Pelotas: Mateus Solano se reinventa no teatro com monólogo sobre a vida de um figurante

Ator global reflete sobre invisibilidade, solidão e o papel de cada um na própria vida em seu primeiro monólogo solo. (Foto: Divulgação)

Conhecido por papéis de sucesso na televisão, como Miguel de Viver a Vida (2009) e o irreverente vilão Félix de Amor à Vida (2013), Mateus Solano chega a Pelotas como um figurante. O ator traz, pela primeira vez, um monólogo de sucesso, dirigido por Miguel Thiré e com dramaturgia da dupla em parceria com a também atriz, Isabel Teixeira.

Após quase uma década do bem-sucedido espetáculo “Selfie” (2014-2016), o artista repete a combinação de ideias com Thiré. Em entrevista exclusiva para o JTR, Solano diz que a ideia de fazer o primeiro monólogo da carreira sobre essa persona, já passava por sua mente. “Foi durante o processo de construção do espetáculo entre mim, Isabel e Miguel que essa ideia foi tomando forma e se transformando na peça. Ela foi construída a partir de improvisações que, aos poucos, iam sendo encaixadas na rotina de Augusto, o figurante”, explica.

Esse processo de construção foi de extrema riqueza para ele. Solano conta que a “escrita em cena” de Isabel coloca um ator em contato com o seu próprio inconsciente e que, mesmo após a peça estar finalizada, o diálogo ainda continua fluindo em seus pensamentos.

Desafios
Como todo intérprete, Solano se doou para alcançar a carga dramática e cômica do personagem. Mesmo sem nunca ter atuado como figurante, o ator confirma ter grande admiração por quem assume tal papel. “Essa galera rala muito e ganha pouco para dar veracidade às cenas, afinal quem acreditaria [assistindo à uma obra] em uma rua onde ninguém passa?”, questiona.

Além disso, ainda há uma missão de manter uma peça completamente sozinho. O artista confessa que é um desafio que demorou quase 30 anos para aceitar, visto que, sozinho, precisa cativar a atenção de um teatro cheio em si.

Sobre Augusto, o protagonista do monólogo, Solano afirma sempre ter tido o desejo de usar da profissão de figurante para falar de uma sensação específica. “Todos nós já sentimos que figuramos em nossas próprias vidas, portanto, a solidão de Augusto é a nossa solidão, a invisibilidade dele é a que nos assalta no dia a dia. Sentir que ele poderia ser muito mais do que é na vida, também é algo que carregamos”, exemplifica.

“Somos todos figurantes”
Em um processo de imersão tão intenso como o de um monólogo, alguns questionamentos pessoais também surgem. Ao falar de si, o ator acredita que todos já se sentiram como figurantes da própria história, vivendo aquém das potencialidades, e apenas cumprindo uma função social. Contudo, seu caso foi mais específico à medida que foi ficando famoso “fui sentindo um apagamento de mim, sentindo que as pessoas queriam menos se relacionar comigo e mais se relacionar com a expectativa que tinham de mim, através dos personagens que eu fazia na televisão. Entendi que as pessoas não queriam falar com o Mateus, mas com o Félix, o Miguel, o Zé Bonitinho, etc. E isso foi muito estranho para mim no início”, relembra.

Com o passar da história, Augusto questiona o próprio lugar no mundo, algo que até o ator global já viveu. A peça – mesmo após um ano de exibição – ensina a Solano não somente a “tomar as rédeas” da sua vida, mas também a se permitir ser um mero figurante dela. A fala, que causa estranheza ao ser ouvida, mostra uma reflexão da mensagem que a dramaturgia procura passar. “Por que não ser figurante? Afinal, a humanidade está fazendo figuração no universo que é estupidamente maior do que ela. E creio que uma das grandes angústias da humanidade é querer ser mais importante do que é. Portanto, a peça chama a atenção para o nosso protagonismo, mas também nos convida a entender que somos todos figurantes, que a beleza de estar vivo é mais sutil do que essa necessidade desenfreada pelo protagonismo”, esclarece.

Por fim, o ator espera que o público pelotense se divirta e reflita com o Augusto, assim como outras plateias Brasil afora. Além de alegre por trazer o espetáculo à Princesa do Sul, Solano se diz ainda mais contente por levar para aqueles que gostam de seu trabalho na televisão, sua versão mais teatral. “Agora levo para o pessoal que gosta do meu trabalho na televisão e que, talvez, nunca foi ou nunca frequentou uma sala de teatro. Isso me deixa muito feliz e realizado enquanto artista. Fico feliz de ser reconhecido como ator na televisão e também muito feliz por ter o teatro”, garante.