Gado

Sérgio Corrêa, jornalista e radialista.

Eis a música: A letra da música “Admirável Gado Novo”, composta e interpretada por Zé Ramalho desde 1979, define a relação de parte dos políticos com o povo brasileiro.

“O, boi!

Vocês que fazem parte dessa massa   

Que passa nos projetos do futuro      

É duro tanto ter que caminhar          

E dar muito mais do que receber

É ter que demonstrar sua coragem

A margem do que possa parecer

É ver que toda essa engrenagem

Já sente a ferrugem lhe comer

Eh, oh, oh, vida de gado

Povo marcado, eh!

Povo feliz!

Lá fora faz um tempo confortável

A vigilância cuida do normal

Os automóveis ouvem a notícia

Os homens a publicam no jornal

E correm através da madrugada

A única velhice que chegou

Demoram-se na beira da estrada

E passam a contar o que sobrou

É o Brasil

[Repete o refrão]

Oh, boi

O povo foge da ignorância

Apesar de viver tão perto dela

E sonham com melhores tempos idos

Contemplam essa vida numa cela

Esperam nova possibilidade

De verem esse mundo se acabar

A arca de Noé, o dirigível

Não voam, nem se pode flutuar”

Os políticos brasileiros permitiram que o Brasil chegasse a este ponto, onde a garantia de um trabalho, a estabilidade financeira, um bom plano de saúde e outros benefícios tornaram-se artigos de luxo, disponíveis de forma restrita aos membros do Congresso Nacional, do Judiciário, do Executivo e mais meia dúzia.

A pesada carga tributária para quem empreende, os baixos salários para os trabalhadores, os altos custos na produção industrial que se refletem no comércio, somados aos custos e riscos do setor agropecuário, colocam capital e trabalho em um confronto em que a solução é única: redução de custos. Nessa batalha, acabam explorando-se uns aos outros para sobrar dinheiro, enquanto a política e os políticos tratam de tributar mais, arrecadar mais e, consequentemente, ganhar mais e sustentar suas regalias.

Respeitando a opinião de quem pensa diferente de mim, trago exemplos da hipocrisia política, da mentira disfarçada de ideologia. O exemplo mais real é quando o povo acredita sem oferecer a si mesmo o benefício da dúvida.

Exemplo 1: a política mente e a religião acredita?

Políticos e legendas partidárias que estiveram no poder durante a Ditadura Civil-Militar, época em que pessoas foram mortas por razões políticas, mudaram totalmente o comportamento. Estes políticos e seus partidos, que antes apoiavam as atrocidades cometidas pelo estado brasileiro, tornaram-se religiosos – hoje se dizem seguidores e tementes a Cristo, esquecendo que o próprio Cristo nos deixou como ensinamento amar ao próximo como a si mesmo. O amor é seletivo? Apenas quem pensa igual a mim é merecedor deste amor?

Exemplo 2: o coronelismo que planta candidatos onde quer e o povo vota

Como Jair Bolsonaro (PL) está inelegível, ele e Valdemar Costa Neto – que participou do Mensalão, foi preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na época em que apoiava o governo Lula (PT) – querem impor ao estado de Santa Catarina a candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado.

Eu até poderia dizer que voltamos aos tempos dos coronéis, mas não vou fazer isso, pois os catarinenses gostaram muito do título de “estado bolsonarista” e demonstraram subserviência quando elegeram Jair Renan Bolsonaro como vereador em Balneário Camboriú quando Renan não conhecia sequer um bairro da cidade. Agora, resta ao povo catarinense curvar-se e eleger mais um Bolsonaro que trata a política apenas como uma oportunidade.

Exemplo 3: o Partido Novo defende o estado mínimo para quem?

O Partido Novo – que não queria o fundo eleitoral, que defende a meritocracia e o estado mínimo – tem em seu quadro um ex-deputado estadual que foi eleito com a legitimidade do voto, cumpriu um mandato, mas não se reelegeu. Seguindo o que prega o partido, qual deveria ser a atitude desse político? Deveria retomar sua atividade como profissional liberal, empreender. Entretanto, não foi o que aconteceu. Ele tornou-se secretário municipal de outra cidade gaúcha. O estado deve ser mínimo para os outros, desde que não falte um lugar para alguém do Partido Novo.