
Um dos grandes destaques do 13º Congresso Brasileiro do Arroz Irrigado foi a participação da pesquisadora da Embrapa Soja, de Londrina, Paraná, Mariângela Hungria, premiada em maio deste ano pelo World Food Prize, conhecido como Nobel da Agricultura. Para ela, a indicação ao prêmio foi uma grande surpresa e uma distinção inesperada por se tratar de um dos prêmios mais concorridos do Mundo, por todo os países e a indicação é feita por um comitê cujos integrantes ela desconhece e os motivos que os levaram a indicá-la. “Eu só posso imaginar que seja pela resistência, resiliência e perseverança de sempre trabalhar com biológicos”, disse.
Ela conta que são 40 anos de trabalho, que iniciou numa época em que ninguém acreditava em biológicos. “O grande diferencial foi ter pessoas que começaram o estudo com biológicos no Brasil, um deles o professor João Ruy Jardim Freire, no Rio Grande do Sul, e a doutora da Embrapa Johana Dobereiner, no Rio de Janeiro, nas décadas de 1950 e 1960, e nos formaram para dar continuidade a estes estudos”, ressaltou. No seu caso, uma visão um pouco diferente, já que os biológicos eram direcionados à pequena agricultura familiar e orgânica e ela pensava em escala, explica. “Quando comecei o trabalho quis selecionar e ver se era possível aplicar aos super-grandes, altos rendimentos, pois desenvolvendo uma tecnologia para o grande também funcionaria para o pequeno e médio”, explicou.
Segundo ela, trata-se de um grupo de pesquisadores e também a indústria envolvidos. “A primeira indústria destes produtos biológicos os quais eu trabalho substituindo os fertilizantes químicos é aqui de Pelotas, a Leivas Leite, que teve a ajuda do professor João Freire para sua montagem”, contou. Este histórico ajudou a impulsionar o País nesta área colocando-o como líder mundial no uso de biológicos, ressalta. “A repercussão do prêmio está ajudando a mostrar que os produtores, e eu trabalho desde os sem-terra até altos exportadores, são preocupados com sustentabilidade e saúde do solo e se nós não mantivéssemos uma agricultura sustentável não seriamos líderes nos biológicos e plantio direto”, afirmou.
A pesquisadora diz que o maior problema ambiental que se tem hoje são as pastagens degradadas, que além dos programas de incentivo existentes, também inclui o uso destes biológicos na recuperação destas pastagens. O uso dos biológicos com as leguminosas começou principalmente com soja no Rio Grande do Sul, que hoje é o líder em uso. “85% de toda a área cultivada com soja no Brasil usa todos os anos o inoculante de fixação biológica de Nitrogênio e 35% está usando o que chamamos de coinoculação, que é o que fixa Nitrogênio e a bactéria que sintetiza fitormônios”, explicou. Com gramíneas, como o arroz o uso é bem rcente, diz. “O primeiro inoculante foi lançado em 2010, há 15 anos, e tomando como exemplo o milho, está em mais de 40% da área de inverno e 23% na de verão”, ressaltou.

Mariangela ressalta que o crescimento foi muito rápido e no arroz irrigado, liderado pela Embrapa Clima Temperado, os resultados são fantásticos. “Foi lançado o primeiro produto comercial destinado ao arroz com sucesso enorme e a tecnologia já mostrou que consegue reduzir em 25% a adubação pelo produto biológico, trabalho liderado pela colega Maria Laura Mattos.”
A pesquisadora apresentou seu trabalho com a Produção de Insumos Biológicos no Brasil, já que trabalha há décadas com Biotecnologia do Solo, com ênfase em processos microbianos de fixação biológica do nitrogênio e outros mecanismos de promoção de crescimento de plantas, microbiologia aplicada à agricultura. Já recebeu mais de 30 premiações nacionais e internacionais e possui mais de 500 publicações técnico-científicas.
Ela integrou o quarto painel sobre Desafios e Oportunidades para o Uso de Bioinsumos em Arroz Irrigado. Segundo ela, ainda não há tecnologia disponível para uso de biológicos em 100% das lavouras brasileiras, mas para 50% a 60%, o que pode ser alcançado no curto prazo. “Investindo em ciência e tecnologia, na velocidade em que tudo ocorre hoje, é possível chegar a 100%”, finalizou.



