
Quando alguns piratas preparavam carnes defumadas nos antigos portos do Caribe, usavam uma grelha que lá no século XVII recebia o nome “boucan”.
Essa técnica de preservar a carne, naquela época sem geladeiras, acabou dando nome aqueles maus elementos que passaram a ser chamados de “bucaneiros”.
Seria algo como se, nos dias atuais, alguém operasse uma chapa de preparar hamburguers e fosse denominado chapeiro (termo que não é usado – ao menos para designar traidores).
Já tendo denominado navios pequenos, canhões e todo tipo de piratas, o termo atravessou os séculos e no presente é comum seu sentido figurado: bucaneiro é um tipo de flibusteiro, que se comporta de maneira questionável visando atingir seus objetivos pessoais acima de quaisquer outros, não medindo as consequências de suas ações.
Jornais europeus dos últimos dias têm dedicado várias matérias relativas ao caso do militar ucraniano que estava traindo seu país – embora servidor público da Ucrânia – fazendo intrigas e levando informações que favoreciam a Rússia, a despeito dos prejuízos causados a seus compatriotas. Essa alta traição faz dele um bucaneiro, um flibusteiro.
Jornais portugueses, sempre agradáveis de ler, o designam simplesmente como “toupeira”, termo que por lá preferem usar.
Noticiam que ele, por ser remunerado por um país e trabalhar para o êxito de outro, prejudicou diretamente seus compatriotas e por isso corre o risco de receber uma alta sentença de prisão.
Essas deslealdades existem desde sempre e foram muito bem aproveitadas pelo teatro grego.
Sófocles, cerca de 400 anos antes de Cristo, escreveu Antígona, cuja trama de fundo aborda uma traição.
Polinices, sobrinho do Rei, se alia a estrangeiros para atacar seus compatriotas. Em meio ao conflito, morre. Como traições desse tipo eram das coisas mais vergonhosas que um homem poderia cometer, o Rei Creontes determinou que diante daquela desonra, ele perderia o direito de ser sepultado no solo que traiu. Que o defunto Polinices tivesse seu corpo largado a esmo, sem sepultura e que servisse de repasto a corvos e cães famintos.
Claro, estou falando de uma tragédia grega, que é o que é: uma lambança sem fim.
A história de Antígona é interessante, aborda conflitos entre as leis dos deuses e as leis dos homens e vale a pena ser lida por quem ainda não a conhece.
Em suma, Polinices também era um flibusteiro, antes do termo existir.
Qualquer um pode, sem fazer um grande esforço de memória, pensar em alguém inconsequente, que em algum momento, sendo assalariado no serviço público de um país, tome o rumo de outra pátria com o objetivo específico de tramar contra seus compatriotas, dando elementos para estrangeiros praticarem algum tipo de chantagem internacional que no fim acabe afetando aqueles cidadãos que são os pagadores do seu salário.
E não precisa ter sapecado hamburguers, não é necessário ter defumado nacos de carne, se ajudou a desempregar compatriotas, se atentou contra a economia do seu país, adotou práticas bucaneiras, flibusteiras e não carece de simples ou sofisticados adjetivos. Se você lembrar de alguém, certamente terá identificado um tardio personagem de Sófocles. Ou uma autêntica toupeira portuguesa.



