“Existe vida depois da violência doméstica”, ensina quem conseguiu romper o ciclo da dor

Apoio da família e rede de proteção é fundamental para que as vítimas consigam se libertar da violência doméstica. (Foto: Eduarda Borges)

Na série de reportagens “O ciclo da dor”, o Jornal Tradição Regional se debruçou sobre um tema preocupante e necessário de ser debatido: a violência contra as mulheres. Na primeira parte, publicada na edição 978, foram apresentados os números da violência nas três maiores cidades da Zona Sul – Pelotas, Rio Grande e Canguçu – e as ações de uma das principais iniciativas de proteção: a Patrulha Maria da Penha. No segundo capítulo, veiculado na semana passada, os leitores souberam como a rede de proteção e acolhimento está estruturada e funciona nos municípios.

Encerrando a série, o JTR traz os relatos de três mulheres que venceram o ciclo de violência com o apoio da família, amigos e dos órgãos institucionais de proteção e acolhimento após uma sequência de sofrimentos intensos, mas sem esquecer das marcas deixadas pelas agressões.

As duas primeiras entrevistadas optaram por não se identificar, por isso foram criados nomes fictícios e preservadas informações sobre as cidades onde residem.

Boa leitura!

Capítulo I – A violência em números

Capítulo II – A rede de proteção e acolhimento

Capítulo III – Vencendo o ciclo da violência

Em uma época na qual a rede de proteção de mulheres vítimas de violência era escassa, a servidora pública aposentada Regina, de 63 anos, enfrentou desafios no acolhimento até romper de vez com o ciclo de agressões iniciado antes mesmo do casamento, no final da década de 1980. Ela conta que muitas das brigas eram motivadas pelo uso excessivo de bebida alcoólica por parte do marido. Porém, optou por seguir com a relação, levando em conta o sentimento que nutria pelo companheiro e o preconceito da sociedade à época com mulheres divorciadas. “Nós éramos criadas pra aturar de tudo num casamento, principalmente por conta dos filhos. Eu também achava que ele poderia mudar com o tempo”, contou.

As violências físicas e os abusos psicológicos perduraram por aproximadamente oito anos. Nesse meio tempo, Regina teve duas filhas, o que não impediu ou diminuiu a violência. “Ele me batia mesmo grávida da nossa primeira filha. Apanhei até o último mês de gestação. Da segunda, ele estava tentando parar de beber, então, respeitou. Não me bateu, mas bebia. Daí, as violências psicológicas continuaram. Eu vivia com medo, principalmente nos finais de semana, quando ele mais parava em casa, era motorista. Depois que a nossa segunda filha nasceu, ele voltou a me bater”, lembrou.

A servidora pública aposentada relata que foi acolhida e em diversas ocasiões incentivada pela família a registrar boletins de ocorrência, contudo, o marido foi preso apenas uma vez, tendo ficado menos de um dia detido.

“O pessoal na delegacia, quando eu ia registrar ocorrência, muitas vezes ficava me olhando com um olhar de julgamento, no estilo ‘ela aqui de novo?’. Uma vez ouvi de um policial que ‘se estava ruim, por que eu não me separava? Por que eu voltava para ele, se eu gostava de apanhar?’. Outra vez escutei: ‘em briga de marido e mulher não dá para meter a colher’”.

O ciclo de violência foi rompido depois que Regina e o marido ficaram separados por cerca de seis meses e, posteriormente, ele resolveu buscar ajuda nos Alcoólicos Anônimos (AA). Mais de 27 anos depois de passar por uma das situações mais difíceis de sua vida, ela enxerga avanços na rede de acolhimento às vítimas de violência doméstica.

“A sociedade melhorou bastante de 1998 para cá! Tem lei que ampara, delegacia especializada e diversos centros voltados a essa proteção. Talvez, na minha época, se houvesse esse apoio todo, eu teria saído dessa situação mais cedo. Graças a Deus não aconteceu o pior, como em muitos casos. Nossas filhas estão bem criadas, superaram o trauma, amam e respeitam muito o pai. E eu e ele nos damos bem”.

