
Com a perspectiva de fortalecer a autonomia produtiva das famílias rurais e ampliar a viabilidade econômica da produção de grãos na agricultura familiar, foi concluída na semana na quinta-feira (27) mais uma edição do curso de Secagem e Armazenagem de Grãos, promovido pela Emater/RS-Ascar no Centro de Treinamento de Agricultores de Canguçu (Cetac). A capacitação, realizada ao longo de três dias, reforça a importância de que os agricultores passem a dominar técnicas que lhes permitam secar e armazenar a própria produção, garantindo qualidade por mais tempo e reduzindo custos significativos no processo.
O treinamento abordou temas como princípios e métodos de secagem, fatores e parâmetros da armazenagem, tipos de estruturas e manejo integrado de pragas, incluindo insetos, roedores e fungos. As atividades práticas, com secagem por ar natural e aquecimento, permitiram aos participantes vivenciar rotinas fundamentais para a boa conservação dos grãos.
A capacitação realizada anualmente no Cetac pode ser realizada tanto por produtores que já implantaram sistemas de secagem e armazenagem quanto por aqueles em processo de planejamento ou interessados em iniciar o investimento. O objetivo é capacitá-los para construção e manejo de estruturas eficientes e adequadas às propriedades, seja com recursos próprios ou por meio de financiamentos. Nesta edição, 14 agricultores de diferentes municípios da região participaram do curso.
Entre eles estiveram os produtores de São José do Norte, Ildo Mario e Flavio Machado. Mario avalia implantar o sistema em sua propriedade, enquanto Machado já utiliza a tecnologia da Emater/RS-Ascar há cerca de 15 anos, realizando secagem, armazenagem e até o beneficiamento do arroz produzido. Mesmo com experiência, ele busca aprimorar técnicas considerando as constantes atualizações disponíveis. Neste ano, o principal interesse foi no tema do monitoramento de conservação, com foco em garantir dados para melhor tomada de decisão quanto ao produto.
Para o extensionista rural da Emater/RS-Ascar em São José do Norte, Leonir Dutra Junior, que acompanhou os produtores assistidos durante a capacitação, o curso reforça a importância de manejar o grão na propriedade, aproveitar melhores oportunidades de mercado, proporcionar maior autonomia para a família, tendo grão produzido disponível para uso por mais tempo e podendo agregar valor ao produto. Segundo ele, a ampliação dessa tecnologia é estratégica para o município, já que o volume armazenado em silos secadores ainda é baixo. “Divulgar essa tecnologia adaptada para a agricultura familiar é de extrema importância para a melhoria financeira e da qualidade de vida das famílias”, destaca o extensionista.
Tecnologia que reduz custos e aumenta a autonomia
As perdas na produção de grãos, que chegam a cerca a 10% dos grãos armazenados, podem ser ainda maiores na agricultura familiar. Além de evitar essas perdas pelo armazenamento inadequado, manter os grãos na propriedade também permite ao produtor escolher o melhor momento para a venda, evitando a comercialização imediata após a colheita, quando a oferta elevada reduz os preços.
Colhidos com cerca de 25% de umidade, os grãos precisam atingir aproximados 13% para garantir boa conservação e depender de grandes secadores industriais, para realizar esse processo eleva os custos e pode até inviabilizar a produção para pequenos produtores. Diante desse cenário, a Emater/RS-Ascar desenvolveu, ao longo dos anos, tecnologias acessíveis que possibilitam a secagem e a armazenagem diretamente nas propriedades.
De acordo com engenheiro agrícola da Emater/RS-Ascar e instrutor da capacitação da secagem e armazenagem de grãos, Geverson Lessa, essas alternativas têm o potencial para transformar a realidade da produção de grãos na agricultura familiar. “Hoje nós temos sistemas alternativos de silos, secadores e armazenadores em que o produtor consegue construir o seu próprio silo com projeto e dimensões adequadas, manejar conforme as recomendações técnicas, e fazer o monitoramento da qualidade do grão para mantê-lo conservado ao longo de um ano ou mais. Mantendo o grão dentro da propriedade, o produtor consegue dispensar o custo do frete e ter esse grão disponível a longo prazo para ser comercializado conforme o preço estiver adequado”, destaca.
Ainda de acordo com o Lessa, durante décadas não existiam estruturas projetadas para a demanda do pequeno agricultor e a tecnologia da Emater/RS-Ascar, pensada e aprimorada ao longo dos últimos 50 anos, veio preencher essa lacuna, oferecendo soluções econômicas, eficientes e capazes de ampliar a produtividade e a autonomia das famílias rurais. Seguindo os mesmos princípios de secagem e armazenamento dos grandes silos industriais, os silos alternativos utilizam equipamentos e materiais mais baratos, como alvenaria armada, para que seja construído em proporções compatíveis com a escala familiar, garantindo autonomia e independência nas propriedades.



