99ª Expofeira Pelotas vislumbra o futuro do agronegócio regional

José Luiz Kessler é presidente da Associação Rural de Pelotas desde abril. (Foto: Lylian Santos)

Empossado em abril deste ano com a proposta de renovar o grupo que preside a entidade, trazer um grupo jovem para compor a diretoria e atrair novos associados, o atual presidente da Associação Rural de Pelotas (ARP), José Luiz Kessler, precisou dar uma pausa na sua agenda estratégica para, com a sua diretoria, organizar a 99ª edição da Expofeira Pelotas. À frente da entidade no período de 2015 a 2017 e da organização de duas edições da feira, agora, Kessler precisou encarar um desafio novo, organizar um evento da dimensão da Expofeira, em um prazo de menos de seis meses.

Já na primeira reunião de diretoria, em 14 de abril, a proximidade da Expofeira em outubro foi tema em pauta. “Seis meses é muito pouco para se preparar uma Expofeira, um evento com custo estimado em R$ 1,8 milhão”, ressaltou. E uma entidade que, segundo o presidente, não dispõe de liquidez de caixa, pelo contrário, passa por um momento de dificuldade financeira.

“A Expofeira é um risco e uma responsabilidade muito grande. Então, tive que renovar um contrato com a produtora, procurar e contratar uma nova assessoria de marketing e comunicação, já que a anterior se desligou por compromissos profissionais”, disse.
Até então, o grupo ainda não havia se debruçado sobre a realização da Expofeira, e em um ano difícil, em que o preço do arroz caiu de R$ 120 para R$ 60 e o da soja de R$ 200 para R$ 130. A pecuária, no entanto, ainda permanece firme entre as atividades que dão estabilidade aos produtores.

“Nós temos um outro universo aqui, que também precisamos mirar e que são novas atividades, como a vitivinicultura, as oliveiras, as florestas plantadas, o bovino de leite, equinocultura, entre elas, o Cavalo Crioulo com a potencialidade que tem para juntar gente, os pôneis, as ovelhas, e mais os eixos transversais, tributário, ambiental, segurança, trabalhista, são inúmeras áreas e todas elas precisam do olhar de uma entidade centenária”, afirmou.

Segundo o presidente, a sociedade pelotense tem uma expectativa muito grande em relação à Expofeira. “É um dos grandes eventos em que a cidade se mobiliza para visitar, as crianças verem os animais, circularem no parque, visitarem lojas, o Pavilhão da Agricultura Familiar, comprar um queijo, uma linguiça, trocar uma máquina ou um carro, é aquele momento em que a família inteira, o avô, o filho, o neto vêm passear, no parque, um lugar agradável”, disse.

Evento é um dos mais importantes do calendário do município. (Foto: QZ7 Filmes)

Uma feira de muitas atrações

Kessler diz que a torcida é para que o clima na semana do evento se mantenha bom e contribua mais uma vez para o sucesso da feira. “Temos uma pujante mostra de genética bovina, com leilões todos os dias, e da mais alta genética reconhecida, pelo Estado inteiro. Brangus, Montana, Angus, Ultrablack, Hereford, Braford, Pônei, cavalo Crioulo, ovinos, gado de leite.”

Além desta atividade intensa, há também espaço para o debate de diversos temas. “Vamos estrear uma arena nova, a Arena de Inovação com palestras simultâneas, silenciosas, no pavilhão do Gado Holandês”, comentou.

Além dos eventos já tradicionais, como o Simpósio de Ovinocultura, na segunda-feira (6), o Seminário de Bovinos de Corte, na terça-feira (7), o Seminário de Gestão Ambiental, na quarta-feira, Encontro das Bacias Hidrográficas, Seminário do Leite e Florestas Plantadas, a Expofeira deve trazer algumas novidades em eventos técnicos. “Na terça-feira à noite, com a presença da Raquel Taschetto, de Bagé, ocorre o Cooperconecta, um movimento que prepara o jovem para ser a mão de obra da agricultura do futuro”, revelou. Também irá repetir o que foi sucesso no ano passado, como a Fazendinha para as crianças e o projeto Vivenciando na Prática, para os alunos de ensino médio.

