Eu queria, se eu pudesse, rever todos os amigos que adquiri desde a infância para partilhar abraços inesquecíveis.
Eu queria, se eu pudesse, brincar de roda com as lembranças como se eu fora uma menina e não tivera medo de perdê-las.
Eu queria, se eu pudesse, viajar pelo mundo das emoções sem ter que pagar ingresso e nem precisar de “vistos” no passaporte como se fora estrangeira.
Eu queria, se eu pudesse, fotografar a vida e ampliar todo o bom momento em um cartaz imenso de outdoor.
Eu queria, se eu pudesse, escapar da incerteza, da indecisão entre o melhor e o pior, entre o ir e vir, entre o sempre e o nunca.
Eu queria, se eu pudesse, sacudir a inércia dos sentimentos que estão apáticos no ostracismo.
Eu queria, se eu pudesse, impedir os naufrágios dos risos na amplitude do mar de lágrimas.
Eu queria, se eu pudesse, fazer brotar do coração jardins de perfume em meio aos espinhos que ferem.
Eu queria, se eu pudesse, fugir do alcance da inveja para voar invisível nas asas de uma fada mágica, chamada: imunidade.
Eu queria, se eu pudesse, aprisionar a tristeza em uma torre e libertar a alegria, a deixando solta pelos ares.
Eu queria, se eu pudesse, ver o horizonte como marco de esperança, como linha de chegada, como curva de rio.
Eu queria, se eu pudesse, recortar os instantes de felicidade do jornal da existência e confeccionar um álbum para folhear vez ou outra.
Eu queria, se eu pudesse, encontrar respostas para as perguntas de ontem que insistem em se repetir hoje.
Eu queria, se eu pudesse, ouvir a voz do silêncio sem medo de suas verdades.
Eu queria, se eu pudesse, sentir menos solidão na companhia de tantos.
Eu queria, se eu pudesse, reinventar afazeres para mudar a rotina do previsível e esperado na monotonia dos dias.
Eu queria, se eu pudesse, trazer de volta o tempo que perdi, deixando de viver o mais importante, postergando para depois o lado bom da paisagem.
Eu queria, se eu pudesse, acrescentar mais tempo ao total do já vivido para fazer o que eu, agora, quero e o que eu ainda posso.




