
O Rio Grande do Sul possui mais de 300 mil agricultores, agricultoras e pecuaristas familiares em atividade na produção de alimentos. A estimativa é do presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag-RS), Carlos Joel da Silva, que destaca as peculiaridades da atividade. “A região Sul do Brasil (PR, SC e RS) tem uma agricultura familiar muito forte, inserida no processo produtivo. Produz todos os tipos de alimentos, desde feijão, arroz, hortifruti até carnes bovina, suína e frango”, ressaltou.
“A pecuária familiar, que até pouco tempo não era muito comentada, está se desenvolvendo fortemente. Temos agricultores familiares também na soja, trigo, milho — em todas as culturas e na pecuária”, continua. Segundo ele, mais recentemente as agroindústrias familiares vêm ampliando sua participação na produção industrial, gerando empregos e renda. “A agricultura familiar não é mais uma atividade de subsistência, mas uma que investe em tecnologia, compra sementes de ponta, valoriza a propriedade e está fazendo a diferença. Gera emprego, renda e ajuda a construir a riqueza do Estado e do país”, reiterou.
A Fetag atua em questões fundamentais para garantir que o produtor tenha condições de continuar produzindo, aumente sua renda e motive os jovens a permanecer no campo, dando continuidade ao trabalho da família. “Esse é o trabalho da Fetag: defender o produtor em todas as frentes e ajudar a construir políticas públicas que permitam seu desenvolvimento e a continuidade na produção de alimentos, que é sua vocação”, afirmou.
Contudo, o momento atual é de apreensão, segundo o dirigente. Foram cinco anos consecutivos com problemas climáticos: três de seca e dois de enchente. Essa sequência comprometeu a saúde financeira dos produtores, que precisaram gastar suas economias. “Sempre enfrentamos secas e enchentes, mas eram eventos isolados, com um ano ruim seguido de três a cinco safras boas”, explicou.
A sucessão de perdas trouxe um cenário preocupante. Muitos agricultores acumulam dívidas vencidas, e as prorrogações oferecidas até agora foram insuficientes. “Tivemos duas prorrogações de custeio. No ano passado, as dívidas foram adiadas por quatro anos, com 25% da parcela vencendo no próximo ano. As deste ano foram prorrogadas por três anos, com mais 33% a vencer. Isso representa 58% de um custeio atrasado”, detalha. “Se o produtor buscar novo financiamento, terá um novo custeio somado a essas dívidas.
Nenhuma cultura hoje oferece lucratividade suficiente para cobrir isso. Quem prorrogou está em dia, mas ficará endividado novamente a partir do ano que vem”, lamentou.
Além disso, os preços das produções não têm sido valorizados. “O arroz, por exemplo, teve uma superprodução, mas o preço está abaixo do custo de produção”, diz. Segundo ele, as políticas atuais relacionadas às mudanças climáticas não atendem às necessidades reais dos agricultores.
De acordo com Silva, todos os produtores foram impactados, de alguma forma, pelos eventos climáticos. “Quem não teve lavouras invadidas pela água ou perdas pela seca, enfrentou problemas de mercado ou dificuldades de escoamento pela precariedade das estradas, o que aumenta os custos e reduz a renda”, avaliou.
A Fetag e seus 312 sindicatos filiados têm forte atuação junto aos agricultores. “Estamos na ponta, prestando suporte técnico — muitos sindicatos contam com técnico agrícola, engenheiro agrônomo ou veterinário”, afirma. Também oferecem insumos a preços reduzidos aos associados, contribuindo para a diminuição dos custos. A Federação ainda mantém convênios para a adoção de novas tecnologias nas propriedades e para a captação de recursos destinados à preservação de biomas como a Mata Atlântica e o Pampa.
A atuação inclui ainda o suporte documental ao produtor, com a realização de cadastros, encaminhamento de financiamentos agrícolas e benefícios previdenciários, por meio dos sindicatos. “Mais do que isso, buscamos sempre a defesa do produtor, que é a razão de existir dos sindicatos e da Fetag”, concluiu.



