História que nos move: restauros de patrimônios impulsionam a economia na Zona Sul do RS

Projetos de restauração em Pelotas, Jaguarão, Arroio Grande e outras cidades envolvem centenas de profissionais, reativam ofícios tradicionais e fortalecem cadeias produtivas locais. (Foto: QZFilmes)

Na Zona Sul do Rio Grande do Sul, o passado está sendo recuperado — e, com ele, também se renova a economia. Pelotas e municípios vizinhos vivem um ciclo promissor de obras de restauro em prédios históricos, que vêm gerando empregos, ativando cadeias produtivas locais e valorizando ofícios tradicionais.

Em Pelotas, cidade com o maior número de projetos em andamento, a secretária de Cultura, Carmem Vera Roig, reforça o impacto dos restauros. “Cada prédio restaurado movimenta a economia local, gera empregos, atrai visitantes e inspira orgulho. Investir no patrimônio é também investir no futuro da cidade”, conta.

Com recursos da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS), diversas obras seguem em andamento, incluindo os restauros do Theatro Sete de Abril, do Museu da Baronesa, do Conservatório de Música, da Catedral Anglicana e do Obelisco Republicano. A previsão da Prefeitura é concluir as obras do Sete e da Baronesa ainda este ano.

Além desses, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE-RS) também financia outros projetos em execução na região sul, viabilizados via LIC-RS: Igreja Imaculada Conceição (Jaguarão), Teatro Municipal de Rio Grande (Rio Grande), Granja Assis Brasil e Castelo de Pedras Altas (Pedras Altas) e a Capela de Santa Isabel (Arroio Grande).

À frente de boa parte desses projetos está a Perene Patrimônio Cultural, responsável por obras como o restauro da Catedral São Francisco de Paula e da Igreja do Porto, em Pelotas, além da Igreja Imaculada Conceição, em Jaguarão, e da futura recuperação da Capela Santa Isabel, em Arroio Grande.

A arquiteta Simone Neutzling lidera projetos com impacto em vários setores da economia regional. (Foto: QZFilmes)

Segundo a arquiteta, Simone Neutzling, cada projeto mobiliza entre 150 e 200 pessoas, entre empregos diretos e indiretos. “As obras de restauro movimentam toda uma cadeia. O impacto vai além do canteiro: envolve a construção civil, a economia criativa, fornecedores locais e profissionais especializados, criando um ecossistema que fortalece a região como um todo”, afirmou.

Mais do que obra, desenvolvimento
A cadeia formada em torno das restaurações inclui pelo menos 90 profissionais especializados, como arquitetos, engenheiros, historiadores, arqueólogos, restauradores e arte-educadores. Nos canteiros, outros 60 trabalhadores da construção civil atuam diretamente. Além disso, cerca de 50 empresas fornecedoras atendem aos projetos com materiais como madeira, cal, telhas e equipamentos específicos.

“Com a nossa experiência, vimos fornecedores locais se reposicionarem, valorizando técnicas e materiais antigos. Isso fortalece um mercado que antes era pouco explorado e hoje é essencial para a preservação do patrimônio”, destacou Simone.

A cadeia formada em torno das restaurações inclui pelo menos 90 profissionais especializados. (Foto: QZFilmes)

Fornecedores locais na engrenagem do restauro
Entre os fornecedores envolvidos nos projetos espalhados pela região estão pessoas como Milton Souza, que trabalha há várias décadas com sinteco e acabamentos em madeira e tem encontrado nas obras uma nova oportunidade para impulsionar os negócios de sua empresa familiar, que tem investido pesado no aperfeiçoamento técnico da equipe para atender a demanda desse novo mercado.

“Esses projetos trouxeram um novo fôlego. A gente voltou a fazer o que sabe, com qualidade, respeitando o jeito antigo. Isso nos recolocou no mercado e trouxe os filhos de volta pro negócio”, contou.

Leonardo Ferreira, gerente comercial da Madeirão Florestal, empresa especializada no comércio de madeiras, também destaca a abertura do novo nicho como extremamente positiva para os negócios. “As obras de restauro abriram um mercado que a gente não explorava. Agora, fornecemos materiais que respeitam o projeto original e ajudam a preservar a história das cidades”, afirmou.

Cada projeto mobiliza, em média, entre 150 e 200 profissionais de diversas áreas. (Foto: QZFilmes)

Formação e legado
Diante da carência de profissionais especializados no mercado de trabalho, a Perene criou a Escola de Restauração, iniciativa que oferece formação prática diretamente nos canteiros. A iniciativa busca garantir mão de obra qualificada e preservar o conhecimento técnico necessário para esse tipo de trabalho. “Mais do que restaurar prédios, estamos formando pessoas e fortalecendo a identidade das cidades”, disse Simone.