O programa Caldeirão do Mion, apresentado por Marcos Mion, pela RBS TV/Rede Globo, tem momentos de pura ternura. No sábado, foi a presença do gaúcho Lorenzo Ferreira. Com autismo e deficiência intelectual, ele é músico, intérprete e comediante. Grande fã de Raul Seixas, que o inspira na sua luta por uma sociedade inclusiva, por meio das redes sociais, especialmente. Apresentado pelo pai, carimbou a frase “Quando o autista entra, o pai sai”. Com duplo sentido: o abandono quando se recebe o diagnóstico, ou, no caso, a entrada do “artista” tira de cena o outro personagem.
E foi o que aconteceu. Caracterizado como seu ídolo Raul Seixas, participou do espaço “A arte transforma”. Empático, não foi preciso muito para provocar a plateia a cantar um “pot-pourri” (sequência direta de várias músicas, trechos ou refrãos diferentes, executados um após o outro) do seu inspirador, como se pisasse no palco todos os dias. Com presença de espírito, cantando, chamou a atenção do pai: “Não chora, pai!” e da mãe, também insuflou a galera ao trocar a letra e, ao invés de usar o “Viva a sociedade alternativa”, entoou “Viva a sociedade inclusiva”.
Mion brincou que “o Lorenzo é zoeira pura!”. Conversando de pai para pai, a partir da sua própria experiência de ter um filho autista, falam com propriedade. Tendo o reconhecimento do rapaz apaixonado por música e que começou a se socializar graças a projetos musicais, como a Fábrica de Gaiteiros, do também gaúcho Renato Borghetti, Mion: “Quando você tá cantando como se sente, esquece da vida… A arte é ordinária, a gente precisa dela como precisa respirar”.
A apresentação e conversa renderam lances emocionados do responsável pela banda, Lúcio Mauro Filho, e dos atores Dudu Azevedo e Paulinho Vilhena, que enfrentaram Lenita Oliver e Jéssica Ellen no “Sobe o Som”. Ali estava um artista completo na sua incompletude. Todos os jargões ouvidos de pessoas que dizem o que não sabem fez perceber que seu potencial é imenso, privilegiando as representações e sentimentos pessoais, com a perda em maior ou menor grau da relação com aquilo que não conseguem assimilar. Precisando de acolhida e muito carinho.
A luta do Lorenzo por conquistar seu espaço é a mesma de muitos outros “Lorenzos” que não conseguem sair do anonimato. O certo é que, frente às câmeras, ou longe delas, possuem pais (especialmente, mães) que sacrificam boa parte de suas vidas na conquista do elementar: a inclusão. Transformar crianças e jovens, especialmente, em cidadãos com direito a um lugar ao sol. O programa, mais do que nunca, mostrou que informação e sensibilidade são recursos necessários para que a sociedade resgate uma dívida histórica, mas não impossível de ser paga…




