Viagem

Imagino a minha vida como uma longa e interessante viagem. E escolho o trem como meio de transporte. Em um avião, a paisagem é feita de nuvens e chega-se muito rápido ao destino.  Prefiro ver campos, rios, curvas em uma velocidade compatível com a do meu olhar.

A minha viagem iniciou quando nasci. Embarquei na estação com meus pais. Os outros passageiros eram desconhecidos. Aos poucos, esses passageiros desconhecidos foram tomando parte nas conversas ao meu redor e integraram-se como irmãos, primos, amigos. Já não estava viajando em pouca companhia. Lentamente, formava-se uma família. E era divertido. Brincávamos muito e ainda ouço o som dos risos da infância.

Algumas pessoas desciam nas paradas do trem e eu acenava, enquanto pegavam suas bagagens. Tudo tão natural e simples! Outras subiam e se acomodavam em seus lugares com muita seriedade. E a viagem seguia seu rumo.

Minha poltrona não ficava junto à janela. Eu precisava me esticar para observar o retrato que a natureza projetava no pequeno quadrado de vidro. Sempre por sobre o ombro de alguém.

Cresci e adquiri o direito de escolher o lugar que preferia. Escolhi a janela porque, assim, poderia relatar cada trecho da vida desenrolando-se no paralelo dos trilhos.

No trem da minha viagem, muitos dos meus companheiros queridos e mais próximos embarcaram depois de mim, e tantos outros desceram antes, em estações em que o trem não deveria ter parado. Impossível detê-los. No bilhete de passagem que adquiriram, o trajeto já estava determinado. Dali em diante não podiam seguir. Meus acenos de despedida dilaceraram a vidraça e as mãos arranharam o peito com estilhaços de dor.

O trem seguiu seu itinerário e eu continuei no meu.

Paisagens várias e múltiplas justificaram a razão da minha permanência no comboio. E eu ainda tinha companheiros de jornada que não prescindiam da minha companhia. Necessária, pois, a continuidade. Tornei-
me amiga de muita gente e participei de todas as atividades a bordo nas tarefas que me foram confiadas. Entretanto, não pude esquivar-me de desencantos e equívocos. Nem sempre a viagem era agradável, por mais que assim eu desejasse.

Atualmente, na maior parte do tempo, me sinto solitária, como se me faltasse um pedaço, um complemento. Como se faltasse um sentido diferente para a travessia.

Foi em um desses instantes de muita solidão que passei do real ao imaginário e fitei o horizonte, percebendo ao longe as luzes de mais uma estação.

Afinal, a imaginação permite que eu crie apenas momentaneamente, a presença do sempre esperado na viagem da minha vida.

Fico na expectativa da próxima parada e sigo escrevendo sobre a jornada, documentando impressões.