
Apesar de ser o município com o maior número de minifúndios do Brasil, são mais de 18 mil propriedades cadastradas no Certificado de Cadastro do Imóvel Rural (CCIR), Canguçu ainda tem uma agricultura baseada em monoculturas. Segundo dados da Emater-Ascar/RS, entre as principais culturas, estão o fumo, a soja, o milho, a fruticultura (pêssego, morango, oliveiras e figo) e a pecuária. Em meio a esse cenário, começam a florescer algumas iniciativas de um novo modo de produção mais sustentável e capaz de produzir alimentos mais saudáveis: a agroecologia.
Na divisa entre o 1º Distrito de Canguçu, localidade da Glória, e o 7º Distrito de Pelotas, Santa Helena, está localizado o Sítio Novo Mato, uma propriedade familiar dedicada à produção agroecológica. O empreendimento é tocado por Jayne Coutinho de Oliveira, de 27 anos, e seu marido Eric Kurz Mielke, de 29, casal que têm transformado a pequena propriedade em um exemplo de produção diversificada e sustentável.
A produção do Sítio Novo Mato é adaptada às necessidades do mercado local e possui um firme compromisso com a sustentabilidade. “Produzimos verduras, legumes e feijão, além de alguns temperos, pois percebemos que era mais fácil vender um pouco de cada coisa do que uma grande quantidade de um único produto”, explicaram.

A comercialização, porém, não é simples. No momento, a família vende seus produtos diretamente na porta de casa e também em um restaurante vegano de Pelotas. Além disso, parte da produção de feijão é negociada com cooperativas locais. “Pretendemos concentrar mais as entregas e talvez disponibilizar só para restaurantes, cooperativas e programas institucionais”, comentou Mielke.
Um dos grandes projetos do Sítio Novo Mato é o pomar de citros, implantado no ano passado. A aquisição das terras será possível por meio do programa Terra Brasil, permitindo que a família compre a área onde o pomar foi implantado. A produção será destinada à Cooperativa dos Citricultores Ecológicos do Vale do Caí (Ecocitrus).
O despertar para a agroecologia
Criado na zona urbana de Canguçu, Jayne conta que jamais havia pensado em trabalhar na agricultura por achar o trabalho muito maçante e sacrificante, especialmente, pela necessidade de lidar com agrotóxicos. “Só conhecia a agricultura convencional, que é um trabalho massante, cheio de veneno e tal. Isso me preocupava muito”, contou.

A agroecologia entrou em sua vida por acaso, em um momento que procurava uma válvula de escape para melhorar sua saúde mental e ganhou protagonismo durante o curso Técnico de Agroecologia, que fez na Escola Família Agrícola da Região Sul (Efasul), em Canguçu.
“Foi um novo olhar para o lugar onde eu estava. Vi a possibilidade de fazer aquilo que eu mais gostava, que era estar na terra”, comentou. A decisão de voltar ao campo foi um ponto de recomeço. “Começamos com pouco e devagar vamos construindo nosso futuro. Nossa feira está crescendo e estamos ocupando outros espaços, como o Bem da Terra”, disse, sem esconder o orgulho do progresso conquistado.
Filho de agricultores e criado na zona rural, Mielke diz ter encontrado na agroecologia uma oportunidade de reconciliação com as próprias raízes, mas de uma forma que considera mais consciente. “Passei minha infância e pré-adolescência morando na campanha, onde estava sempre junto nas lavouras, onde meus pais e meu avô trabalhavam. Com o tempo, a família foi se desfazendo, e boa parte da terra foi vendida. Eu, minha mãe e meu irmão ficamos com um pequeno pedaço de terra, onde nossa casa foi construída”, contou.

Após o término do Ensino Médio, Mielke trabalhou como peão e cumpriu o Serviço Militar Obrigatório. Quando voltou para Canguçu, a rotina da cidade também não o agradou e decidiu retornar ao campo. Foi nessa busca por um trabalho mais alinhado aos seus valores que descobriu o curso de Agroecologia e, foi quando diz ter se apaixonado pelo novo modo de produção que descobriu. “Aprendemos a cultivar em pequenos espaços e vimos a oportunidade de produzir alimentos saudáveis para a família e também para outras pessoas”, comentou.
Desde 2020, a família cultivava uma pequena horta e entregava a produção diretamente nas casas dos clientes. Ao olhar para o caminho percorrido até aqui, o casal lembra das dificuldades de produzir sem agrotóxicos e dos obstáculos na comercialização, mas se diz feliz em não ter desistido. “Não abrimos mãos de nossos princípios e, hoje, estamos mais estáveis, mas cada dia é um novo desafio”.
A busca por um futuro sustentável
Estabelecer uma produção agroecológica em uma região dominada pelas monocultoras e pela cultura da agricultura convencional, com uso de herbicidas, tem sido um desafio.
“Ainda temos muitas dificuldades para superar, principalmente por estar cercados por agricultura convencional. Sabemos os malefícios que isso causa, mas, apesar disso, sou extremamente grata e feliz por onde estou hoje. A agroecologia é o caminho mais lindo e completo para ser trilhado”, observou Jayne, que diz ter nos filhos a principal motivação para insistir na atividade.
Para além da produção da lavoura e pomar, a família vê na atividade uma forma de construir um futuro autossustentável. “Eu sonho com um futuro autossuficiente em alimentos e energia, em uma propriedade agroecológica, que se torne uma reserva ambiental, para que eu possa dar um retorno à natureza que tanto tem sofrido”, disse Mielke.




