Procura-se os brasileiros

Sérgio Corrêa, jornalista e radialista.

Há pelo menos 525 anos, o povo brasileiro procura sua identidade. Tudo começou quando os portugueses se apropriaram das terras ocupadas pelos povos indígenas e, a partir de então, tentaram catequizar e transformar os indígenas em católicos e submissos ao império.

Os povos indígenas são exemplos de sociedades, de organização social do trabalho, na utilização das riquezas naturais, tem idiomas próprios, enfim, pode-se afirmar que cada povo é uma nação, com território e sociedade organizada de acordo com suas próprias leis e preceitos sociais, antropológicos e religiosos.

Procura-se os brasileiros II

Apesar dos conflitos, povos originários e colonizadores passaram a conviver no território brasileiro. Para não me estender, irei folhando muitas páginas da história até nos encontrarmos em 2025, em um Brasil diverso que recebeu homens e mulheres de todos os cantos do planeta, sobretudo do continente africano no período da escravidão — período que jamais deve ser esquecido.

O Brasil sempre foi diverso. É a pátria de africanos, europeus, asiáticos, americanos. São brasileiros, senegaleses, angolanos, sudaneses, árabes, palestinos, libaneses, israelenses, portugueses, italianos, alemães, poloneses, japoneses, chineses, uruguaios, paraguaios, argentinos, haitianos, venezuelanos e mais tanta gente de outras nacionalidades e etnias. Mas acima de tudo é o Brasil.

Procura-se os brasileiros III

Esse multiculturalismo do povo brasileiro sempre foi motivo de orgulho, assim como a condição de país laico, em que fé e religião são escolhas de cada um.

Até aqui falei sobre a história desse Brasil da esperança, da diversidade religiosa e étnica, do futebol, do Carnaval e da Amazônia. Este país que a grande maioria da população mundial vê, em certa medida, com a curiosidade de quem não o conhece. Sendo assim, proponho uma reflexão sobre o Brasil de fato, o país de hoje, por meio de uma visão externa sobre os brasileiros que alimentam a polaridade política.

Uma noite dessas encontrei uma brasileira

Era madrugada e, entre sonho e realidade, me deparei com um questionamento: qual deve ser a percepção de uma pessoa estrangeira, defensora da democracia, que conheceu o Brasil nos anos 2000 e, hoje, observa nosso país do exterior?

Vou reproduzir as perguntas que uma brasileira que reside na Espanha há 25 anos me encaminhou: “O que aconteceu com os brasileiros, que se tornaram inimigos uns dos outros? A quem interessa os brasileiros divididos?”.

Imaginando que ela, por estar fora do país, seria alguém com o discernimento necessário para estabelecer um diálogo em que sua percepção pudesse contribuir para responder sua própria pergunta, devolvi a ela a última parte da pergunta. “Para você, a quem interessa os brasileiros divididos?”.

De pronto ela exclamou: “Aos políticos!”.

A partir de então, continuamos naquele diálogo entre duas pessoas que não habitam a esquerda e nem a direita e, sobretudo, com respeito, se permitem ouvir a opinião do outro(a). Achei que isso não seria mais possível, mas foi, embora com uma brasileira que não reside aqui.

Voltamos ao interesse político pela divisão e concordamos que a divisão cria, para os políticos, um campo específico de atuação na política. Cria um inimigo a ser combatido e isso constitui um eleitorado fiel que, dominado pelo discurso, só aceita aqueles que pensam da mesma forma. Quem não pensa igual é inimigo — e sendo assim, o voto está garantido.

Houve concordância também sobre a política brasileira tornar-se muito semelhante ao futebol, dividido em times, que seriam os partidos, e jogadores, que seriam os políticos — que, por sinal, trocam de time e de partidos por interesses pessoais. Qualquer semelhança é mera coincidência. Ao fim, a torcida xinga um atleta adversário hoje e o aplaude amanhã quando ele estiver em seu time. Os maiores exemplos são Valdemar Costa Neto, Roberto Jefferson e o próprio governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que fizeram parte dos governos do PT de Lula e Dilma, mas agora estão em lados opostos.

A brasileira-hispânica trouxe um questionamento interessante de quem olha nosso país de fora. Se o Brasil está dividido e não há espaço para outra visão política no eixo ideológico, restringindo o pensamento político em apenas direita e esquerda, no qual a direita chama a esquerda de comunista, a esquerda chama a direita de fascista e o povo aplaude e defende esta divisão, então somos a soma de dois regimes inimigos da democracia que buscam destruí-la?

Não bastasse essa divisão que nos expõe para o mundo, um cidadão português oferece dinheiro para quem matar brasileiros e entregar-lhe a cabeça, como se fossemos um povo qualquer, sem valores. Será que este português nos vê assim?

Este senhor português supostamente deve pensar que ainda devemos submissão aos portugueses que foram nossos colonizadores, pois ainda estamos agindo como povo colonizado quando em solo brasileiro empunhamos bandeiras de outros países pedindo intervenção política e até militar em nossa própria pátria.