Aposentada desde fevereiro deste ano, Regina não descarta a possiblidade de ingressar em algum projeto voltado ao combate à violência contra a mulher para encorajar outras mulheres que estão nessa situação. “Já andei acompanhando algumas reuniões da Rede de Apoio e gostaria muito de levar a minha história como incentivo”, disse.

“Ele dizia: ‘Se não fosse eu, tu não seria ninguém!’”

A pedagoga Liliane, de 38 anos, rompeu um ciclo de violência psicológica que começou aos 20, quando conheceu o homem com quem viveria por quase 15 anos. O relacionamento, segundo ela, parecia ideal. “Desde a primeira vez que a gente ficou, a gente nunca mais se soltou”, contou.

Sete meses depois, veio o noivado. O casamento foi marcado em seguida, antes mesmo de completarem um ano de namoro. Logo construíram uma casa. “Ele organizava tudo: as finanças, a obra. Eu me sentia cuidada”, lembrou.

Com o tempo, surgiram sinais de controle. “Ele escolheu o piso da casa sozinho. Disse que era surpresa. Depois, quando tirei carteira de carro e moto, foi para eu dirigir para ele”, lembrou. Ela diz que foi ficando dependente, pois trabalhou até engravidar, sete anos depois do casamento e depois, passou a ficar em casa cuidando da filha.

A mudança de rotina com a maternidade não foi bem recebida pelo marido. “Ele começou a trazer os amigos pra dentro de casa. Eu queria que a prioridade fosse nossa filha, mas ele queria manter a rotina de festas”.

Ela lembra de agressões verbais e um empurrão durante a gravidez. “Eu me lembro que a gente brigou uma vez e ele me jogou uma toalha no rosto e me empurrou pra cima do sofá. Eu, grávida, achei que ele estava nervoso, que foi só um momento de raiva”. Sem renda própria, Liliane sentia que não tinha para onde ir. “Ele dizia: ‘Se não fosse eu, tu não seria ninguém. Volta pra casa da tua família. Eles não vão te acolher’”. Contudo, para a sociedade, Liliane afirma que a imagem era outra. “Nós éramos tachados como a família perfeita, todo mundo nos elogiava muito”.

A decisão de mudar veio aos poucos. Um retiro religioso acendeu um alerta. “Ali eu vi como era o tratamento de um casal. Eu pensei: estou vivendo errado”. O nascimento da filha reforçou a urgência de dar outro exemplo. “A única referência profissional dela era o pai. E a mamãe? O que que a mamãe é? A mamãe é várias coisas, mas diante da sociedade não é nada”.

Liliane, então, decidiu estudar, concluiu uma graduação–paga com apoio parcial do marido, que depois cobrava a fatura dizendo que só havia conseguido porque ele havia pago – e a entrada em um curso de capacitação representou uma virada de vida. Em dois meses, recebeu convite para trabalhar em uma instituição de referência e, claro, encontrou a resistência do marido. “Ele começou a me pressionar. Dizia pra eu não sair, não viajar, que eu estava abandonando a casa”.

A situação ficou insustentável até que decidiu romper o relacionamento. No início, enfrentou dificuldades financeiras e teve de enfrentar a resistência da família, que não apoiou a decisão. Hoje, todavia, conseguiu superar as dificuldades e diz não se arrepender da decisão.

“Existe vida depois da violência doméstica”

A recepcionista rio-grandina Márcia, de 47 anos, sabe que o silêncio alimenta a violência. Foram 27 anos de um relacionamento marcado por agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais. Ela resistiu até onde pôde. “No namoro eu já sofria violência. Eu sabia que não era normal, mas tinha esperança de mudar”, contou.

