A vida na estação da primavera

Manoel Jesus, educador. (Foto: Divulgação)

O fim de agosto traz a sensação de que o inverno acabou. Cuidado, não é bem assim. A sonhada primavera só se apresenta oficialmente quase no final de setembro. Até lá, o consolo é que a temperatura fica amena, a gente dá uma folga para o guarda-roupa e admira brotos teimosos que começam a se espreguiçar. Os dias são maiores e quem madrugada já encontra os primeiros raios de sol no caminho para o trabalho. No fim do dia, volta para casa nos estertores da claridade.

Primaverar é o sonho que anima cada mortal em dia gelado, quando a umidade congela os ossos e o assobio do vento minuano faz com que até o espírito se encolha. Os “valentes”, adoradores do frio somente o fazem porque se transformam em cebolas com uma imensidade de camadas de roupas. Descascam conforme o sol das temperaturas mais civilizadas faz seu chamado por um toque de pele. Naqueles dias em que a melhor receita ainda é lagartear e comer bergamota.

Ao longo da vida, aprende-se que, em cada etapa, vivenciam-se experiências diferentes. A infância pede espaços amplos e seguros onde o ar fresco e o sol fazem a dobradinha perfeita para ainda ser feliz com muito pouco. A juventude clama por atividades em conjunto, de preferência em liberdade, no tempo que se deseja aprisionar e, ao não poder mantê-lo para sempre, ao menos o desejo ardoroso de que se transforme em doces lembranças.

Ser adulto é o tempo da responsabilidade compartilhada. Estamos convencidos de que somos cuidadores dos parceiros, filhos, pais, irmãos, amigos. As necessidades próprias não são percebidas, mas sim as daqueles que nos circundam. Inclusive, com o direito deles ao sol. Por fim, quando se envelhece, com olhos fechados, possivelmente uma manta por sobre as pernas e o desejo de que todos os que nos acompanharam ainda estivessem no mesmo banco, ao nosso lado.

A vida primavera em cada novo dia em que se abre os olhos. Definir a estação pela qual o espírito está passando é o que motiva a novamente sair da cama, abrir as janelas e compartilhar da luz do sol. Presentes ou não, as pessoas continuam dando sentido à existência de cada um. Armazenados nas saudades – ou, quem sabe, esperando por um telefonema – vivencia-se o sentimento de que as mudanças de estação agitam as águas às vezes não tão plácidas da solidão…