. “Essas variedades da Embrapa não debulham, chegam ao final do ciclo maduras sem debulhar, foi selecionada para isso”, afirma. Segundo ele, para manter as características visíveis do arroz preto e vermelho, o produto deve ser comercializado na forma integral, apenas descascado.



