Dezembro chega sempre carregado de significados. É o último mês do calendário, mas raramente é apenas um fim. Para muitos, é tempo de balanço: olhar para trás, revisitar conquistas e fracassos, sentir o peso das ausências e a força das presenças. É também o mês em que a memória se torna mais viva, porque o Natal e o Ano Novo são datas que marcam não apenas o calendário, mas também a história pessoal de cada um.
Há quem sinta tristeza nos primeiros dias de dezembro. As lembranças dos Natais passados podem trazer saudade ou dor. Mas o tempo tem uma forma curiosa de ressignificar: conforme os dias avançam, o mesmo mês que começou pesado pode se transformar em celebração. É como se dezembro fosse um rio que começa turvo e, aos poucos, clareia.
Recentemente, sonhei que toda a população havia voltado para a década de 30, como se fosse necessário reaprender a viver. As máquinas não funcionavam, as ruas ainda estavam em formação, mas as pessoas construíam relacionamentos e buscavam sentido. O cenário era quase psicodélico, e a arquitetura de Pelotas surgia como pano de fundo. Ao despertar, percebi que o sonho era também uma metáfora para dezembro: um convite a revisitar origens, a reaprender o que parecia óbvio, a reconstruir vínculos e dar novo significado ao que já existe.
O Natal, especialmente, é um ritual coletivo que se reinventa a cada ano. Para alguns, é encontro familiar; para outros, é silêncio e introspecção. Mas em todos os casos, é um convite a pensar sobre reciprocidade. Quem escolhemos receber à mesa? Quem escolhe nos receber? Essas perguntas revelam muito sobre nossas relações e sobre o que valorizamos.
Dezembro também é um mês de intensidade emocional. Pacientes, amigos e colegas chegam mais fragilizados, porque o fim do ano expõe vulnerabilidades. É como se o calendário nos lembrasse que o tempo passa, e com ele vêm as cobranças internas: o que fizemos, o que deixamos de fazer, o que ainda queremos realizar. Por isso, é um período em que o cuidado precisa ser redobrado — tanto com os outros quanto consigo mesmo.
Mas há também a leveza. Dezembro é luz nas ruas, é música que se repete, é cheiro de comida que desperta memórias. É o mês em que até as cidades parecem se vestir de festa. E nesse contraste entre peso e leveza, cada um pode escolher como viver o período: se será apenas um encerramento ou se será também um recomeço.
Talvez o maior ensinamento de dezembro seja este: não há como apagar o passado, mas há sempre como dar novo significado a ele. Cada Natal carrega enfeites antigos e novos, cada Ano Novo abre espaço para promessas e esperanças. O que importa é perceber que, mesmo em meio às lembranças dolorosas, há sempre a possibilidade de florescer.
Dezembro é o mês em que a vida nos lembra que, mesmo entre ruínas, sempre há reconstrução.
Otávio Avendano
Psicoterapeuta
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