Hoje, livre do agressor e vivendo sob uma medida protetiva, Márcia tenta reconstruir a vida. Trabalhando em uma entidade de apoio social, ela se sustenta sozinha, mora com seus animais de estimação e vive um novo relacionamento, que, segundo ela, é “sadio, com respeito e cumplicidade”. Mesmo assim, carrega marcas emocionais profundas. “Tenho ansiedade, dificuldade para dormir, pesadelos, perdas de memória”, relatou.

A escalada de violência chegou ao ápice quando o ex-companheiro encostou uma faca em seu pescoço, exigindo a confissão de uma suposta traição. “Eu tive que usar de muito argumento para ele me deixar sair de casa. Ali eu vi que precisava sobreviver.” O plano de fuga foi elaborado por meses, durante os quais escondia roupas na casa da filha, pesquisava imóveis para alugar até que saiu de casa sem olhar para trás, mas ainda teme reencontrar o agressor. “Uso rastreador até hoje. Sei que não vou poder usar para sempre, mas me dá um pouco de tranquilidade”.

A decisão de denunciar não veio sozinha. Márcia recebeu apoio do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) Marcia Regina Mello de Freitas, da Patrulha Maria da Penha, do Ministério Público e de colegas de trabalho, que presenciaram episódios de constrangimento. “O CRAM me ligava todos os dias. Eu tinha medo, mas não estava mais sozinha”, diz.

A recepcionista deixa um recado às mulheres que vivem situação parecida. “Existe vida depois da violência doméstica. Não escutem quem diz o contrário”.

Olhar do MP sobre o caso

Segundo a promotora Valdirene Sanches Medeiros Jacobs, da Promotoria Especializada no Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Rio Grande, as vítimas de violência doméstica e familiar são de todas as idades, raças e classes sociais, com maior incidência entre mulheres de 20 a 40 anos, o que também se aplica aos agressores.

Um avanço no enfrentamento da violência doméstica tem sido o fortalecimento da rede de atendimento, especialmente após 2021, com a superação das restrições impostas pela pandemia da Covid-19. A promotora destaca que houve também um crescimento significativo das parcerias com instituições públicas, privadas e voluntários, que oferecem desde apoio material até serviços especializados, como capacitação profissional e inclusão no mercado de trabalho.

Cooperação entre instituições é apontada como fundamental pela promotora para fortalecer redes de apoio. (Foto: Divulgação)

Os principais desafios enfrentados atualmente, de acordo com a promotora de Justiça, incluem o aumento de casos envolvendo vítimas e agressores com dependência química, além da vulnerabilidade socioeconômica mais acentuada de muitas famílias, o que exige soluções em áreas como saúde mental e assistência social.

Desde 2019 atuando exclusivamente na Procuradoria, Valdirene reforça o avanço da rede de apoio às mulheres em situação de violência doméstica no município. “Hoje, graças a todo esse movimento e ao acolhimento de rio-grandinos que se somaram a esta causa, a rede de atendimento em Rio Grande certamente é uma das mais fortes do Estado do Rio Grande do Sul, com inúmeros voluntários e parceiros, entre eles profissionais liberais, empresas, instituições públicas e universidades, o que determina que as vítimas sejam melhor e mais efetivamente atendidas em suas demandas e, por isso, tenham condições de mais facilmente romper e superar a violência”.

Saiba onde denunciar:

· Deam Pelotas
Telefone: (53) 3310-8181
Endereço: Rua Barros de Cassal, nº 516 – Areal
Sala das Margaridas Pelotas
Telefone: (53) 3310-8600
Endereço: Rua Prof. Dr. Araújo, nº 900 – Centro

· Deam Rio Grande
Telefone: (53) 3237-4884
Endereço: Rua Marechal Floriano Peixoto, nº 42
Sala das Margaridas Rio Grande
Telefone: (53) 3237-4850
Endereço: Rua Mal. Floriano Peixoto, nº 42, Centro

· DP Canguçu
Telefone: (53) 3252-7876
Endereço: Rua Teófilo de Souza Matos, nº 55, Centro

Disque 197
Disque 180
Disque 181
Disque 190
Delegacia On-line da Mulher