Referência na Zona Sul, fauna silvestre encontra abrigo e tratamento no Nurfs

Durante 2025 foram atendidos cerca de dois mil animais. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Criado a partir de um projeto de extensão por iniciativa do Instituto de Biologia em associação com a Faculdade de Veterinária em 1998, o Núcleo de Reabilitação da Fauna Silvestre (Nurfs) e o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) foram criados para atender a uma demanda regional específica de atenção a Fauna Silvestre Brasileira. Eles recebem e tratam animais que são encontrados feridos ou órfãos pelos órgãos de fiscalização ambiental de aproximadamente 33 municípios. Só em 2025, foram atendidos quase dois mil.

Institucionalizado em 2016, hoje o trabalho do Nurfs e Cetas é dividido entre o Instituto de Biologia, a Faculdade de Veterinária e o Hospital Veterinário da universidade. O Núcleo funciona com 14 profissionais diretos e 30 indiretos, entre equipe docente, técnicos administrativos de educação, pós graduandos, residentes, estagiários e outros.

Mais de 295 animais em 2026
A maior parte dos animais chega por meio da Patrulha Ambiental da Brigada Militar, mas uma parcela também é entregue diretamente pela população. Entre a primavera e o verão – período de maior acasalamento nas espécies – é quando mais espécimes chegam ao instituto. “Quando chegam, passam por identificação, triagem e avaliação clínica feita pela equipe de medicina veterinária. A partir disso, definimos se será necessário internação, cirurgia, manejo específico ou se o animal poderá ser liberado rapidamente”, explica o biólogo Marco Antônio Coimbra.

Entre a primavera e o verão – período de maior acasalamento nas espécies – é quando mais espécimes chegam ao instituto. (Foto: Lylian Santos/JTR)

O médico veterinário, Paulo Mota conta que o processo pode envolver desde atendimento emergencial até meses de reabilitação, especialmente em casos de fraturas ou queimaduras. “Existem situações em que o animal precisa de um longo período de internação. Alguns chegam com traumas graves, precisam de cirurgia no Hospital Veterinário, exames complementares e acompanhamento fisioterápico. Só depois de recuperado fisicamente é que avaliamos a possibilidade de retorno à natureza”, esclarece.

O destino dos animais segue três caminhos possíveis: soltura autorizada, permanência em cativeiro ou óbito. “Sempre buscamos a reintegração ao meio ambiente. Para isso, solicitamos autorização da Secretaria de Meio Ambiente do Estado. Quando não é possível a soltura, o animal pode permanecer em cativeiro sob cuidados permanentes. Em casos extremos, pode ocorrer o óbito ou, quando tecnicamente indicado, a eutanásia, sempre com respaldo técnico e ético”, conta Coimbra.

O Nurfs abriga uma grande quantidade de aves. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Reabilitação além do físico
A recuperação não é apenas clínica. A avaliação comportamental é decisiva, principalmente em filhotes criados sob cuidados humanos. O animal precisa estar bem fisicamente e sem limitações, também é avaliado o comportamento. Um filhote criado em cativeiro pode não desenvolver as habilidades necessárias para sobreviver na natureza. Se ele perde o comportamento selvagem, fica manso, isso pode inviabilizar a soltura.

Além da reabilitação física, avaliação comportamental é decisiva para volta do animal para o habitat natural. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Por esse motivo, o núcleo não funciona como espaço de visitação pública permanente. “Nós não somos zoológico nem ecoparque. Somos um centro de reabilitação. Se condicionarmos o animal ao contato humano, estamos comprometendo o objetivo principal, que é devolvê-
lo à natureza”, explana o coordenador do Núcleo e biólogo Luiz Fernado Minello.

A estrutura física ainda é um desafio para o Nurfs. O núcleo opera em diferentes prédios adaptados dentro do campus. Ainda são necessários recursos para construir viveiros e prédios adequados. Para os organizadores, trabalhar em áreas separadas por até um quilômetro de distância, impacta na logística. Mesmo assim, o coordenador destaca que o principal diferencial está na equipe. “O nosso maior patrimônio é o grupo técnico. Mesmo com limitações estruturais, é a equipe que faz o núcleo funcionar. Temos profissionais altamente comprometidos com o bem-estar animal”, relata.

Todas as espécimes contém alimentação nutricional adequada e acompanhada. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Orientação à comunidade
O núcleo também reforça a importância da educação ambiental, que também é desenvolvida na Sala Verde da organização. A principal orientação é evitar manipulação inadequada. Ao encontrar um animal silvestre, o mais indicado é deixá-lo no local e acionar o órgão ambiental. A tentativa de ajudar pode causar estresse ao animal ou pode se colocar em risco com a possibilidade de zoonoses. A expansão urbana é apontada como uma das principais causas do aumento de ocorrências. “A cidade está inserida dentro de um ecossistema, mas as pessoas parecem esquecer disso. Querem estar próximas da natureza, mas não querem que a natureza esteja próxima delas. Com a expansão urbana e a perda de habitat, os encontros entre humanos e animais tendem a aumentar”, esclarece Mota.

Ainda são necessários recursos para construir viveiros e prédios adequados. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Entre os animais que passaram pelo núcleo estão espécies ameaçadas de extinção no Rio Grande do Sul, como gato-maracajá, gato-do-mato-grande, quati, bugio-
ruívo e papagaio-charão. “Mesmo diante de casos de maus-tratos e limitações estruturais, a grande motivação é oferecer um local de acolhimento e tratamento para animais que não teriam para onde ir. São poucos centros no Estado que fazem esse tipo de atendimento. Enquanto houver essa demanda, nós vamos continuar”, conclui Minello.

O Nurfs e Cetas funcionam no Campus Capão do Leão da UFPel, das 8h às 12h e das 14h às 17h de segunda a sexta-feira e nos finais de semana e feriados com plantonistas. Animais como calopsitas, hamster, coelho e porquinho-da-Índia são considerados exóticos, isto é, não pertencem à fauna brasileira e não são atendidos pelo Núcleo. Interessados em doar alimentos, medicamentos, vasilhas de alimentação, caixas de transporte ou outros objetos, podem entrar em contato com a instituição pelas redes sociais @nurfscetas ou pelo telefone (53) 3237-7227 e WhatsApp (53) 9 8125-0282.