Não perguntei por onde andas porque não me interessam mais os teus caminhos. Os carinhos da brisa da manhã no meu rosto são leves e não deixam vestígios.
Assim, meus passos seguem conforme o espaço sem os limites dos teus abraços e um sorriso entre os lábios brinca de esconde-esconde, fugindo dos teus fascínios.
Das noites de lua cheia, só lembro de estar dormindo no aconchego dos raios que passam pelas frestas das cortinas transparentes. Nenhum vulto surge das sombras e nem recordo teu nome.
Hoje me sinto a mais jovem das criaturas porque estou liberta do teu eterno cansaço. Soltei as amarras que me prendiam a monotonia do sempre igual.
Palavras não ditas e gestos vazios foram deixados para trás. Encho minhas horas de sons e meus movimentos dançam no ar.
Guerreira e valente, sou frágil cristal que trincou sem quebrar. E, por ser assim, surjo das sombras como a luz do amanhecer, que desenha no horizonte cores de nunca e de sempre.
Nas voltas que a vida traça, fomos caminhos cruzados sem rota ou destino certo. E do incerto se fez a rede que nos soltou.
Subtraímos o afeto em uma equação sem nexo e dividimos o resto em partes desiguais. A balança perdeu o nível e os pratos vazios ostentam o vácuo do que não existe.
Sem conseguir escapar do antes e do durante, ficou somente o depois. E o depois é um nascer de novo que ilumina meu olhar com brilhos de voltar a ser.
Esse texto me chegou aos pensamentos como água de cachoeira, transbordando palavras em torrente abundante.
E mergulhei meus dedos com vontade por entre as teclas do computador na mesma rapidez com que se formavam as frases no meu cérebro.
Talvez, alguém em algum lugar há de se identificar com o conteúdo que surpreendeu a mim mesma e me enlaçou para uma dança ao redor da escrivaninha onde costumo escrever.
Escritores têm dessas coisas. Do nada e de repente se criam textos inexplicáveis e que, nem por essa razão, devem deixar de ser expostos.
Quem escreve tem a tarefa de tentar explicar os segredos dos labirintos da alma. E como há mistérios a serem descobertos nas caminhadas do dia a dia!
Que sejam fecundas as palavras aqui transcritas no solo fértil dos leitores que buscam, como eu, o encantamento da literatura para descobrir suas próprias verdades.
No misterioso momento da criação de uma crônica, tudo é silêncio. Os sons chegam lentamente em uma música interior, que acompanha o ritmo do toque nas teclas. E se desenrola o carretel das palavras sem freios ou limites porque a tessitura do texto se impõe como vocação.
E vocação exerce uma força intensa e extensa da qual não se consegue escapar.




