Jantávamos num domingo à noite, conversando sobre assuntos de igreja, quando veio à baila a temática que abordei no texto passado, “Pastoral e compaixão”. A vontade de seguir essa pauta, tratando do que chamo de “pastoral da solidão”. E o que seria isso? O atendimento a quem se isola (ou foi isolado) pela idade, doença ou carência afetiva. Pessoas que, por um período, sentem-se fragilizadas (devido a depressão, ansiedade…), mas nem sempre querem – ou podem – demonstrar.
É preciso distinguir entre quem optou por restringir seus grupos, sociais ou familiares, de quem desenvolve um problema psicológico, tanto na dificuldade de manter relacionamentos, quanto nas situações em que evita o convívio social. Para quem fracassa em ser acolhedor, a dor começa na dificuldade de estender os braços (o abraço). Aqueles que evitam a intimidade – o que é uma opção equivocada, diga-se de passagem –, algum dia, serão cobrados um alto preço emocional.
Ouvi experiências recentes, como a da Lyl, que convidou um ex-colega de curso para tomar um café da tarde e poderem conversar. Descobrindo os problemas de família que foram sendo expostos na descontração de quem até pode falar, mas sabe, também, ouvir. Padre Flávio contava dos dias que reserva para visitas, buscando a intimidade das famílias, na qual o diálogo se dá com mais facilidade, abrindo portas para conhecer melhor aqueles e aquelas com os quais trabalha.
Independente das opções feitas, de viver só ou de mergulhar na solidão, todos precisamos de alguém, em algum momento, para continuar o voo da vida. Na maior parte das vezes, não há uma explicação racional para a escolha, mas uma proximidade com quem ensina ser mais difícil voar sozinho e que o voo alheio é sempre inspiração que nos alça aos céus. O roteiro de voo não é o mesmo, mas favorece as condições de se “abastecer” do combustível mais puro que existe: uma boa e velha amizade.
Num dos textos mais lindos que já li, dois meninos se encontram. Um é cadeirante e o outro um piá folgado e disposto a qualquer travessura. O que parecia impossível, aconteceu: ficaram unha e carne! Criando invenções de fundo de quintal, como um carrinho que seria um avião, pronto para qualquer voo. A pergunta feita pelo deficiente ao outro: “Por que fazes tudo isto por mim?”. Sem precisar pensar muito, o outro responde: “Sei lá, quem sabe porque ninguém voa sozinho…”. A solidão é o voo que se tenta fazer sozinho, mas se redescobre que precisa de alguém para não errar o destino.




