Ao acaso, sem aviso prévio, acontece uma situação que nos remete ao já sentido. Parece um ver de novo o que foi vivido.
O pacote vem com destinatário e remetente como qualquer encomenda postada nos Correios. E a gente desembrulha automaticamente por curiosidade ou por ser presumivelmente obrigatório abrir a caixa.
Traço um paralelo com os acontecimentos que batem a nossa porta, que chegam e se anunciam com a cara e a coragem, pequenos pedaços, partículas de um contexto maior que remexem nas gavetas, vasculham os cantos sem pedir licença. Fragmentos de um todo, fatos estilhaçados de uma realidade velada, quebrada, fracionada. Espaços vazios se interpõem entre um despertado sentimento e outro.
Dessa desacomodação surge o medo, suor frio, desmoronamento. Alguma desagregação interior de extensão desconhecida nos joga outra vez na dor desde logo revivida.
E, de repente, ocorre o estalo e se constata que aquele instante é a repetição de outro, experimentado alhures. Será coincidência? Dizem, alguns, que coincidência não existe.
Que poder têm essas migalhas de tempo de nos endereçarem ao passado!
Que impressão assustadora a de nos vermos de novo, vivenciando fatos e fotos do que foi, supostamente, sepultado na memória do que não se quer lembrar mais. E chega o já visto (dèjá vu) a perambular pela vida da gente, novamente, sem pedir licença.
Em algum lugar da massa encefálica ficam gravados os sulcos dessas trajetórias, e basta um detalhe para que se acessem os arquivos guardados, aparentemente acomodados, no disco cerebral.
No que diz respeito à informática, é aconselhável desfragmentar o disco rígido para que o desempenho da máquina fique mais ágil, mais leve, mais eficiente. Os vácuos são preenchidos e se apagam as lacunas.
Mas como desfragmentar o disco flexível da mente humana? Como não associar as emoções esparsas e desagradáveis que nos dão a ideia de que já foram sentidas e vividas? De que maneira esvaziar as lembranças indesejáveis e jogá-las no esquecimento total?
Protestos à parte, sei que a vida é assim mesmo. Ela é feita de momentos, de épocas de bonança e de tormentas.
E graças dou ao que vivo, porque sou frágil e vulnerável; forte e maleável. Estremeço, vacilo, caio e levanto. Sucumbo às lágrimas e na companhia delas mergulho até que o sorriso volte e aflore aos lábios.
Permito que as fortalezas desmoronem, de vez em quando, porque não há nada como um dia após o outro e a vida é um círculo e um circo. Ora estamos no palco, ora sentamos na plateia.
O espetáculo continua e, entre risos e soluços, os fragmentos se entrelaçam, abalam as estruturas e dão sentido ao momento na misteriosa engrenagem de um “dèjá vu”. Será coincidência?




