Amar sem se apagar: a ética dos vínculos complexos

Otávio Avendano, psicoterapeuta. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

É possível amar alguém profundamente e ainda assim dizer: “Eu não posso te acompanhar nesse ciclo de dor.” Esta frase, que pode soar dura à primeira vista, carrega em si a essência da maturidade afetiva e a ética fundamental dos vínculos complexos: a preservação do eu dentro da relação.

Muitas vezes, quando nos apegamos a pessoas que enfrentam transtornos emocionais – sejam eles ansiedade crônica, depressão ou outras vulnerabilidades – somos seduzidos pelo papel do “salvador”. Queremos consertar, curar ou ser a âncora que impede o outro de afundar. Contudo, essa postura, embora nascida do afeto, é insustentável e, paradoxalmente, prejudicial ao vínculo. Assumir a responsabilidade pela estabilidade emocional do outro é a receita certa para o esgotamento e o apagamento da nossa própria identidade.

A verdadeira força do amor em relações complexas reside no equilíbrio tênue entre presença e limite. Estar presente significa oferecer escuta empática, validação e apoio prático quando solicitado, sem nunca perder de vista a nossa própria integridade. É entender que nosso papel não é ser o terapeuta, mas sim o parceiro ou amigo que oferece um porto seguro, não a embarcação completa.

O respeito mútuo, nesse cenário, exige reconhecer a autonomia do outro sobre sua própria jornada de cura. O amor verdadeiro não anula a necessidade de fronteiras claras. Dizer “não” não é um ato de egoísmo, mas sim um ato de responsabilidade para com a própria saúde mental. Significa traçar limites claros sobre o que podemos ou não suportar emocionalmente. Se um ciclo de dor do outro exige que você abandone seus próprios cuidados ou sua paz, dizer “não” é um ato de autopreservação necessário, que paradoxalmente, permite que você permaneça forte o suficiente para oferecer um amor sustentável a longo prazo.

Amar sem se apagar é entender que o outro é responsável por sua dor, e você é responsável por si mesmo. É manter o afeto aceso, mas proteger a própria chama.

Otávio Avendano

Psicoterapeuta

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