“É um novo marco para esse artista negro pelotense”, diz Daniel Amaro sobre desfilar na Sapucaí

Dançarino desfila na madrugada de domingo (15) para segunda-feira (16), à 1h da manhã. (Foto: Volmer Perez)

Referência nacional em dança afro-brasileira, Daniel Amaro foi convidado pela Escola de Samba Portela para se apresentar no desfile de Carnaval de 2026 no Sambódromo Marquês de Sapucaí (RJ). A escola trará o enredo “O mistério do príncipe do Bará”, que homenageia o Príncipe Custódio e a negritude do Rio Grande do Sul. O bailarino, coreógrafo e diretor artístico desfila no 4º carro como destaque, na madrugada de domingo (15) para segunda-feira (16), às 1h.

Em 2025, a comitiva da Portela visitou cidades gaúchas para realizar uma pesquisa histórica sobre Custódio. Em Pelotas, o diretor artístico realizou uma apresentação exclusiva do espetáculo “A Dança dos Orixás” produzido pela Companhia de Dança Afro Daniel Amaro. “Até então, todos os lugares que eles andaram, eles viram uma cultura viva relacionada à religião, apenas da religião e quando chegaram em nós, eles viram a arte pura da dança negra com essa pincelada e com essa costura da dança afro-religiosa, que é a ressignificação que a gente faz com o espetáculo”, explica Amaro.

O convite chegou meses depois, em dezembro, e o bailarino ainda se emociona com a missão. “Na minha trajetória artística eu tive dois momentos muito importantes e esse é um deles porque eu vou dançar no maior palco a céu aberto do mundo, numa cidade que respira carnaval e cultura popular o ano todo. Acho que vai ser como um divisor de águas para a Companhia de Dança Daniel Amaro e o artista Daniel Amaro. É um novo marco para esse artista negro pelotense da Vila Castilho”, relata.

Amaro representará Bará, orixá ligado aos caminhos, às encruzilhadas e à comunicação. Além disso, a escola de samba trará em seu enredo, referência ao Negrinho do Pastoreio – lenda do folclore gaúcho. Para o coreógrafo, a Portela evidencia um importante recorte histórico. “Eu viajo muito para fora do estado, ninguém acredita que eu sou do Rio Grande do Sul, eles acham que não tem negro aqui. A Portela vem com essa provocação de colocar para o mundo que existe negro no RS. Eu acredito muito que tanto os carnavalescos como a direção da escola estão sendo muito justos com a nossa história, estão procurando contar detalhe por detalhe”, explica.

O contato com a escola de samba tem sido por reuniões online e telefone com construção coletiva de ideias, como no figurino – produzido no próprio barracão da Portela – que Amaro irá conhecer pessoalmente no dia do desfile. “Eles me deram liberdade na dança, na performance e na interpretação, essas coisas juntas podem somar um grande resultado. Acho que o meu papel vai ser muito importante nesse desfile e eu pretendo dar o máximo de mim para trazer esse título para a escola”, diz Amaro.

Para o produtor cultural, a participação vem como um troféu de reconhecimento, não só para ele, nem para a companhia, mas para as pessoas que acreditaram na CIA, seja imprensa local, os parceiros do projeto ou alunos. “O Carnaval, ele é hoje um marco de reparação histórica, de memória, de educação e demais. Eu acho que ultrapassa tudo isso, de arte e de muita coletividade. Eu não acredito numa escola sem comunidade, eu não acredito numa escola sem parcerias com grandes patrocinadores. Carnaval é, de certa forma, nesse momento do mundo, também uma resistência e um ato de luta contra os preconceitos. Isso para mim é o Carnaval hoje em dia”, afirma o artista.