Detalhes arquitetônicos podem transformar residências em ambientes agradáveis até no verão mais escaldante

Parte dos imóveis da cidade foram construídos na primeira metade do século X. (Foto: Manuela Santos/Secom)

Características geográficas como, por exemplo, a baixa altitude, a localização dentro de uma área de banhado e a proximidade com a Lagoa dos Patos geram, em Pelotas, uma espécie de efeito estufa, o que torna o verão particularmente abafado e, em alguns dias, quase insuportável. Soma-se a isso as características arquitetônicas de parte dos imóveis da cidade, em sua maioria construídos na primeira metade do século XX e tem-se um problema que afeta milhares de pessoas: como garantir conforto térmico dentro de casa sem recorrer ao ar-condicionado.

A arquiteta Simone Neutzling, especialista em restauro de imóveis históricos, comenta que os prédios mais antigos apresentam características próprias desenvolvidas para garantir que permanecessem frescos mesmos nos dias mais quentes, afinal de contas, não é de hoje que os moradores de Pelotas sofrem com o mormaço.

“Os materiais e sistemas construtivos utilizados, a existência de iluminação e de ventilação natural contribuem para manter estes imóveis frescos. Materiais como tijolos e telhas cerâmicas promovem conforto térmico, assim como a espessura das paredes, o pé-direito elevado e as grandes dimensões das portas e janelas”, afirmou.

Os porões ventilados pelas gateiras também são elementos que contribuem para as boas condições de conforto interno.

Em imóveis antigos nos quais não é possível instalar ar-condicionado, a arquiteta
indica a importância de se manter a ventilação natural. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Em imóveis antigos nos quais não é possível instalar ar-condicionado, a arquiteta indica a importância de se manter a ventilação natural, evitando obstrução de vãos e tentando promover a ventilação cruzada dos ambientes para diminuir a incidência direta do sol, principalmente sobre as esquadrias. “A substituição de janelas por vidros fixos prejudica a ventilação interna dos ambientes”, comentou.

Aprender com o passado para garantir conforto

Para o arquiteto e urbanista, Rodrigo Souto, a arquitetura é uma grande aliada para enfrentar as mudanças climáticas e reduzir a dependência do ar-condicionado nas construções contemporâneas. Algumas das ideias, inclusive, vêm do rico patrimônio histórico local.

Rodrigo Souto é arquiteto e urbanista. (Foto: Divulgação)

“Para quem está começando a sonhar com uma casa nova, o segredo é planejar como ela vai respirar. Pense nas paredes como a pele da casa: paredes mais grossas ou feitas com materiais que demoram a esquentar ajudam a manter o interior fresco durante o dia”, disse.

Outro ponto fundamental, segundo Souto, é garantir a circulação do ar. De acordo com ele, quando as janelas são bem-posicionadas, o vento consegue atravessar os cômodos e levar o calor embora. “Além disso, criar telhados com pequenos vãos que deixam o ar quente sair por cima ajuda muito, já que o ar quente sempre sobe. Um bom telhado com beirais largos também funciona como um chapéu, protegendo as janelas do sol forte do meio-dia, mas deixando o solzinho gostoso do inverno entrar para aquecer a sala”, sinalizou.

Para quem já está com a casa pronta, o arquiteto aponta soluções simples e baratas, capazes de melhorar muito o conforto térmico interno. Uma delas é pintar o telhado com tintas térmicas claras: “O branco reflete o sol e impede que a laje vire um forno.”

Outra dica é plantar árvores que perdem as folhas no inverno na frente das janelas que pegam muito sol. No verão, as folhas criam uma sombra fresca; no inverno, quando elas caem, o sol volta a entrar livremente. O uso de toldos ou persianas do lado de fora das janelas é mais eficaz do que usar cortinas por dentro, assim se barra o calor antes mesmo dele atravessar o vidro.

“Viver bem em Pelotas é aprender a jogar com o clima. Seja com uma construção planejada ou com pequenos ajustes no que já temos, o importante é transformar nossa casa em um lugar onde o bem-estar prevaleça, não importa se lá fora está um sol de rachar ou uma geada de madrugada. Com um olhar cuidadoso, a arquitetura devolve a paz de estar em casa, unindo a tradição da nossa terra com soluções que facilitam a vida moderna”, concluiu.