O presidente também menciona uma atividade coordenada por uma das diretoras da casa, Carolina Palmeira, juntamente com Fernanda Nogueira, conectada com o movimento nacional “De Olho no Material Escolar”, que prepara a revisão dos materiais para adequar à posição e à modernidade do agronegócio.

O lema da Expofeira deste ano é “Tecendo a história, plantando o futuro”. “Queremos trazer esta história pujante do agro regional e projetar este agro novo que chega, desafia, mas que também é uma forma de trazer uma revisão para o jovem de que este é um lugar de oportunidades”, explicou.

Kessler detalhou também que a ideia é seguir pela contramão de movimentos nacionais e internacionais, que preveem a desocupação da área rural e a migração para a área urbana. “Um jovem que vem para a área urbana não quer mais voltar, mas hoje temos tecnologias modernas, drones, robótica, animais controlados por chip, controles em telas de computador, smartphone, etc, o que está muito ligado com a pesquisa da academia, como a Embrapa”, ressaltou.

Altas expectativas

Segundo o presidente da ARP, a expectativa é de fazer uma feira equilibrada, com tempo bom e casa cheia. Ele menciona a dificuldade na venda de espaços, seja pela economia retraída e pela falta de percepção de parte do mercado empresarial, que não enxerga a Expofeira como um espaço para vender a sua marca. “Medem o resultado direto, imediato e a nossa é uma feira de conceitos, com foco educacional e de integração urbano-rural”, disse.

A perspectiva dos organizadores é realizar um evento que surpreenda positivamente. “Eu sou otimista e, apesar de todo o cenário, vamos ter uma feira e um parque muito povoado, com muita visitação, as pessoas estão carentes de se encontrar e precisam de um ponto de encontro”, previu.

O futuro da Associação Rural

Passada a Expofeira, o grupo começa a preparar o plano sucessório e o planejamento estratégico. Kessler aponta que a diretoria tem três vice-presidentes e as conversas apontam para uma transição serena com o reagrupamento de um time forte, que pode se renovar para o ano que vem, pois tiveram o cuidado de completar todos os cargos que o atual estatuto prevê. O seu retorno à presidência se deu por período temporário de um ano, que se encerra em 30 de março de 2026.

Alguns números da Expofeira 2024

Sob a batuta do ex-presidente Augusto Rassier, a 98ª Expofeira Pelotas obteve um faturamento de R$ 5,18 milhões na venda de animais com a realização de nove remates ao longo do evento. Nos sete dias da feira, o clima apresentou variações, com três dias de chuva, e culminando com um fim de semana de sol e temperaturas agradáveis. Segundo os organizadores, passaram pelo evento em torno de 130 mil pessoas.

No Pavilhão da Agricultura Familiar, um dos mais visitados do evento, as vendas fecharam em R$ 115 mil, com a participação de 31 empreendimentos. Com menor número de expositores em relação ao ano anterior, a venda individual por banca foi considerada muito próxima aos negócios realizados de um ano para outro. O evento recebeu 282 animais entre bovinos de corte e de leite, ovinos e equinos.

Entre os destaques da edição, a Fazendinha e a Escolinha do Agro, que receberam 1,8 mil crianças, nos sete dias de feira, a maioria estudantes das escolas municipais de Pelotas e municípios vizinhos. A feira também teve a marca da inovação com o lançamento da primeira Inteligência Artificial Tridimensional do agronegócio brasileiro, a Terra Campos. Desenvolvida não apenas para dar informações sobre o evento, mas também para desmistificar tabus sobre o agro e responder dúvidas sobre o setor, que ao longo da semana interagiu com o público.